quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Segunda-Feira Típica...

Ela é mais ou menos assim, para todos nós...


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Responsabilidade Emocional

Há uma linha tênue no meu cérebro. Uma linha de nylon extra-fina e transparente, daquelas invisíveis enquanto esticadas em um belo dia de sol de verão.

Essa linha divide os conceitos de controle absoluto e de liberdade absoluta.

Porque, para mim, não há meio termo nesta dualidade. Ou o ser humano é livre por completo, ou está sendo controlado por completo. Dizer que você pode fazer tudo o que quiser, exceto alguma coisa, já é uma forma de te controlar absolutamente. Ao perderes a liberdade absoluta, já és um escravo. E não existem "meios-escravos".

Desculpem minha falta de modéstia, mas eu penso. Penso muito, penso em temas mais importantes e penso mais do que a esmagadora maioria de vocês. Enquanto vocês perdem tempo com BBB's, eu estou lendo conteúdos para saciar minha sede de conhecimentos. O problema é que cada nova resposta se mistura com o que eu já sabia antes, gera novos pensamentos e, com eles, aparecem novas perguntas.

"Só sei que nada sei" é uma falácia. Sabemos muito, mas cada novo conhecimento aumenta o nosso horizonte de coisas que não sabemos. E não é porque enxergamos quilômetros de dúvidas, que vamos desprezar nossos metros de conhecimento.

O resultado de todo conhecimento acumulado até hoje, somado à minha tendência de me apaixonar por utopias, resulta em um Arthur apaixonado pela liberdade. Pelo liberalismo. Pela luta incessante de prover uma linha de largada justa para todas as pessoas e, dali em diante, que cada consciência guie cada indivíduo pelo caminho que melhor lhe convier.

Sem eleitos, sem beneficiados, sem proteção, sem "coitadismo", sem bolsa-família, seguro desemprego ou qualquer outro tipo de passada de mão sobre a cabeça. 

Mas...

Como já falei ali em cima, isso é uma utopia. Não, não é culpa do capitalismo, dos governos ou de qualquer outro fator externo. A liberdade total é uma utopia por que o ser humano não é capaz de cumprir as exigências para ser livre de verdade.

Nós, seres humanos, somos animais. E engana-se quem afirma que somos animais racionais. Nós temos só uma parte do nosso cérebro racional, e essa parte racional não está no controle das nossas ações! A maior parte do nosso cérebro ainda é primitiva, instintiva, irracional, egoísta, auto-preservativa, ignorante, entregue às sensações mais básicas e profundamente estúpida.

Amigo, vamos deixar claro que precisamos estabelecer o pacto social para conseguirmos chegar à esta MERDA DE SOCIEDADE que temos? Sim, como diria o Agente Smith em Matrix, estamos no auge da nossa civilização. Nunca o ser humano viveu tanto e tão confortavelmente. Nossos mendigos de rua têm qualidade de vida maior do que muitos cidadãos trabalhadores da idade média. Mas, mesmo assim, nossa sociedade é uma piada. Ainda hoje pessoas morrem de fome e o problema não é falta de comida, mas a péssima logística de transporte de mantimentos, unida com políticas esdrúxulas e a sede por lucro de políticos corruptos e das grandes empresas.

O ponto é que se não fossem as leis que dissessem que uma pessoa não pode roubar ou matar outra pessoa, as pessoas estariam vivendo em um regime pós-apocalíptico, protegendo os poucos bens que lhes dão conforto com as próprias vidas! Cada um viveria dentro de sua própria gaiola, tentando isolar o resto do mundo do interior da sua propriedade...

OH WAIT A SECOND!!!

O que eu estou tentando mostrar é que nós não fomos feitos para desfrutarmos da liberdade total. Nós somos macacos usando sapatos. O Gabriel, o Pensador cantou certa vez que "E cuidado com esse branco aí parado do seu lado / Porque se ele passa fome / Sabe como é: /
Ele rouba e mata um homem / Seja você ou seja o Pelé". Tá certo, a música "Lavagem Cerebral" era sobre racismo... Mas essa frase é universal: quando nossas necessidades não são atendidas, nós nos transformamos em tudo o que há de pior.

Você lembra da pirâmide das necessidades, né? Necessidades fisiológicas -> Segurança -> Social -> Estima -> Realização. Experimenta tirar qualquer uma das bases de sustentação dessa pirâmide de alguém, para ver se o indivíduo não pira na batatinha e não se perde...

Portanto, amigo, a liberdade absoluta é um jogo perigoso. Ela exige que você TENHA CONHECIMENTO e SAIBA PENSAR, para que você possa usufruir de todos os benefícios.

E esses pré-requisitos são, por si só, já um tipo de limitador de liberdade: para que a sociedade se sinta segura, todos devem pensar de modo similar. E, para garantir isso, os mais velhos incutem na educação dos mais jovens os pensamentos que desejam que a próxima geração tenha. "Programamos" o pensamento das nossas crianças, para que (pelo menos a maioria d) elas creditem valor aos conceitos que nós damos valor.

Então, uma vez um novo adulto formado com o pensamento padronizado do nosso modo, damos-lhe liberdade. A liberdade total para fazer tudo o que nós colocamos na cabeça dessa pessoa que ela poderia fazer.

E, amigo, isso não pode ser muito diferente, não. Como disse lá em cima, a liberdade total é uma utopia. Porque, na liberdade total, a única coisa que te impede de me matar é o teu discernimento se isso é uma coisa certa ou errada a ser feita. E o único modo que descobrirmos para garantirmos as nossas vidas é incutirmos uns nas cabeças dos outros que matar pessoas é errado...

Ou seja, não somos responsáveis o suficiente. Não temos conhecimento o suficiente. Não processamos os parcos conhecimentos adequadamente. E, definitivamente, não tomamos atitudes inteligentes por falta de base.
Portanto, nós não estamos prontos para vivermos em um ambiente de liberdade total. Infelizmente, precisamos de leis, de regras e de lavagens cerebrais para conseguirmos co-existir.

Queres ver um exemplo desta dualidade?

Relacionamentos amorosos nos nossos dias.
O envolvimento íntimo é uma coisa tão importante na pirâmide de necessidades, que aparece em todos os seus estágios.
Fisiologicamente, o sexo é uma atividade instintiva importante para cada ser humano.
A Família constituída a partir do relacionamento garante Segurança para o indivíduo.
E uma família bem constituída já supre as necessidades sociais do indivíduo, também.
Um relacionamento coeso satisfaz todas as necessidades de Estima.
E, caso o relacionamento esteja no centro de sua vida, ele pode satisfazer sua necessidade de realização de vida.

Mas, mesmo sendo tão importante, damos total liberdade para todos os indivíduos, de todas as idades, para escolherem seus parceiros, lidarem com a sua sexualidade, escolherem os métodos de condução do relacionamento e para, inclusive, terminarem os laços do modo que acharem melhor.

Ao fazermos de um copo d'água, de um prato de comida, de uma cama para dormir ou de um teto para nos proteger algo diferente de uma pessoa que nos ame, estamos banalizando toda a pirâmide de necessidades dos indivíduos.
Desestruturamos de tal modo, que muitas pessoas passam a desacreditar os relacionamentos amorosos, apenas utilizando-os para atenderem suas premissas fisiológicas.

Quem aqui nunca ouviu as frases estúpidas:
1 - "Não fico com o porco inteiro só por causa da linguiça!";
2 - "Pra que comprar a vaca inteira se eu posso só tomar o leite de graça?".

Um relacionamento é coisa séria. Tão séria que deveria ser parametrizado. As pessoas deveriam ter mais auto-conhecimento. Saberem daquilo que buscam para suas vidas.
Mas, como já mostrei, as pessoas não têm conhecimento. E não conseguem pensar o suficiente sobre o pouco que têm, para criarem suas próprias conclusões em harmonia com as demais.

Entenda: eu sou um utópico. E gosto da ideia de liberdade total. Aliás, está me doendo escrever contra a utopia de um mundo realmente livre, aqui. Mais uma vez o peso da realidade cinza e cruel está esmagando meu sonho leve e colorido.
Mas o fato é que o amor é mais do que a coceira no seu órgão genital. O amor é mais do que encher uma casa de pessoas com quem tu se sente bem. O amor é mais do ter iterações sociais, de estima ou de auto-realização.

Um relacionamento afetivo bem construído pode ir além de atender necessidades e gerar uma vida maravilhosa para os envolvidos.

O importante é que as pessoas entrem no relacionamento com os mesmos objetivos. Com as mesmas intenções.

E essa isonomia de interesses emocionais é tão importante, que é insano darmos tanta liberdade sentimental às pessoas, sem a devida instrução prévia.
E aí entra, novamente, a dualidade: incutimos os valores nas cabeças dos jovens, para que eles vivam de acordo com a nossa cultura, ou nos esforçamos para dar (a quase todos) eles as bases sólidas a partir das quais conseguiriam ter relacionamentos sadios.

E porque eu tenho tanta preocupação com esse tema? Por que, amigo, ainda existem "ladrões de galinha", sim. Gente que rouba para dar de comer para seus filhos. Temos criminalidade por causa de drogas e confronto de cartéis, também.
Mas a enorme maioria dos crimes que acontecem no mundo inteiro são passionais.

Pessoas perdem a cabeça com relacionamentos instáveis. Produtividades são desperdiçadas pelo tempo com tratativas em relacionamentos desiguais. Existem milhões de pessoas sofrendo dentro de relacionamentos, porque o casal se ama, mas não são feitos um para o outro.
E, quando um destes relacionamentos acaba, o sofrimento é compartilhado entre os dois. E triste do casal que teve filhos, porque o sofrimento escorre para a próxima geração, também.

Aliás, já foi comprovado que a maior parte dos mendigos masculinos são, apenas, homens que tiveram o coração partido, não seguraram o tranco emocional, caíram em uma depressão, perderam o emprego, se entregaram a vícios, etc...
O surto de depressão que o mundo está sofrendo não tem sua causa muito longe da decepção amorosa. Nossas vidas são vazias e, se não encontramos alguém por quem vale a pena morrer, sentimos-nos inúteis, dispensáveis... "Só mais um no meio da multidão".

Agora, se o indivíduo não tem um bom preparo psicológico, vemos diretamente sequestros, violência, agressão, suicídios e assassinatos, mesmo. De uma hora para outra a pessoa que tanto fazia bem se transforma em uma fonte de dor. O mundo inteiro cai, as metas pelas quais valiam a pena morrer perdem completamente seu sentido, as perspectivas se esvaem e não dá mais para ver o futuro, pois este fica turvo...

Eu gostaria de viver em um mundo aonde todos nós soubéssemos, instintivamente, viver de modo harmonioso. Aonde bastasse olhar no rosto da outra pessoa para saber de suas intenções. Aonde o conhecimento fosse realmente valorizado por todos e todas as nossas conclusões fossem parecidas.
Mas a verdade é que não somos assim. A verdade é que somos animais irracionais na maior parte do tempo e precisamos de adestramento para vivermos em sociedade.
E no que tange relacionamentos amorosos, a saída, por enquanto, é buscarmos pessoas que tenham um adestramento parecido com o nosso. Assim, podemos já começar um relacionamento aonde os dois queiram satisfazer os mesmos itens da pirâmide de necessidades. Ou, pelo menos, que ambos respeitem a busca do parceiro.
Porque, quando os objetivos no relacionamento são dissonantes demais, não há boa vontade, sentimento ou trabalho árduo que façam com que o relacionamento atenda às necessidades dos dois.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Mundo Contra Mim

É, eu não ando em um bom momento e meus textos estão, todos, sendo escritos com um princípio de depressão.

Mas, mesmo assim, você pode notar que os meus textos tendem à imparcialidade emocional. Eu formo as minhas opiniões de modo racional, sempre. Mesmo que esteja emocionalmente enterrado até o pescoço na situação. Eu dou "o passo para trás", eu saio do meu corpo, eu olho a situação como se fosse um terceiro não-envolvido. E a primeira pessoa que eu critico no processo inteiro sou eu mesmo.

Eu estou fazendo as coisas corretamente? 
As decisões que eu estou tomando são as melhores? 
Estou sendo sensato nas minhas colocações?

Amigo, eu sou assim porque li. E não foi qualquer literatura que eu li. Eu li a melhor literatura formadora de caráter que pode existir nesse mundo: eu li gibis de super-heróis.
E eu não li poucos, eu não li por pouco tempo e eu não parei de ler.

Ver um super-herói na TV é uma coisa. Ler um único gibi é uma coisa. Agora, amigo... Eu passei quase quinze anos da minha vida comprando mensalmente vários títulos. Peter Parker, Kyle Rayner, Kal-El, Wally West, John Jonzz, Arthur, entre outros, são mais do que meros personagens desenhados, para mim. Eles são influenciadores diretos da minha personalidade.

Todo super-herói é alguém que tem o ímpeto de fazer a coisa certa, porque a coisa certa é a coisa certa a ser feita. Eu sei, a frase é redundante. Mas, depois que tu a entende, essa frase faz todo o sentido do mundo. Guy Gardner foi quem disse isso.

LEIA ESSE GIBI AQUI -> http://imgur.com/gallery/Ijdxh

E eu, enquanto ótimo interpretador de textos, deixei que estas ideias entrassem na minha cabeça. E elas se infiltraram profundamente. Sim, diferentemente de você, se eu tivesse algum super-poder, iria me fantasiar e sair às ruas protegendo as pessoas. Impedindo crimes, investigando quadrilhas, desmontando o tráfico, protegendo inocentes e o principal: Fazendo com que o mundo continue girando corretamente. Esse último ponto quem falou foi o Kal.

Mas eu não tenho super-poderes. Então, amigo, me resta ser o "side-kick". O parceiro. A pessoa que colabora ao máximo com o super-herói. Na reconstrução depois do arco de histórias "Guerra Entre os Mundos", o Super Homem está só observando enquanto operários reparam uma usina de energia elétrica. Um dos operários cai e o Super Homem o salva. O presidente Luthor chega, observa e critica o Super Homem, por ele não ajudar na reconstrução. Alega que tudo voltaria ao normal mais rapidamente. Então, quando o Super Homem ia esboçar uma resposta, o operário salvo interrompe: "Eu não quero que o Super Homem faça o meu trabalho. E ele está fazendo um favor para mim por me deixar contribuir para a reconstrução do mundo. Ele já fez a parte dele nos salvando dos alienígenas, agora é a nossa hora de lutar para salvar o nosso planeta."

Então, eu me esforço para sair da situação de "ser salvo". Eu não quero tomar o tempo do Super-Herói, que ele poderia estar utilizando para salvar outra pessoa mais necessitada.
Então, eu me esforço para nunca estar na situação de vilão. Forçando que o Super-Herói tenha que intervir em alguma situação por minha causa.

Eu não voo, não atravesso paredes, não tenho super-força, super-resistência, super-velocidade, não grudo em paredes, não tenho fator de cura, não disparo laser pelos olhos e não fico invisível.
Mas eu posso ajudar sendo justo a todo tempo. Eu posso ajudar recolhendo o lixo que algum porco jogou no chão. Eu posso ajudar pedindo para que não estacionem na calçada. Eu posso ajudar intervindo em arruaceiros para que a ordem seja estabelecida.

Eu posso ajudar o Super-Herói sendo eu mesmo um disseminador do bem, da ordem e dos bons costumes para todos ao meu redor.

Então, quando eu dou o meu "passo para trás", eu critico a mim mesmo sobre todos esses itens. Eu estou ajudando o Super-Herói ou estou me colocando no papel de vilão?

Eu não quero entrar no papel de vítima, mas a resposta para essa pergunta me deixa extremamente triste. Ainda mais aqui no Brasil.

Vivemos em um país aonde o Super-Herói não dormiria. Passaria 24hs por dia só correndo de um lado para outro para "fazer o mundo girar". Capaz do governo regulamentar a ação do Super-Herói para garantir "cotas para salvar a população carente"...

Estou em um país, de maioria católica, aonde cada cidadão "lava as mãos" para qualquer possibilidade de ajudar ao próximo ou fazer valer a justiça. Ou, se não bastasse que TODOS ignorem os problemas, a MAIORIA deste "todos" é agente ativo de corrupção direta.
Se a indiferença frente às injustiças é rotineiramente ruim, a geração de injustiça é o que condena nossa sociedade.

Pensando bem, o Brasil só tem UMA ÚNICA CHANCE de ter um Super-Herói: que eu ganhe super-poderes.
Porque, se QUALQUER OUTRA PESSOA recebesse super-poderes, teríamos um super-vilão, mesmo.

Essa balança é tão desequilibrada, que constantemente fico me sentindo um bobo. Um otário por acreditar nos bons valores da vida. Na vida justa, batalhada, que ruma para a realização de sonhos bonitos.
Porque todos os outros viventes desse país querem mesmo é BOTAR FOGO NO CIRCO, fingirem que não sabem como o fogo começou, ficarem apreciando o fogo consumindo o que era bom e, pasmos, posarem de vítimas inocentes, que perderam o circo porque ele pegou fogo.

Uma população de pessoas sujas, que preferem as trevas do lado mais podre da vida. Que refutam e jogam os bons relacionamentos no chão, como se fosse lixo. Pessoas vazias de bons conceitos, que acham que "aproveitar a vida" é se entregar para festas banais, amizades rasas, drogas, violência e transgressões.

Como se a sua cara excessivamente maquiada, suas roupas caras ou seu perfume importado escondessem toda a falta de caráter que transparece dos seus olhos...

Sou eu sozinho, amigo. Eu, só eu e apenas eu, contra todas as outras pessoas do mundo. Eu aqui, bastião de tudo o que é bom e cor-de-rosa neste mundo. A última resistência.

Vocês podem me atacar à vontade. Eu jamais cairei. Em qualquer situação eu vou me criticar fortemente, sempre. E eu vou fazer tudo o que é correto, sempre. E não há argumento de vocês que possam me corromper deste caminho que eu escolhi. Porque o certo é o certo, todo mundo sabe o que é o certo e o certo é o certo a ser feito.

Mas eu falo do Brasil porque é aqui que eu vivo. Periferia bastarda e mal parida do mundo. E o mundo inteiro é muito parecido com o Brasil. Raros são os lugares aonde suspeito que tenha uns poucos que talvez se pareçam comigo. O fato é que sou eu contra uns sete bilhões de pessoas. Gente que deveria estar zelando pelo certo, mas estão destruindo o mundo só para obterem ganhos pessoais ou por pura ignorância, mesmo.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Como suportar o fim de um relacionamento?

"Não é o fim do mundo, é só o fim de tudo... que fomos nós..."
- Herbert Vianna.

Vou começar dizendo que os relacionamentos não deveriam terminar. E, se terminam, é porque começaram errado. Não era para ser. Só esse pensamento já traz um alento.

Eu já tive quatro grandes relacionamentos na minha vida. E, destes, um eu sei que começou muito bem e não deveria ter terminado. É o único para o qual eu não tenho uma solução. Até hoje dói e, se a menina quiser retomar agora mesmo, eu não penso duas vezes: largo tudo o que eu estiver fazendo e corro para o lado dela.

Mas os outros três relacionamentos começaram errado. Eu tentei conduzir da melhor forma possível, tentando "desentortar o pau que nasceu torto". Como bem diz o ditado, esse é um esforço em vão. O que nasce errado dá muito trabalho para ser desenvolvido, até que não vale mais a pena e é descartado.

O problema é que, mesmo quando os relacionamentos começam errado, eles manipulam nossos sentidos e sentimentos. E o ato da separação é horrível.

Entenda: em um relacionamento que nasce errado sempre há um indivíduo que gosta mais do outro. Ou um indivíduo mais instável do que o outro. Ou um indivíduo com mais dúvidas, medos, receios, temores, etc... do que o outro.

Esse desequilíbrio entre as duas partes gera toda a insatisfação que abala e compromete o relacionamento desde o seu início até o seu fim.

A pessoa que ama de menos tende a achar que a pessoa que ama demais a prende, a sufoca, a impede de ser livre, a manipula e a obriga a viver uma vida que ela não quer. A pessoa que ama de menos geralmente se diz vítima de ciúmes, de perseguição, de vigilância.
Já a pessoa que ama demais tende a achar que a pessoa que ama de menos a ignora e a deixa de lado. A pessoa que ama demais geralmente se diz vítima de indiferença, de traição, de ser feita de boba, etc...

O que ambos não notam é que suas próprias atitudes geram a reclamação da outra parte. E o que os dois notam menos ainda é que essas atitudes são tomadas justamente por causa do desequilíbrio. Um simplesmente não tem tanta vontade assim, enquanto o outro tem vontade demais.

E o rompimento pode vir de qualquer uma das partes. 

O mais óbvio é que a pessoa que quer ser livre abandone o barco no primeiro sinal de pressão. Isso faz com que a pessoa que ama demais caia em um sofrimento indescritível. Mesmo porque, quem ama de verdade faz dos planos do relacionamento os seus próprios planos. E perder isso, amigo, é o mesmo que perder o chão, os horizontes e todas as perspectivas.

Mas a pessoa que ama demais também pode abandonar o barco. Cada um tem o seu limite de traições. Tem gente que não aceita que a outra pessoa faça uma coisa sem avisar e acha que essa bola nas costas já é um tipo de traição. Tem gente que precisa pegar o parceiro na cama com outra pessoa... Quando este limite é ultrapassado, a amargura toma o coração e, sim, a pessoa que ama demais pode resolver parar de amar. E a pessoa que ama de menos pode até se dizer aliviada com o fim. Mas é tão ruim quanto. Nessas horas é que, geralmente, a pessoa que ama menos nota que ama a pessoa que ama demais.

Mas não pensem que a dor ocorre só na pessoa que foi chutada. Mesmo quando há uma terceira pessoa envolvida, causando a separação, os rompedores do relacionamento também se sentem mal.

Porque não acredite que é fácil para quem ama de menos passar a viver longe dos cuidados e da atenção da pessoa que ama demais.
Ou, então, imagine todas as contradições que aparecem na cabeça da pessoa que ama demais, quando esta acaba um relacionamento! Coisas como "ela era tão importante para mim, será que não temos como arrumar as coisas?".

De qualquer modo, eu aprendi uma técnica. Não é a solução universal. Certamente não funcionará para todos. Mas tenho certeza que esse texto vale a pena estar aqui, porque ele pode dar base para pensamentos de todos. Nem que seja te fazer pensar para argumentar contra.

Primeira ponto importante é cortar totalmente os laços. Exclua das redes sociais, apague o número do celular, o e-mail da agenda, etc... Se você puder não ver e não falar com a pessoa, isso só vai acelerar o processo de cura.

Mas o nosso corpo prega uma peça. Como recurso evolutivo, nosso corpo nos dá doses cavalares de drogas hormonais para gostarmos de ficar próximos ao parceiro. E, ao ficar longe, você tem uma crise de abstinência desses hormônios. Entenda: você não quer a pessoa em si, você quer a reação das drogas dos hormônios que essa pessoa te proporcionava!

Então, o segundo ponto é controlar a abstinência causada pela falta da pessoa. E essa é fácil, amigo. Aguente no osso. Ou, faça o que eu prefiro fazer: substitua o teu vício pela pessoa, por um outro vício. Compras, álcool, cigarros, jogos, sexo fácil, noitadas... Se tiveres como, peça férias e viaje para um lugar que você sempre quis ir e nunca tinha ido, antes.
Evite fazer as coisas que você fazia antes. Mude de restaurante, mude de bar, mude de roupa, mude de casa, mude, mude, mude...
Permita-se se jogar em tudo que for prazeroso.

Só tome cuidado na hora de "sair pegando geral". Quando ainda estamos com "o coração cheio", nós podemos ficar mais agressivos na conquista. O que potencializa o sucesso da conquista. E podemos acabar fazendo com que alguém se apaixone por nós, enquanto tudo o que queremos é só "um amor de uma noite", que garanta a dose diária da droga hormonal.
Existem MUITOS homens e mulheres por aí em situação igual à tua. "Os perdidos se distraem", sabe como é? E tem gente que está nessa por convicção. Pegam geral porque é o que querem e não vão querer um relacionamento sério mesmo. Procure essas pessoas.

E não se engane, amigo: O coração é como um copo e, se o teu coração está cheio, tu não conseguirás colocar mais nada dentro dele. Ele transborda, os líquidos se misturam e só causam mais confusão. No fim, tu está com alguém só pela disponibilidade, sobrepondo o sentimento residual do relacionamento antigo.

Justamente esse é o terceiro ponto: esvazie o seu coração. As doses que tu conseguires da droga hormonal vão te deixar mais calmo. E você deve utilizar essa calma para controlar o teu pensamento. Para excluir do teu dia-a-dia tudo que era do relacionamento. E preencher a tua rotina com coisas que te definem enquanto pessoa.

Porque já diz o ditado virtual: "não se corre atrás das borboletas, se prepara o jardim para atraí-las".

Vá para uma academia. Depois de duas semanas, o exercício físico passa a dar prazer. Fazendo um exercício físico, você pode tomar álcool, comer chocolate e gorduras quase à vontade, coisas que dão prazer. 
Inscreva-se em cursos, participe de grupos, vá a eventos, etc...
Frequentando novos lugares que TE definem enquanto pessoa, você passará a encontrar pessoas que SE definem enquanto pessoa pelo mesmo lugar. Estilos parecidos tendem a ser um bom início para amizades. E amizades bem construídas reduzem as chances de desastre em consequentes relacionamentos.

Então, quando tu já estiveres "limpo" do antigo relacionamento, com o coração cheio apenas com as tuas coisas, tu já terá passado pelo pior e estará pronto para viver a tua própria vida e para começar a pensar em um novo relacionamento.

Vá devagar na próxima conquista. Não é feio estar sozinho. Amigos de verdade vão querer te ajudar escutando teus desabafos. Use a tua fragilidade para pegar geral. Use tua raiva para pegar geral. Se ache para pegar geral, finja-se de "pior pessoa do mundo" para pegar geral. 

Só é importante lembrar lá do início do texto: os relacionamentos que terminam, começam errados. Não dê tanta atenção à paixão. Não escute tanto as suas entranhas. Não se jogue em um relacionamento "para ver no que vai dar". Um relacionamento invade teu coração, destrói a tua vida particular, cria seus próprios objetivos, te faz escravo dos planos em conjunto e, mesmo assim, ele pode acabar do dia para a noite e te deixar mal, novamente.
Pense racionalmente sobre as qualidades e os defeitos da outra pessoa. Tente encontrar alguém que forme um relacionamento equilibrado contigo. Aonde os dois amem em proporções muito similares.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O Controle Absoluto: T-Rex, Facebook e o Minha Vida Documentada na Internet.

"Se você está assistindo isso no futuro, eu venho de um tempo aonde existiam dois sistemas possíveis de vida, centrados na opinião das pessoas sobre o monopólio.
As pessoas do oeste reclamaram por anos que as pessoas no leste viviam em um sistema de monopólio...
Mas é exatamente para o monopólio que o sistema do oeste está rumando...
Porque, quando o último peixe grande devorar o último peixe de tamanho médio, teremos um único e último peixe gigante, com o estômago dilatado..."
Robin Hitchcock - Trecho da introdução de Filthy Bird, em StoreFront Hitchcock.


Nos últimos dois dias o Brasil está em polvorosa. O preço do PlayStation 4 foi anunciado e as manifestações na internet já estão quase incontroláveis. Não ficarei nem um pouco surpreso se qualquer hora gamers do Brasil inteiro saírem às ruas com cartazes "Não é só pelos R$4.000,00!".

Internet e Globalização, suas lindas, eu amo vocês duas. Os exemplos internacionais ainda chegarão até as mentes dos nossos jovens, corrompidas pela péssima escola comunista que o nosso Estado nos provê. No dia em que 50% + 1 de nós abrirmos os olhos, as coisas passarão a mudar. Veremos que o caminho para comprarmos a "calça de R$300,00 para uma menina adolescente" não é exigir reajuste no Bolsa Família mas, sim, parar de brincar, deixarmos de ser eternos adolescentes, estudarmos muito, trabalharmos mais ainda e, com o resultado do nosso suor, comprarmos a tal calça de R$300,00. Ou mais caras.

Mas o ponto central é "deixarmos de ser eternos adolescentes". Escola de péssima qualidade, programas de TV que diminuem a qualidade da arte, promoção de jornalistas sensacionalistas e nossa insistência em tornar famosos pessoas sem nenhuma qualidade fazem do nosso povo eternos adolescentes. Adultos com pensamentos rasos. Gente que reza para a semana passar mais rapidamente, para que chegue logo o dia de folga. Gente que não nota que, quando nos tornamos adultos, o jogo muda. E que esse novo jogo é mais divertido: receber dinheiro dos outros pelo o reconhecimento por algo que só você faz de especial.

Bem, enquanto você está com 50 anos fingindo ter 15, lá fora as pessoas de 18 anos estão se esforçando para viver como se tivessem 40. Levando a sério a vida, eles tomam teu dinheiro em troca de espelhinhos touch-screen. E tu nem nota...

Pior: Alguns brasileiros também vivem assim. Mas a nossa, mente, talhada aos moldes do "comunismo-coitadista", logo os recrimina. Como se alguém viver como adulto fosse errado. Como se oferecer bons produtos, a preços baixos e tendo lucro com isso fosse alguma espécie de crime hediondo, comparado ao holocausto... Se o brasileiro-adulto-sério chega a publicar sua felicidade em sentir-se útil para as outras pessoas, então... Pena de morte por apedrejamento, no melhor estilo Monty Python, em "A Vida de Brian".

Isso sem falar que o nosso próprio Governo vende uma imagem de trapalhões. De ineficientes. A precariedade com os cuidados à população fazem com que a população dê como certo que o Governo é incompetente MESMO.

Você não sabe, mas o Brasil tem um super-computador. Ele é chamado carinhosamente de "T-Rex". Sua finalidade? Esse monstro da tecnologia armazena e processa todas as declarações de impostos de renda de pessoas e empresas, os documentos de declaração de compras, produção, vendas, pagamento de impostos, etc... (Sped's, etc...).
Cruzando todas as informações das declarações, este super-computador emite relatórios indicando se o que você declarou que pagou por algum produto ou serviço é o mesmo valor que a empresa declarou que recebeu de ti.

Sim, na hora de cuidar dos interesses do povo, o nosso Governo é incompetente. Mas na hora de cobrar os tributos do povo, nosso Governo está fazendo um trabalho de primeira qualidade. Referência internacional, mesmo.

Enquanto você brinca de viver como um adolescente-cabeça-de-vento, a receita federal esquadrinha sua vida inteira. Eles sabem o que você compra e quando você compra. Com o tempo, eles conseguem determinar suas características e suas preferências. Você não sabe (também) mas nosso governo consegue até prever o que você fará da sua vida.

E isso não é nenhuma novidade. Cartões de crédito já fazem isso há décadas! A diferença é só a fonte e quantidade de dados. Os cartões de crédito só conseguem saber de ti pelo que você movimenta através dos cartões deles. Exemplo? Sempre paguei o corte de cabelo com dinheiro. Para minha operadora de cartão de crédito, eu devo ter cabelo comprido ou ser um careca!

A era da informação pega tão pesado nas nossas vidas, que até o que você faz na internet é gravado e utilizado contra você.

Você já escutou a lenda urbana de que o Facebook e o Google rastreiam e armazenam todas as tuas informações de navegação em seus sites. Todo link que você acessa através do Google, todas as curtidas que você dá no facebook... Tudo isso vai traçando o teu perfil de usuário. 
Experimente, um dia qualquer, passar meia hora fazendo buscas por algum produto diferente daqueles que tu normalmente procura. Sei lá, cabos de energia elétrica, aquaplays, esferas anti-bolinha para máquina de lavar... Qualquer coisa que tu não procuras ou curte, normalmente. "Automágicamente" anúncios similares passarão a aparecer no seu e-mail, nas barras laterais do facebook, em anúncios do addWords do Google pelos blogs e sites da vida...

Amigos, a informação sempre esteve ali. Você pode ignorá-la, como um adolescente imbecil qualquer, ou podes dar a ela a importância que ela tem, como um adulto empreendedor.
A informação bem armazenada, organizada, tratada e processada tem valor. E, olha, o preço dessa informação - para quem sabe o que fazer com ela - é alto.
Não é a toa que Google, Facebook e outras figurem entre as empresas que mais faturam no mundo... Os relatórios de preferências e perfis da população que eles são capazes de oferecer têm precisão cirúrgica. E, por ser um ótimo produto, é vendido a peso de ouro.

Para você que não sabe, eu estou passando por um furacão classe 10 (escala vai de 0 até 5) sentimental.

Desculpe o desabafo aparentemente fora de contexto, mas eu garanto que o texto ali de cima é preparatório para o ponto que eu quero ressaltar. E o ponto que eu ressaltarei da minha vida conclui satisfatoriamente tudo o que eu já escrevi. Você pode confiar em mim.

Basicamente, eu estou me vendo completamente sozinho nesse mundo. 
Já devo ter dito aqui que não falo com a minha mãe há mais de uma década. 
Com o meu pai, eu falo esporadicamente, mas a nossa conversa é sempre artificial e improdutiva. 
Eu namorei pelos últimos seis anos da minha vida. Se eu estivesse solteiro, talvez não tivesse sentido tanta solidão nesse tempo.
Eu fui me perdendo dos meus amigos, conforme fazíamos nossas escolhas na vida. Conselho: NUNCA joguem todas as suas fichas em uma única pessoa. Pode parecer romântico, mas é muito arriscado para ser efetuado na vida real.

Enfim. Estou sozinho. All By Myself. E isso é um saco.

Mas eu sou alguém inteligente. Reflexivo. Eu pratico à perfeição o "passo atrás". Eu saio do meu corpo, vejo toda cena ao meu redor e analiso ela como se fosse alguém que não está envolvido emocionalmente com o contexto. O resultado atual não é algo que eu goste. Então, resta-me rever o que aconteceu e descobrir os erros. Corrigi-los, para que essa situação horrível não torne a acontecer.

E qual não foi a minha surpresa quando eu notei que a minha vida está toda documentada?

Sim. Por muito tempo, sem querer, eu documentei opiniões. Tirei fotografias do meu estado psicológico. Mês a mês, dia a dia. Em uma versão "século 21" de um diário, todas as coisas importantes da minha vida estão distribuídas em fóruns, blogs e diversos e-mails.
As minhas conversas tortas com o meu pai. 
Seis anos pedindo a mesma coisa para uma pessoa que nunca se importou. Que nem lerá esse texto.
Os meus textos infinitos, explicando coisas que nem eu sei para mim mesmo.
Todas as minhas lutas, todas as minhas reclamações, todos os relatos das obras que eu realizei, todos os meus sofrimentos, todas as minhas conquistas e todas as minhas vitórias.

Tudo o que eu fiz está ali. Ouro esperando para ser garimpado. Pepitas e mais pepitas reluzentes, prontas para que eu as descreva, contextualize, interprete, analise e crie novos métodos. Mesmo porque, é impossível ter resultados diferentes empregando sempre os mesmos métodos.

Uma lágrima escorre pelo meu rosto, enquanto eu agradeço a Odin por não ser mais um adulto brincando de ser adolescente. Quando eu noto o valor da informação bruta. Quando eu noto que eu tenho capacidade de processá-la. E quando eu sei que eu posso criar novas perspectivas a partir das minhas conclusões.

Vivemos em um mundo mágico. Aonde podemos ser pessoas melhores. Aonde podemos ser quem nós quisermos ser. 

Powered by capitalism. 

domingo, 20 de outubro de 2013

Epitáfio (Paródia)

Minha releitura sobre a obra dos Titãs.
Não perguntem, mas eu não ando legal, mesmo.
Não, não era amor. Era qualquer coisa, menos amor. E eu sabia. E eu preferi me iludir, acreditando que era mais do que amor.

----------------------------------------------------------------------
Epitáfio 

Devia ter amado menos
Ter chorado menos
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado menos
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer...

Queria ter aceitado
A mim como realmente sou
Prestado atenção na alegria
E a dor que trago no coração...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado mais
Trabalhado mais
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado mais
Com TODOS OS problemas pequenos
Ter deixado pra lá...

Queria ter aceitado
A vida como ela é
Vivido as minhas alegrias
E a tristeza que vá pra PQP...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado mais
Trabalhado mais
Ter visto o sol se pôr... (no Guaíba)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Parceiro Ideal X Paixão Arrebatadora

Segundo teorias mais modernas, o cérebro do ser humano é dividido em duas partes.

Bem, que o "hardware" era composto por mais de uma parte, isso eu já desconfiava há muito tempo. Já escrevi aqui neste blog sobre essa minha impressão. Se olharmos um corte do nosso cérebro, podemos comparar os cérebros das demais classes de animais e sempre encontraremos semelhanças incríveis. O nosso bulbo cerebral (parte que liga nossa espinha ao cerebelo) é inacreditavelmente igual ao cérebro de qualquer peixe. O nosso cerebelo (parte que cuida das funções instintivas básicas) é absurdamente igual ao cérebro de qualquer réptil. E o nosso cérebro superior é praticamente igual ao de qualquer outro mamífero e muito similar ao das aves.

Nossa espécie se salva porque nosso cérebro tem muito mais dobras, química mais refinada e mais ligações entre os neurônios. Afora isso, nosso cérebro é como se um ENIAC estivesse envolvido por um 486, que, por sua vez, está envolvido por um Galaxy ou iPhone.

Lendo o livro "Rápido e Devagar, duas formas de pensar", encontrei todo o embasamento para afirmar que não são só as características fisiológicas no nosso cérebro que compartilhamos com os nossos primos com quem temos ancestrais em comum.

O Daniel deixa claro em seu livro que o software que roda na nossa cabeça tem dois processamentos paralelos. 
Um deles é lógico, matemático, exato, lento e preguiçoso. Ele gasta muita energia, que o corpo humano não quer gastar.
O outro deles é instintivo, abstrato, emocional, perceptível, programável, rápido e disponível. Este gasta pouca energia, por isso o corpo o utiliza mais.

Relacionando o software com o hardware, nosso cérebro peixe/réptil detém a mente rápida. 
O nosso cérebro mamífero superior detém a mente lenta.

Assim, Entendemos porque as pessoas não gostam de se concentrar. Porque as pessoas que são forçadas a longos períodos de concentração se estressam com maior facilidade. Nosso corpo não tem tempo de evolução o suficiente, para que a consciência superior - de que temos comida o suficiente para mantermos o cérebro lento ligado o dia inteiro - seja transferida para a mente rápida.

E como o instinto está na mente rápida, temos que esperar mais alguns milhares (ou milhões) de anos, para que o nosso cérebro lento programe a base do nosso cérebro rápido.

Até que isso aconteça, os estudos de Sir Robert Winston mostram exatamente a base do nosso comportamento. Mesmo vivendo em uma sociedade moderna, com uma segurança de vida, saúde, alimentar, de abrigo e emocional jamais alcançadas antes na história humana, nós nos comportamos tal qual homens das cavernas. Brigamos nosso dia-a-dia como se fossemos caçadores/coletores do neolítico.

Simplesmente ridículo.

E, misturando esses três conceitos, eu tenho notado que o ser humano está tão programado para não usar seu cérebro rápido, refinado e superior, que desenvolvemos comportamentos que visam "desligar" nossa consciência.

É quase uma corrida contra o tempo, literalmente. Não queremos sentir o tempo passando. Parece que dói se expandirmos nossa consciência e passarmos a processar a informação de um universo inteiro. Simplesmente preferimos não lidar com isso.

Preferimos as saídas que anestesiam nosso cérebro. Que nos ajudem a fugir do peso do momento.
Álcool, drogas, televisão, música, conversas fáceis e tolas, facebook e toda sorte de ação que nos tire do papel ativo (interpretadores, analistas e realizadores) e nos jogue no papel passivo (contemplação, mera descrição, jogo social raso, sono profundo ou até o torpor de um coma alcoólico).

Talvez por isso gostemos tanto de novas paixões. O coquetel químico que o nosso cérebro primitivo dispara, visando fazer com que o macaco irracional (que ele tem certeza que nós somos) procrie, simplesmente nos tira desse mundo. Vamos lá, todos nós já tivemos essa sensação. E todos nós já julgamos ela como sendo "maravilhosa". Borboletas no estômago, parece que nós flutuamos, que o tempo não passa, que a pele é mais macia, que as fragrâncias são mais cheirosas, a visão periférica turva e a visão central parece captar cores que nunca notamos, antes.

Esse primeiro momento da paixão é um resultado da química do nosso corpo nos dando tudo aquilo que nós mais queremos: o cérebro desligado. Não pensar em nada, deixar o instinto seguir a sua programação e, no final, ainda ganhar uma recompensa hormonal boa. Risadas leves, sensação de conforto e de bem estar.

Paixões nascidas assim parecem ser coisas ótimas. Únicas. Mas, se você for analisar a fundo, nosso instinto nos manipula, usando drogas que nos entregam tudo aquilo que nós mais queremos. Somos reféns do nosso corpo. É bom, mas é realmente o melhor?

Bem, aqui encontra-se a dualidade. Tem gente que acha que só o tipo de arrebatamento emocional passional que descrevi é o correto. Se a paixão avassaladora não acontecer, nada mais acontece. 

Só que o cérebro superior, lento e exato também se apaixona. A diferença é que essa porção mais sensata do cérebro não tem acesso ao arsenal químico que o cérebro primitivo possui. Então, muitas vezes, encontramos A PESSOA IDEAL. Essa pessoa tem o comportamento que tu procura em um parceiro. Essa pessoa tem o visual, o cabelo, a pele, os olhos, o cheiro, as ideias, o sorriso... Enfim, você sabe que com essa pessoa você teria um relacionamento perfeito.
Muitas vezes, acontece dessa outra pessoa também notar essas mesmas coisas em ti. Um casal perfeito se formando.

Só que, por falta de acesso ao arsenal químico, as paixões desse cérebro não acontecem naturalmente. Há de se ter muito esforço. Lembra-se de que o cérebro lento consome mais energia? Basear todo um relacionamento nesta camada do cérebro é custoso para o organismo. É preciso um exercício de boa vontade muito grande para que não se contabilizem as gentilezas necessárias para tocar o dia-a-dia. E mais processamento superior para evitar pensamentos como "eu me esforcei tanto por ti"...

Isso porque, mesmo que o cérebro superior tenha encontrado um "par perfeito", isso jamais acontece na realidade. Todos temos que nos adaptar aos nossos parceiros. Uma coisinha aqui, outra ali. Temos que relevar e até mudarmos alguns comportamentos, em nome da manutenção do relacionamento.

O fato é que, para um relacionamento criado a partir do cérebro lento dar certo, é necessário que, em algum momento, esse relacionamento acesse a mente rápida e a faça utilizar o arsenal químico.
Um dos processos mais conhecidos é o de se obrigar a ficar com a pessoa por algum tempo. Literalmente "empurrar o relacionamento com a barriga" por alguns meses. Talvez um ano. Então, depois do cérebro rápido já estar acostumado com o parceiro, remove-se repentinamente o parceiro do dia-a-dia. Mesmo indo contra o sentimento que existe, rodando no cérebro lento.
Uma viagem, um afastamento proposital, um rompimento dramático ou qualquer coisa que force o desligamento completo.

Depois, basta esperar que a mente rápida sinta falta do parceiro. Se a mente rápida sentir saudade, ela consultará a mente lenta. Se a mente rápida encontrar bons momentos, dedicação e sentimentos pela pessoa na mente lenta, logo utilizará o arsenal químico, provocando as ondas da paixão já descritas.
Então o relacionamento começa "de verdade".


Escrevi esse texto porque encontrei essa resposta para a dualidade que tanto me atormentava. Qual é o tipo de relacionamento correto? O que arrebata o coração no primeiro olhar, ou o ponderado, aonde trabalhamos o relacionamento até que ele seja especial e único?
No final das contas, ambos estão corretos.
Por um lado, a mente rápida inicia um relacionamento mais facilmente. Te dá mais prazer e toda a motivação necessária para passar por cima das diferenças não analisadas, antes do início do namoro. Passa algum tempo e ou o corpo se acostuma com as doses de neurotransmissores ou esses neurotransmissores vão sendo produzidos em menos quantidade, conforme o cérebro rápido nota que as tarefas necessárias para a procriação já foram realizadas. Deste ponto em diante, a mente lenta assume, pesando os pontos bons e os pontos ruins do relacionamento. Pesando o esforço já dispendido para construir e manter a vida a dois. Se a balança não for muito desfavorável o relacionamento prossegue.
Pelo outro lado, a mente lenta inicia um relacionamento com mais dificuldade. É quase uma decisão analítica. Há quem diga que relacionamentos como este começam com uma "forçação de barra". Relacionamentos iniciados pela mente lenta parecem estar em banho-maria. São pouca coisa a mais do que "Amigos com Benefícios". Estes relacionamentos podem se estender por anos a fio, enquanto esperam pela fagulha da paixão, despertada pela mente rápida. E essa espera pode resultar em algo maravilhoso, se o tal do cupido vier e flechar o casal, um na direção do outro. Porque há sempre a angustia de que o cupido burro desperte a paixão de um dos enamorados na direção de outra pessoa.

Em ambos tipos de relacionamento, o início e o meio são bons. Mas os dois tipos de relacionamento dependem da utilização das duas mentes em conjunto, para que se prolonguem. Um relacionamento baseado só na mente rápida começa, dá muita emoção, esfria rapidamente e termina com a busca do "animal ser humano" por um novo parceiro para procriar. Já o relacionamento baseado só na mente lenta é um eterno esforço para manter uma convivência pacífica, com alguns benefícios. Um eterno banho morno em uma tarde de domingo chuvosa, que pode terminar no momento em que um "animal ser humano" encontrar um novo parceiro para procriar ou quando os dois notarem que se tornaram irmãos que dividem uma vida...

No fim, o que importa é a escolha. Cada um de nós faz a sua. Ou se entrega para os instintos primais no início, ou espera por eles no meio do relacionamento.

Como o ser humano é motivado por resultados a curto prazo, quase todos nós optamos por amores arrebatadores. O que não notamos é que, como todas as escolhas da vida, a opção a médio ou longo prazo nos dá um retorno maior. Ao escolhermos conscientemente uma pessoa com quem temos mais afinidades para, então, esperar pelo arrebatamento emocional, nós estamos garantindo menos brigas, menos discussões, menos gasto de energia e, portanto, menos desgaste para nossas vidas. Assim, sobra mais tempo para planejarmos e executarmos coisas boas da vida.

Não sei se eu me expressei bem e se eu me fiz entender. Mas essa explicação silenciou uma dúvida que me acompanhou desde o início da minha puberdade. Hoje eu consigo dormir com menos uma pergunta na minha cabeça. No fim, há uma escolha mais inteligente, mas ambas estão certas.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Imagine um Mundo sem Limites!

O ser humano é criativo por natureza. Criamos muitos objetos, ferramentas e conceitos. Alguns muito úteis para o dia-a-dia. Outros, muito úteis em momentos específicos.
Mas o ser humano também é dono de algumas invenções que eu até concordo que são úteis para o contexto em que nos encontramos. Mas que, definitivamente, deveriam ser abandonadas imediatamente.

Tem alguns dias que o presidente uruguaio fez um discurso histórico, na ONU. Quer dizer... Tão histórico quanto a era da informação permite que seja. Ou tão histórico quanto o ser-humano-comum consegue perceber. Mais ou menos tão histórico quanto a descoberta da NASA, publicada em 2012, que revelava a existência de organismos que não utilizavam os mesmos seis elementos básicos que toda a vida que conhecíamos até então, usa.

Enfim.
Introjetamos que certos métodos que criamos são os melhores para vivermos. Colocamos na cabeça que é melhor comprarmos um potinho de pasta industrializada alho e cebola, cheio de conservantes e aromatizantes, que vem do outro lado do mundo, do que comprarmos o alho e a cebola do fazendeiro da nossa região. Detalhe: comprar o alho e a cebola naturais além de ser mais barato e saudável, ainda poupam todo o custo financeiro e ambiental do transporte da pasta de alho industrial, desde lá do outro lado do mundo até a sua casa.

O mais engraçado mesmo é quando esse mesmo cidadão que compra a pasta de alho lá do outro lado do mundo também é um ecochato... Daqueles que torram o saco da rua inteira para separar o lixo...

Mais ou menos como os moradores do bairro Vila Rosa, aqui de Novo Hamburgo. Em uma carreata espalhafatosa domingo pela manhã, daquelas que acordam todo mundo, param o trânsito e todos torcem para que ela acabe logo, eles reivindicavam que não fossem construídos novos prédios no seu bairro. Justificativa? A falta de infra-estrutura (principalmente de saneamento básico) do bairro faria com que a natureza fosse agredida, se houvessem mais prédios...
Só que... o bairro Vila Rosa possui prédios de classe média/alta. E muitos. Moradores com alto poder aquisitivo. E os novos prédios que serão construídos (no antigo campo do Esporte Clube Novo Hamburgo) serão prédios do programa "Minha Casa, Minha Vida".
Dá para entender a falta de discernimento, mentiras e nível do pensamento que eu estou tentando falar?

Nós (humanidade inteira) temos um cinismo inato. É algo cultural. Cada um defende o próprio estilo de vida. Cada um de nós se sente inseguro nesse mundo. E fazemos de tudo para garantir mais um dia de vida. Mesmo que tenhamos que matar outra pessoa para garantirmos só mais uma breve inspirada de ar...

Como eu disse lá em cima: Eu entendo o processo que levou a formação destes padrões de vida. Entendo que, para os homens das cavernas, era "cada um por si e Deus contra todos". Entendo que a situação tenha sido difícil até o início da revolução industrial. E entendo que atingimos e passamos tão rapidamente pelo ponto de equilíbrio populacional, que sequer tenhamos notado que ele existiu.

Os mecanismos que eu acho estúpidos e que devem desaparecer foram os que nos trouxeram até aqui. Sei que devemos muito para cada um deles. Mas, nessa vida, todo relacionamento acaba. Fim, deu pra bola, cada um para o seu lado, obrigado por tudo, vamos para outra...

Talvez o maior conceito que devemos lutar para abandonarmos seja o de LIMITE.

Somos pessoas demais. O mundo já está sobrecarregado de seres humanos. Faz quase um século que a Terra não consegue, sozinha, alimentar a todos nós. Fertilizantes, pesticidas, anabolizantes vegetais, para que as plantas cresçam mais musculosas... Nada disso é novidade e já não é mais o suficiente. Já estamos manipulando os genes das plantas, para que elas sejam imunes a doenças, cresçam mais rapidamente, desenvolvam tamanhos maiores, tenham mais nutrientes e sejam mais gostosas.

Tem até uma notícia de um híbrido entre batata e tomate, circulando pela internet! Basicamente, a raiz é uma batata, que desenvolve um pé de tomateiro! INSANO!


Havia um tempo em que fazia sentido que cada ser humano tivesse, trabalhasse, cuidasse e protegesse o seu próprio pedaço de terra. Mas, hoje, é uma utopia querer manter esse mesmo sistema. Fico imaginando quantos metros quadrados cada um de nós teria, se dividíssemos a área habitável da Terra igualmente. Pior: mantido o sistema atual, o que cada um de nós acabaria fazendo com os (poucos) recursos naturais a que cada um de nós teria direito.

E é esse o conceito de limite/propriedade que me fez começar esse texto. Entenda: eu sou um capitalista tão radical, que acredito que só o liberalismo clássico é uma forma de governo viável. Qualquer coisa a mais do que a menor intervenção possível do Estado, já é a represa aberta para a inundação do desastre.

Mas, mesmo assim, temos que pensar ali na frente. Muito mais do que achar que a economia deve se auto-regulamentar de acordo com os piores defeitos humanos (os sete pecados capitais), eu não consigo suportar a falta de coerência. E o sistema atual de dividirmos os países através de linhas imaginárias, traçadas ou físicas é ESTÚPIDO.

Primeiro, não é porque a religião é a maior causadora de guerras e mortes no mundo, que deixaremos de atacar a segunda maior causa: o nacionalismo.
Depois, em um segundo momento, todo nós já sabemos da importância da administração sobre as coisas. E, em um tempo aonde havia mais Terra do que seres humanos, havia sentido em dividir o mundo e administrá-la aos pedaços. Hoje, com o mundo completamente unido através do fenômeno que conhecemos como globalização e com os avanços da ciência que já derrubaram completamente a ideia imbecil de que exite uma ~hierarquia de raças~ humanas, simplesmente não faz sentido eu me sentir mais "irmão" do meu vizinho de porta, do que de um africano, muçulmano ou japonês.

Nossa solução de traçar limites para administrarmos o mundo aos pedaços está gerando redundância de utilização de recursos naturais. Nações e corporações escondem seus ~segredos comerciais~ uns dos outros, permitindo que todo o resto do mundo utilize práticas antiquadas, que gastam mais e deterioram a única coisa material que todos nós temos de verdade: nosso planeta.

A falta de coerência entre o discurso velado de etiquetas de "empresa amiga da natureza" e as "decisões estratégicas" delas, é insana!
Quer mais um bom exemplo? Desde os idos de 1950 que o Brasil tem toda a estrutura para utilização de carros. Por muito tempo, eram poucas as montadoras que se aventuraram por aqui. Depois do Plano Real, outras vieram. Mas ainda hoje (2013) não temos TODAS as montadoras do mundo funcionando aqui. E, mesmo para as montadoras que temos, não são todas as peças que são produzidas, aqui. A matéria prima não é extraída daqui. Os insumos não são extraídos e produzidos aqui. Há componentes que viajam o mundo para chegar aqui e algum brasileiro ganhar salário de fome para o encaixar no veículo, como se estivesse brincando de Lego...

A primeira conclusão que trago nesse texto é que passamos da hora de darmos poder de verdade para a ONU. Para que os presidentes dos "países" passem a ser meros informantes sobre o que acontece em cada lugar, para o nosso "Líder Global". Imagina que louco, podermos votar on-line em alguém que cuide do mundo inteiro!

Mas o problema maior do limite está justamente na nossa mente. Nós nos condicionamos a pensar com limites. Veja bem: baseamos nossas frases em sujeitos. Limitamos o mundo, ao classificá-lo. "Isso é uma maçã, aquilo é uma pera!" Impomos limites entre as coisas, para nossas crianças. Nosso método de ensino da língua (e, consequentemente, do método de pensamento) é feito através de exemplificação e "decoreba". Não ensinamos as pessoas a usar as palavras: prendemos a mente das nossas crianças nos limites que cada palavra impõe. Deixamos livre somente o bom-senso individual. Justamente aquela parte que precisaríamos treinar nossas crianças exaustivamente.

Lennon imaginava um mundo sem fronteiras. Eu imagino um mundo aonde as mentes das pessoas não precisem ter fronteiras.

E o que isso significa?

Existe a fronteira entre os conceitos. O Ruim e o Bom. A Luz e a Escuridão. O Frio e o Calor. O Bem e o Mal.
E, hoje, ninguém parece ver essa linha, sozinho. Por mais que esta linha seja um muro intransponível, pintado em verde-limão-fosforescente-neon, as pessoas vagam para os dois lados com uma habilidade ímpar. Juram não notar a existência desse limite.

Então, escrevemos leis e mais leis. E mais leis. E mais um pouquinho de leis. E, quem sabe, toda uma regulamentação complementar. Tudo isso só para tentar deixar os limites mais evidentes. Como se não bastasse o muro de cinco metros pintado de verde-limão-fosforescente-neon, ainda jogam luz e colocam pessoas armadas para vigiá-lo.

Eu imagino um mundo aonde os limites entre as ideias não sejam necessários. Um mundo aonde todos nós sejamos equipados com o discernimento necessário para sabermos avaliar e julgar todas as ideias. Aonde o óbvio seria acatado por unanimidade, sempre que uma pergunta fosse feita. 
Um mundo aonde ninguém dissimulasse para manipular o conceito de "o que é melhor para todos".
Aonde todos entendessem que o "melhor para todos" é, automaticamente, o "melhor para mim".
Que vale a pena perder no momento imediato, se todos nós ganharmos em um momento futuro.

O limite é um conceito que existe. É necessário. Mas o ideal seria que nós não precisássemos utilizá-lo.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Falando com o Gessinger na Feira do Livro de Novo Hamburgo

Quem tem conteúdo, tem. É tão perceptível, palpável e confirmável logo à primeira vista, que chega a arder os olhos.

O semblante, as atitudes, a mais singela saudação... O conteúdo se faz tão evidente que força a sua entrada na nossa percepção.

E você pode até não concordar com o conteúdo que preenche a mente alheia. Mas, mesmo quando você acha o conteúdo alheio errado, você é forçado a concordar, pelo menos, que ali do outro lado há alguém com quem debater ideias.

Na arte o conteúdo é imprescindível. 
Desculpem-me os adoradores das músicas feitas para "rebolar até o chão", mas a música deve ter um mistério. Devem existir pistas ocultas nas entrelinhas, que te levem a um sentido maior. A letra deve criar pontes entre diversas ideias e a melodia deve servir de veículo que te conduza neste percurso.


E, nos últimos dias, eu tenho notado que o ápice desta descoberta de pistas sobre o conteúdo contido em músicas está nas gravações de shows ao vivo.

Não se trata da catarse das emoções da multidão com o artista, unidas em egrégora. O movimento tribal gerado pelo show é contagiante e incrivelmente prazeroso, sim. Mas as apresentações ao vivo nos proporcionam os pequenos discursos nos micro-intervalos entre as canções.

Escute o CD duplo "Platéia ao Vivo" da Legião Urbana...
Ou procure por "StoreFront Hitchcock" ou pelas apresentações de Tim Mintchin no Youtube...
Até o "Bullet in a Bible" do Green Day é fantástico nesse sentido.

O que o artista fala naqueles segundos entre uma música e outra revelam muito de sua personalidade. Às vezes eles "entregam o ouro", falando diretamente o sentido total de alguma composição. O Renato Russo fez isso no Acústico MTV... E a música "Teatro dos Vampiros" NUNCA MAIS foi a mesma...

Mas, mesmo assim, essa conversa mais íntima com o autor que tem conteúdo é fantástica.

Está acontecendo a Feira do Livro aqui em Novo Hamburgo. Para quem conhece e frequenta a Feira do Livro de Porto Alegre, a Feira do Livro de Novo Hamburgo é minúscula. Sorte que ela existe. Tomara que a prefeitura se empenhe em aumentá-la a cada ano.

Ontem à noite, o Humberto Gessinger foi atração da noite, na Feira do Livro de Novo Hamburgo. Não, ele não tocou nenhuma música. Ao invés disso, ele fez um show muito melhor: manteve uma conversa/entrevista com o público, durante cerca de uma hora e meia. 

Cada detalhe que ele nos entregou ontem a noite fez com que muitas lacunas sombrias de suas músicas fossem iluminadas.

E essas lacunas preenchidas nos mostram em qual grande grupo de temas do conhecimento humano, a obra está se intrometendo na discussão.

O fato é que, nestes tempos de convergência de mídias em volta de um mesmo tema de entretenimento, um artista antenado vai além da letra e da melodia. Um artista antenado estrutura a obra musical de tal forma que instigue o espectador a ler o blog. A acessar o site, participar da TwittCam, ler o livro, jogar o jogo, ir ao show, ver a entrevista, o seriado e ao filme.
Se o mistério for bem estruturado, o jogo psicológico resultante é mais efetivo para o aprendizado de interpretação e análise do que qualquer aula normal possa vir a nos entregar. E esse aprendizado nos dá as ferramentas necessárias para que nós próprios formulemos nossas próprias posições a respeito da discussão do grande tema do conhecimento humano, em discussão.

Em resumo, quando uma obra é pensada e suada pelo seu autor, ela provoca o desejo de leitura e releitura por parte do expectador. E essas leituras e releituras geram novas interpretações da obra, que podem se tornar novas obras, com sua própria importância na discussão geral.

Uma música bem feita pode levar centenas de pessoas em uma noite fria até um parque, para ver o autor simplesmente falar dela.

E, sim, essa noite foi fantástica. Quem não foi, perdeu.

sábado, 12 de outubro de 2013

Top Gear 2, Potes de Plástico e a Minha Fúria

Meu pai afirma - com razão - que eu sou um cara furioso.

Eu assumo, eu confesso, eu assino, registro firma e pago o imposto: sou alguém furioso.

Cada segundo que eu leio a respeito do assunto, eu descubro mais e mais que eu tenho algum nível de autismo. Meio que de leve, intermitente.
Eu tenho uma inteligencia espacial excelente. Nunca treinei e, mesmo assim, sou um ótimo prestidigitador. Eu formo um mapa mental de toda a área à minha volta. Eu sei até aonde você consegue enxergar a partir do seu campo de visão. Eu sei como esconder e empalmar objetos, de modo que você não os veja.
Essa habilidade me faz ter a capacidade de visualizar à perfeição minha imaginação sobre o mundo real. Não é a toa que eu sempre fui tão bom em geometria. Não é a toa que eu sou um ótimo projetista arquitetônico. Não é a toa que LEGO sempre foi o meu brinquedo predileto.
A minha mente espacial sempre fez com que eu entendesse qualquer explicação com o mínimo de palavras, o mínimo de rabiscos e o mínimo de esquemas. A minha lógica aguçou-se. Não é a toa que, hoje, ganho a vida como desenvolvedor de software.
Aliás, sou particularmente bom em qualquer coisa que exija lógica. Como jogar vídeo-games, abstrair pensamentos, planejar e, é claro, escrever aqui, para vocês.

Eu citei os vídeo-games, porque muito do que eu executo na vida real veio do mundo virtual.

Talvez a maior influência virtual sobre minha vida seja o que eu chamo de "Projeto Motor de 80.000".

Se você foi criança, adolescente ou um adulto imaturo durante os anos noventa, você conhece o jogo "Top Gear 2", lançado para o Super Nintendo.

Nesse jogo, todos começávamos com um mesmo modelo de carro. E, desde o início do jogo, todos já podíamos ver os componentes do carro que poderíamos comprar, para melhorar nosso rendimento. O dinheiro era obtido de acordo com os resultados na pista.

Um dos componentes que tínhamos para comprar era o motor. Começávamos com um motor ruim. Depois, haviam outras três opções: Um motor fraquinho de 30.000 (três vitórias), um motor médio de 50.000 (cinco vitórias, né?) e o melhor motor, de 80.000 (oito vitórias, dãh!).

A ideia do jogo era evoluir os adversários de modo que você precisasse comprar todos os equipamentos que acompanhavam o motor fraquinho, primeiro. Depois, a dificuldade do jogo te obrigaria a comprar os equipamentos da linha do motor médio. E, por fim, você poderia adquirir os melhores equipamentos.

Mas para os jogadores realmente viciados em Top Gear 2, havia o desafio de tentar executar o "Projeto Motor de 80.000". A ideia era, basicamente, "pular" as etapas intermediárias e, assim, usar o carro básico do início do jogo até conseguir os 80.000 para comprar o melhor motor. Com os bônus das pistas, esse projeto poderia ser efetuado em seis ou sete corridas, caso todas fossem vencidas. Mas a chance de não conseguir os 80.000 e ter que se render ao motor de 50.000 ou - pior ainda - ao de 30.000 era muito grande. Ainda mais se você estivesse jogando com um amigo junto, no player dois.

Acontece que eu tinha o jogo e eu era muito bom nele. E, depois de algum tempo, eu só começava um novo jogo de Top Gear 2 se fosse para tentar as oito vitórias nas oito primeiras corridas e, assim, realizar o "Projeto Motor de 80.000". A repetição me levou à excelência. E a largar o jogo por achá-lo extremamente fácil.

Eu não notei, mas levei esse "Projeto Motor de 80.000" para a minha vida real, desde então. Aliás, só fui notar pouco tempo atrás.

Eu não consigo me contentar com o inferior ou com o intermediário. Preciso recitar um mantra de que "melhor começar de qualquer jeito e arrumar depois, do que não ter nada", para ser um bom profissional. Isso porque eu tento criar, seguir e executar o plano perfeito para tudo, sempre.

Nem penso no inferior, não aceito o intermediário. "Só o cume interessa", se você me permite a cacofonia.

Exemplo?

Eu sou um homem atípico. Eu não pego "qualquer uma". Para mim, ou é A MULHER QUE EU QUERO, ou não é NENHUMA. Sempre fui assim. Eu me valorizo mesmo e estou pouco me lixando para o que você acha.

Mais um exemplo?

Eu não trabalho aonde eu não gosto. E, se eu entro na empresa e descubro que "não é bem assim", eu logo luto para mudá-la para o ideal... ou saio.

Mais um:

Eu não tenho smartPhone. E não é por falta de dinheiro, não. É por não querer o simplório, o fraquinho, o intermediário ou o que está para ser tirado de linha pelo próximo que virá. Eu tenho PAVOR de pensar que vou gastar mais de dois mil reais em um celular que, daqui um mísero ano, já não será mais o melhor.
Porque os celulares com 3G eram os top. Menos de um ano depois, os 3G com tela HD eram os melhores. Menos de um ano depois, os 4G já estão aí no mercado. Para o ano que vem, estão prometendo celulares com telas flexíveis.
Imagine a mim com um celular de dois fucking mil reais nas mãos, sabendo que THIS SHIT não é mais o melhor aparelho do mercado!!!

E aonde entra a minha fúria nisso? Não, eu não fico furioso comigo mesmo. Eu consigo vencer estes demônios quando a briga é comigo mesmo. Tenho uma vida franciscana e só compro o que eu acho que será importantíssimo para mim e que vá ser uma excelente compra.

Faço minhas as brilhantes palavras de Trumam Capote:

"É horrível na vida da gente ficar sem alguma coisa que nós queremos; mas caramba, o que me enfurece é não poder dar a alguém alguma coisa que a gente queria que ele tivesse."
Truman Capote - Histórias Maravilhosas

Pelos idos da minha adolescência eu briguei certa vez com a minha avó. Para mim, foi uma briga feia. Ela deve ter esquecido, já.
O supermercado "entregou o rancho" lá em casa. E, no meio das compras, estavam vários potes de plástico que minha avó havia comprado.

Os potes de plásticos de casa estavam velhos e precisavam ser substituídos.
Só que...
Os potes serviam, principalmente, para colocarmos restos de comida que nunca eram consumidos, de um dia para o outro.
Na minha cabeça, minha avó comprava o motor de 30.000 todo mês. Era dinheiro mal gasto, repetidamente!

Tentei alertar a ela que, se mudássemos alguns hábitos, poderíamos economizar MUITO dinheiro. Como todos os dias sobrava comida no almoço e ninguém a consumia posteriormente, sugeri que ela passasse a fazer menos comida. De quebra, não precisaria mais comprar potes de plástico. Pronto, estava utilizando toda a minha lógica para poupar pelo menos uns 100 reais, todo mês!

Ela não me deu ouvidos. Fez pouco caso e eu fiquei IRADO. FURIOSO. Como meu pai sempre observou muito bem. Eu sou alguém furioso porque eu não consigo mostrar para os outros que as minhas certezas melhoram - efetivamente - a vida de todas elas.

Mas isso tudo não é o pior. Porque hoje, adulto, eu consigo provar por A + B que o meu método funciona. Na minha casa, cozinho o necessário para a refeição, NUNCA compro uma fruta a mais do que eu sei que vou consumir e só tenho um único pote de plástico, que serve para fazer gelatina.

Escrevi este texto inteiro poque, na última semana, escutei uma coisa de uma pessoa, que ultrapassa um pouco mais a linha do "Projeto Motor de 80.000". E, obviamente, me deixou um pouco mais furioso.

Basicamente, uma pessoa notou que eu estava certo quando falava que temos fases na vida. Falou que notou que eu estava certo. E falou que notou que eu sempre fiz o melhor para ela.

Mas, mesmo SABENDO que eu sou uma pessoa do bem, alguém instruído, avisado, observador, compreensivo e prestativo... Essa pessoa prefere virar as costas para mim e para minha capacidade de adiantar a vida dela. Essa pessoa fala - com todas as palavras - que prefere se submeter aos erros da sua fase na vida, do que pegar na minha mão, deixar que eu a proteja e, assim, ganhar alguns anos ali na frente.

É alguém que está vivendo a antítese do "Projeto Motor de 80.000".

Alguém que eu achava extremamente inteligente. Mas que, hoje, me enfurece com a insistência no processo ilógico, insensato... INSANO!

Todos temos nossas fases na vida e é importante passarmos por elas. Os nossos erros ajudam a moldar nossa personalidade, evoluem nosso pensamento e nos tornam pessoas melhores.
Mas...
Há os que não conseguem aprender nem quando eles próprios erram.
Há os que aprendem com o próprio erro.
Há os sortudos que não erram.
E existem as pessoas INTELIGENTES, que observam a HISTÓRIA para APRENDEREM COM OS ERROS DOS OUTROS.

Porque, amigo, só adolescentes dão valor aos próprios erros, antes que estes aconteçam. E adolescentes burros, ainda por cima. Passa um tempo na sua vida, e tudo o que você mais quer é que sempre exista alguém para lhe avisar de cada pedra no caminho. Que te ajude a criar planos o mais executáveis o possível.

Por tudo isso eu fico furioso. É horrível ser uma ferramenta social sem uso.