domingo, 3 de junho de 2012

Ui! O Lanterna Verde é Gay!

Eu leio gibis.
E esse é um post enorme, explicando vários personagens de gibis. Só que é mais, também. Vou falar sobre a tal homofobia e sobre como o universo dos quadrinhos evolui, de acordo com os temas da sociedade.

Para iniciar, quero que você veja a postagem em que falei para que precisamos de heróis. O exato porquê de terem existido os quadrinhos:


Ok, agora que você já sabe de onde vêm os quadrinhos, eu vou lhe dizer: eles são um negócio. Um negócio que já movimentou trilhões. Em um mundo em que os roteiros originais andam se esvaindo, os gibis já têm guardados quase cem anos de histórias. Boas e más.
E vou contar: há como continuar esse negócio por mais alguns séculos, com os mesmos personagens, sem perder nem um pouco da emoção.

Qual o segredo? A evolução do personagem.

Os personagens, nos gibis, são tão bons quanto os roteiristas que estão trabalhando neles.
Quando um bom roteirista assume um personagem para um arco de histórias, costuma impor a sua visão sobre o herói. Por isso que existem tantas mudanças de uniforme. Por isso existem até algumas mudanças de ideias, atitudes e até personalidades dos personagens. Poderes, então? O que mais acontece é personagem redescobrindo "a verdadeira extensão dos seus poderes". Ou "novas formas de utilizar os poderes".

Meu pai odeia, por exemplo, a forma como a DC transformou o detetive bundão semi-gay, que era o Batman em sua origem, em um amargurado, sombrio e depressivo justiceiro.
Eu já acho que o Batman era muito legal, em sua origem, e conseguiram melhorar ele demais, com o passar dos tempos.

A cada era, novos personagens são criados e os antigos são "repaginados", para manterem-se sempre atualizados.

Isso aconteceu com a Mulher-Maravilha e a revolução feminista. Isso aconteceu com o Homem-Aranha e a geração dos anos 80. Os heróis vão se adaptando, mudando.

Creio que não seja mistério para qualquer um que o meu universo preferido seja o da DC. Já fui MARVEL maníaco. Ainda tenho mais gibis do Homem-Aranha, do que da Liga da Justiça. Mas, se é para ler histórias fantásticas, que sejam absurdamente fantásticas. E é nisso que a MARVEL peca, ao meu ver. Seus heróis são humanizados demais. Muito foco em problema particular. Todas as coisas extraordinárias, como a origem dos poderes dos heróis, tentam ser explicadas de uma maneira viável.

Não existem super-heróis, certo? A origem dos poderes não precisa ser algo coerente ou plausível!

No universo DC, meu personagem favorito é o Lanterna Verde, sim.

Só que é preciso compreender que o personagem existe desde a segunda guerra mundial, e já foram feitas várias versões dele. Sim, ele foi sendo alterado, com o passar do tempo.

O primeiro Lanterna Verde da DC chamava-se Alan Scott, e fazia parte da Sociedade da Justiça!

Seu anel é energizado pelo Coração Estelar, e sua fraqueza é a madeira.
Alan Scott é, sim, um super-herói que envelheceu, nos gibis. Sua personalidade é marcante e não foi fácil modernizar a Sociedade da Justiça. Substitutos foram bolados, para que os personagens pudessem evoluir.

Mas, como Alan Scott tinha muitos fãs, ele não morreu. Nos Gibis, ele absorve o Coração Estelar, que retarda o seu envelhecimento.
Alan Scott tem um casal de gêmeos: Jade e o Manto Negro. Jade possui a pele verde e é boa. Manto Negro tem poderes sombrios e sofre de muitos distúrbios. Essa dualidade em seus filhos pode ter sido causada pela magia do Coração Estelar.

Só que, aqui, havia um problema: como tirar Alan Scott de cena, para colocar outro Lanterna Verde, mais moderno, nos gibis?
A solução? Criaram uma "Terra 2", só para a Sociedade da Justiça. Essa Terra 2 seria re-unificada à Terra e Alan Scott viraria uma espécie de "mentor" dos heróis mais novos. O triste é ver a sua esposa envelhecendo, enquanto ele ainda é jovem.

O segundo Lanterna Verde deveria ser alguém mais moderno. Criado no pós-guerra, deveria ser alguém com apelo tecnológico, em lugar de mágico. Foi então que a DC resolveu expandir o personagem e criar os Guardiões e a Tropa dos Lanternas Verdes!


Sim, os Guardiões dividiram o universo em 7200 setores, e designaram um Lanterna Verde para cada.

O primeiro Lanterna Verde terráqueo, designado para o setor da Terra (2814), é Hal Jordan. O do filme que saiu ano passado. Ele recebeu o anel de Abin Sur, um alienígena moribundo que caiu na Terra.

Com Hal Jordan e a Tropa vieram explicações de uma tecnologia alienígena maravilhosa, que coletava a força de vontade dos seres conscientes, de todo o universo. Essa energia é armazenada em uma bateria central, em formato de lanterna, que fica no planeta que está no centro do universo. Através dos anéis e de suas própria força de vontade, os Lanternas Verdes podem utilizar essa energia para materializarem praticamente qualquer coisa que suas imaginações possam criar.

Porém, os anéis desses Lanternas Verdes também possuem uma fraqueza: a cor amarela.

Com a arma mais poderosa do universo e uma atitude arrogante e até debochada, Hal Jordan conquistou milhões de fãns, pelo mundo a fora.

Mas, os guardiões queriam que Jordan tivesse um reserva. Os nanicos azuis simplesmente não acreditavam que o gladiador esmeralda (ARGHT que apelido horrível) desse conta do recado, sozinho. Achavam que faltava alguma coisa em Jordan. Então, designaram John Stewart como seu reserva.

Você conhece John Stewart: ele é o Lanterna Verde dos desenhos animados. Aqueles que passavam no SBT. 

Eu acho ele um herói que "não fede nem cheira". Não é espetacular, mas, também, não compromete. Sua fase como Darkstar foi muito mais gloriosa.

Durante os anos 80, Alan Scott já amargava histórias sem muito público na Terra 2. E os dois Lanternas Verdes da era de prata já estavam ficando desatualizados. A DC precisava de mais.

E os anos 80 pediam algo engraçado e revolucionário.

Então, criaram a Crise nas Infinitas Terras (o melhor arco de histórias de todos os tempos) para unificar e reordenar todas as histórias, de todos os universos paralelos.

Nessa Crise, os guardiões deram um anel para Guy Gardner. Foi uma época com um Lanterna Verde que estava mais para um palhaço perigosamente poderoso, do que para um super-herói com virtudes. Guy é, claramente, um anti-herói. Até faz as coisas certas mas, geralmente, do modo ou pelos motivos, errados.

Guy participou como Lanterna Verde da pior Liga da Justiça que já existiu, em termos de aventuras. Mas da melhor, em termos de piadas.

Eu não gosto desse Lanterna, também. Depois de dois gibis com ele, você se cansa do modo atabalhoado e prepotente de Guy Gardner.

Vendo que o mundo não aceitou Guy Gardner, a DC - sabiamente - fez pequenas modificações em Jordan, e o trouxe de volta. Jordan desbancou Guy e ficou mais um tempo como coadjuvante no universo DC.

Mas, como os lanternas eram um ícone, algo deveria ser feito, para restaurar a glória dessa franquia. E foi feito. Talvez um dos melhores arcos de histórias da DC tenha sido o da loucura, morte e renascimento de Hal Jordan.

Quando Jordan volta à Terra, depois de uma missão no espaço para a tropa, ele descobre que Mongul e o SuperCiborgue haviam destruído sua cidade natal, Coast City. Já inconsolável, Jordan vai até OA, exigir que os guardiões lhe deem poder para ressuscitar Coast City. Quando ele recebe uma resposta negativa, fica louco. Mata todos os guardiões, os outros Lanternas Verdes que estavam no caminho dele e "mergulha" na bateria central, drenando todo o poder de todos os Lanternas Verdes e, no processo, se torna o vilão Parallax.

Um dos guardiões - Ganthet -, no entanto, consegue sobreviver e se teletransporta para a Terra, com um pedaço da bateria central. Em um esforço sem tamanho, forja um último anel e o entrega para Kyle Ryner.


O último Lanterna Verde da Terra - e meu super-herói favorito - é Kyle Ryner. Ele, durante uns 10 anos, foi o único Lanterna Verde do universo. Não teve treinamento, teve que combater Parallax sozinho e manteve a chama dos Lanternas Verdes acesa, quando ninguém mais pode.

Em uma das brigas com Parallax, Kyle destrói o que sobrou de OA, imaginando que, assim, Jordan não ficaria mais poderoso.

Kyle é um artista, e o principal motivo pelo qual eu gosto desse personagem é que ele usa bem o anel. É criativo. Ele não cria só "bolhas" ou "luvas de boxe", para resolver as coisas. Ele sempre dá toques criativos, bons designers para suas criações. É bonito e empolgante ver as soluções que ele cria, enquanto usa seu anel.

Kyle Ryner acaba convencendo Parallax a salvar a Terra na saga Noite Final. No processo, Kyle acaba se tornando o único a drenar a energia da Força de Vontade do universo inteiro, só que muito lentamente.

Com o passar dos anos, ele sente o poder aumentando, até que se transforma em Íon. Um entidade quase divina. Como Íon, Kyle se torna um dos super-heróis mais poderosos do universo, e passa a fazer bem, galáxia a fora.
Depois de algum tempo refletindo, ele decide restaurar OA, os guardiões e a bateria central.

Sinceramente, só um super-herói muito foda abriria mão de poderes divinos, para reativar todo um exército de benfeitores cósmicos.

Nesse tempo, Alan Scott esteve perto de Kyle Ryner como conselheiro e... Sogro! Sim! Kyle teve um romance com Jade!

Kyle chegou a pedir Jade em casamento, oferecendo-lhe um segundo anel de Lanterna Verde (até então o do Kyle era o único do universo). Bem legal esse arco de histórias, também. Melhor que o romance de Peter Parker e Mary Jane Watson. Recomendo muito!

Agora, na última semana, a DC resolveu publicar a homossexualidade do Lanterna Verde. Só que esqueceu de, juntamente com isso, divulgar em larga escala qual dos Lanternas Verdes saiu do armário!

Em um processo de atualização do personagem, Alan Scott... Aquele mesmo... do anel vulnerável à madeira... O vovozão rejuvenescido através da mágica do Coração Estelar... 

Então, este mentor de super-heróis foi quem assumiu um relacionamento com outro homem, nos gibis da Terra 2.


Minha opinião sobre isso tudo? Simples. É a renovação de um baita personagem, com uma imensa carga de valores morais e sabedoria. Acho que não há nada demais em trazer temas atuais para os gibis, ainda mais quando o personagem só tem a crescer com a nova roupagem.

E, assim como tudo o mais nos gibis, se a história der certo a característica será mantida e o personagem - que já foi um dos maiores da DC - pode voltar a ter a evidência que sempre mereceu.
Se a história não der certo, sempre há a possibilidade de se voltar atrás e tentar abordar o assunto de outras formas, em outros momentos, com outros personagens.

Lembro que, há alguns poucos anos, o assunto já tentou ser posto em pauta. Bárbara Gordon (A BatGirl que ficou paralítica e, hoje, é a Oráculo) é lésbica assumida. Só que pareceu que os leitores não receberam muito bem a ideia. Uma pena.