sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Sentido da Vida.

É assim, amigo. Eu passo muito tempo sem escrever, apareço com temas ambiciosos. Acontece.

Esse tema surgiu porque eu estou chegando em um momento crítico do meu tratamento contra a mitomania: estou revendo as mentiras que estão associadas no meu subconsciente. Estou avaliando os comportamentos que eu tenho, criados em função de premissas que eu sempre julguei verdadeiras, mas que são uma completa mentira.

Nesse processo de avaliar as premissas básicas que determinam meu comportamento, notei que eu vivia pensando que jamais iria morrer. Que a morte é um conceito, não uma realidade. Eu não tinha dentro de mim a certeza da minha finitude. Podes atribuir isso à minha crise dos 30, mas eu descobri e introjetei que eu vou morrer. E isso é chato. Chato pra caralho.
Desculpem-me os que dizem que uma vida basta: nem todas as vidas da Terra seriam suficientes para que eu me desse por satisfeito. Há muita imaginação, muita criatividade no meu cérebro. Muito o que ser explorado, descoberto, catalogado, raciocinado e concluído. E essas conclusões todas servirão de descobertas para um novo ciclo.
Meu subconsciente estava mentindo para mim, quando não me informava que eu iria morrer. E eu trabalhar meus dias como se nunca fosse morrer. Que bela bosta de planejamento eu estava fazendo para a minha vida. Fiquei apavorado quando notei que alguns dead ends dos meus projetos se situariam após a data da minha expectativa de vida!

Hora de mexer no project. Tenho que fazer dar tempo de realizar tudo. Preciso.

É claro que o meu "tudo" não coube no meu tempo de vida. Saco. 
Foi então que entendi porque tanta gente precisa de um sentido na vida. O problema não é não ter nada pelo que lutar. O problema é justamente o contrário. Há muito pelo que se esforçar. Muitas coisas que valem a pena. As opções disponíveis correspondem ao resultado de alguma exponenciação de infinitos. Infinito elevado à infinita potenciação. Algo do gênero.

Com tantas opções, qual é o sentido que vale a pena? Porque eu vou escolher o "Caminho A" e não o "Caminho B". Trilhar qual deles me dará mais satisfação? Qual me dará mais felicidade?


No filme "O Senhor dos Anéis, o Retorno do Rei", Minas Tirith está sitiada pelos exércitos de Mordor. Orcs atacam as muralhas brancas em ondas. O Regente Denethor, louco, acha que seu último filho está morto. Em um ato insano, Denethor ordena que tragam óleo e madeira, pois ele cremaria seu filho e a sí próprio, "como os reis da antiguidade".
Pippen, então guarda da cidadela aos serviços de Denethor, tenta impedir.
Denethor toma o pequeno Hobbit pelo braço, o arremessa pela porta e exclama: "Você está dispensado dos seus serviços! Vá e morra como achar melhor!"


"Morra como achar melhor!"

Essa frase calou-me fundo. Foram semanas pensando nisso. Até que eu notei que esse é o sentido da vida.

Desculpem-me os religiosos, supersticiosos, sensitivos e sensíveis demais. Vocês podem ter suas cartilhas de como e porque tudo funciona. Mas elas não são exatas. Nada disso é comprovado. Ninguém falaou com seu Deus, a estatística não confirma suas afirmações e, definitivamente, nenhum dos seus processos conseguiu ser falseado... ou reproduzido com exatidão da qualidade.
Enquanto as suas receitas só funcionarem com vocês, elas não são verdade. Se não é verdade, é mentira. E eu só trabalho com a verdade.

A verdade que nós temos, hoje, é que a Terra é menos do que um grão de poeira na imensidão do espaço. Aliás, para a imensidão do espaço, a Terra representa MENOS do que um elétron representa para o nosso corpo. Somos nada. E, até segunda ordem, estamos aqui por motivo nenhum.

O que impera no universo é o caos. Se você jogar todos os ingredientes para cima, há UMA chance que eles caiam no prato como um bolo pronto. E infinitas outras chances dos ingredientes só fazerem sujeira. E é isso que nós contemplamos no Universo, hoje. Os ingredientes foram jogados para cima. No NOSSO caso, eles caíram de um modo aceitável. EM TODOS OS DEMAIS CASOS OBSERVADOS, os ingredientes só fizeram sujeira.
O Universo tem o pior custo/benefício entre espaço útil e espaço aproveitado.

Então, somos NADA. Estamos aqui por motivo nenhum. E, pior, por pouquíssimo tempo. 

Então, qual é o sentido da nossa vida? Nenhum.

Nossa vida é uma imensa perda de recursos. De tempo. Um sofrimento desnecessário. Algo que poderia muito bem não existir. 

Se eu parasse por aqui, eu teria escrito praticamente o que todo pensador alemão escreveu. Deixaria você concluir sozinho de que nada somos, para nenhum lugar vamos, então é melhor se jogar nos poucos prazeres infantis que a vida pode nos proporcionar. Hedonismo puro. faço só o que é melhor para mim.

O ponto é que, já que estamos aqui, podemos fazer alguma coisa pelo bem maior. Podemos pensar em manter nosso nome na história. Descobrir coisas que ajudarão pessoas no futuro.

Mas eu vou insistir na frase de Denethor: "Morra como achar melhor!"

No fim, isso é a única coisa certa. Nosso tempo é curto. Lutamos para que ele se prolongue por 1 segundo a mais, que seja. Mas é certo que ele acabará. O sentido da vida é escolher as coisas que cada um de nós acredita que é melhor fazer até esse fim certo.

Porque, a despeito de toda pregação de vida eterna da alma e de reencarnação, só temos uma vida. Só temos esse momento. Estamos presos na corrente do tempo, avançando um momento de cada vez, sem ter controle de sua velocidade ou sentido de deslocamento. O momento é esse, a hora é agora. Para que? Exatamente para o que você quiser fazer.

Aí, é claro, as pessoas se dividem. E não podemos julgar nenhuma delas pelas suas escolhas, apenas podemos constatar que elas se dividem.
Há todo tipo de pessoa, com todo tipo de capacidade de entendimento da vida. Com todo tipo de atitude a ser tomada, frente às adversidades da vida. Com todo tipo de escolha para encarar o que acontece.
Você se encaixa em um desses grupos, eu em outro e cada um dos demais se encaixa em algum dos grupos. Somos seres sociais e vivemos próximos por afinidade de pensamento e comportamento. Já avançamos muito e descobrimos meios de tolerarmos vertentes de pensamentos que divergem dos nossos. Mas ainda temos muito o que aprender nessa área.

Acredito que o principal seja isso. O certo e o errado são conceitos absolutos e todos nós sabemos e reconhecemos os dois. E, nesse caso de sentido para vida, o certo é que não existe um certo ou um errado.

Vamos imaginar, por exemplo, que os grupos de pensamentos humanos tenham o nome de letras. O Grupo M tem uma visão, diferente da visão de todos os demais grupos. É claro que, para todos os outros grupos, o Grupo M está "errado". 
Alguns grupos têm capacidade intelectual inferior ao Grupo M. São incapazes de ver tão longe quanto o Grupo M. Então, hostilizam o Grupo M, atacando-o. Dizem que o Grupo M acredita em coisas que não existem (pois esses grupos vêem menos, lembra?).
Outros grupos tem mais capacidade intelectual do que o Grupo M. Esses grupos conseguem ver o que o Grupo M vê, mas vêem um pouco mais. Sabem o que o Grupo M não sabe, que complementaria o entendimento da vida de todos os indivíduos do Grupo M. Esses grupos mais consciêntes têm pena e tentam ajudar o Grupo M. Mas como ajudar alguém que não consegue perceber que há mais coisas além da sua capacidade de visão?

É complicado.

E o pior que até o senso de "qual grupo tem mais visão" é subvertido. Cada grupo tem certeza de que enxerga mais do que os outros. Poucos são os grupos que notam que há outros grupos que enxergam mais...

Nisso, novamente, misturam-se infinitos sentidos para dar para a vida. Sobreviver, criar uma família, efetuar um trabalho bem feito, ajudar a sociedade, contribuir para a ciência, erradicar uma moléstia, deixar o nome na história... 
Todos estão errados. E todos estão certos.

No fim, qual é o sentido da vida, senão notar que você está sozinho para escolher o melhor modo de gastar seu tempo até morrer? Talvez o futuro da humanidade esteja mesmo em "Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum"...