quarta-feira, 27 de maio de 2026

Sobre Aquário, Trabalho e Paciência

Quando eu era criança minha avó tinha um aquário. Eu amava passar horas olhando os peixinhos nadando em paz, para lá e para cá.
Aqui em São Paulo - já te contei que estou morando em São Paulo? - alguei uma casa sem saber que vinha com um lago. E nesse lago havia 1 kinguio e 3 carpas. Bonitinhos, mas davam trabalho. Comprei uns molinésias para comerem as algas do lago. Mas com o tempo aumentou demais o trabalho para cuidar do lago. Pedi ao dono da casa para levar os peixes.

Porém os molinésias ficaram.
Aí eu fiquei com pena dos bichinhos. Pesquisei na OLX e acabei comprando um aquário de 350 litros. Mais uns gastos com filtros e termostatos e lá está o aquário.
Os 4 molinésias viraram 70 bichinhos.
Usei a água que já estava ciclada (com bactérias para comer amônia, nitritos e nitratos) que estava no lago.
Coloquei plantas, pedras, aragonita e ao que parece está tudo bem.
As plantas ajudam a consumir amônia, nitritos e nitratos.
A aragonita mantém a dureza da água alta (muitos minerais dissolvidos) que os molinésias amam.
E com isso, o PH está travado em 8.0 desde janeiro.

Sistema estável, peixinhos felizes. Tão felizes que todo mês por volta do dia 20 aparecem uns alevinos no aquário. Molinésias se reproduzem com facilidade, mas só em um ambiente realmente bom eles se comportam dessa forma.

O chato é que eu adoro alimentar os bichinhos. Eles são oportunistas e basta ver alguém perto do aquário que eles correm para o local onde jogamos comida. E os bichinhos são tão bichentos e bunitinhus que sempre dá vontade de jogar uma comidinha pra eles.
Já aprendi que eles amam spirulina e floquinhos de peixe.


O problema é que colocar muita comida aumenta a quantidade disponível. E o aquário é um sistema vivo. O lixo de um ser vivo é o banquete do próximo. A comida em excesso estraga, se torna amônia, as plantas e as bactérias não dão conta e o aquário enche de algas. Com muitas algas no aquário os próprios molinésias comem as algas e não comem toda a comida quando damos. O que só retro-alimenta o círculo vicioso e faz ter mais algas. Então aparecem os caramujos para comer as algas. E eu fico chateado que os caramujos são feios e eu não quero eles no aquário.

Logo que eu comecei a cuidar dos peixinhos eu passei a ler muito sobre aquarismo.
E um conselho frequente sobre aquários é: TENHA PACIÊNCIA!!!

Paciência para ciclar a água antes de jogar peixes no aquário.
Paciência para deixar o peixinho novo em quarentena em um aquário separado.
Paciência para interagir com os bichinhos que você não vai tocar.
Paciência para dar a quantidade certa de comida.

E quando algo sair do normal - um pico de amônia, algas em excesso, etc... - tenha PACIÊNCIA para identificar e tratar a causa-raiz do problema. E ESPERAR o sistema inteiro voltar ao normal.

Eu trabalho com sistemas complexos em empresas de TI. Lido com processos, o quê envolve pessoas, negócio e tecnologia o tempo inteiro. É necessária muita paciência com todos envolvidos. Muito jogo de cintura para garantir que estamos praticando processos por um motivo sólido, não apenas "porque sempre foi assim".

Eu não paro de pensar que o meu trabalho é muito parecido com esse novo passa-tempo que adquiri. Existe um trabalho inicial, quase receita de bolo, para dar a partida. Bastante esforço para construir a proposta correta com todos envolvidos. Ter indicadores para entender se as ações propostas estão nos levando para o caminho que queremos. Aplicar correções sempre que necessário. E observar os indivíduos e suas interações para garantir que todos se sintam o máximo confortáveis o possível com o novo ambiente.

Mas uma vez que o ambiente se torna estável, não existe muito o quê eu possa fazer senão monitorar a situação. Interagir com o sistema sem tocar muito nele. Não super-alimentar. E apena interferir no dia a dia se algo sair muito de controle.

Depois que se atinge a estabilidade - tanto no aquário quanto no meu emprego - eu reservo algumas horas do meu dia para dar uma passada, dizer "oi", fazer uma piada e... voltar a ficar quieto no meu canto enquanto a empresa e o aquário continuam suas atividades.

Até uns dois anos atrás eu tinha essa falta de paciência em deixar uma empresa tão logo o sistema se tornasse estável. Cerca de 1 ano até 1 ano e meio. Faço meu trabalho, busco outra empresa.
Mas agora, em São Paulo, as empresas não querem que eu saia. Mesmo com o sistema estável, querem que eu continue no dia a dia.

Fico pensando que a cada 6 meses eu posso pegar mais uma empresa, continuando com a anterior. É possível que nenhuma empresa note que eu esteja trabalhando em mais de um lugar. Sendo brutalmente honesto, das 8h da manhã até às 12h eu consigo encaixar 16 dailies, que é o único momento que eu sempre preciso estar presente nos times. Se a somatória dos times se mantiver dentro dos 16 slots e eu arrumar as agendas direitinho, posso trabalhar tranquilamente em até 5 ou 6 empresas. 

E mesmo com 6 empresas, é capaz de eu ter tempo à tarde para jogar Sphere 3, garantir as missões diárias dos meus 2 personagens principais e ainda tomar/defender os castelos da nossa Aliança.

Tudo isso dando excelente resultado e sendo elogiado por todos - empresas, colegas de jogo e bichinhos no aquário.

Acho que esses são assuntos para exercitar a paciência.
Existe a expressão "deixe dormir com esse assunto": temas delicados a gente deixa maturar um pouco na cabeça. Não pensa muito diretamente neles, mas deixa o assunto pairando próximo da fronteira da atenção. Uma hora brota do subconsciente argumentos prós e contras. E tudo vai se encaixando devagarinho.

Mas que seria bom receber mais uns 2 ou 3 salários, isso seria.

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