segunda-feira, 13 de março de 2017

Poliamor: um passeio no conto de fadas do ideal

Latuff é um artista brasileiro. Desse tipo chato de artista que busca tanto sentido na realidade que acaba se desconectando dela. Sabe quando você vê um fato, procura a causa dele só na sua cabeça, aí procura a causa da causa, a causa da causa da causa, o porquê da causa da causa da causa, a consequência que teria tido se o porquê da causa da causa da causa fosse outro e até que... do que a gente estava falando mesmo?

Esse tipo de gente costuma filosofar demais. Demais mesmo. Nocivamente demais. Até se perder completamente.

Essa aqui é a tirinha do Latuff que me fez escrever esse texto:


A intenção do artista foi falar de "poliamor". "Relações abertas". "Empoderar a mulher" tentando divulgar a ideia que ela pode ter quantos parceiros quiser e que isso é normal.

Ok, lá vai o aviso necessário: Eu, Arthur, sou um LIBERAL. Enquanto o exercício das SUAS liberdades não interferir nas MINHAS liberdades, você que se foda. Sério. Tô pouco me lixando. Quer combinar uma relação de "amor livre" com o seu parceiro? FODAM-SE UNS AOS OUTROS E SEJAM FELIZES.
Sério. São meus votos. O que quer que funcione para que vocês sejam felizes, que dê certo.

O meu problema com essa tirinha não é com a mensagem em si. Tem quem viva desse jeito e esteja super bem resolvido, mesmo. Tudo de bom pra vocês.

O meu problema é com o conceito errado e a com a divulgação desse conceito errado.


1 - Porque eu não concordo com o conceito de "poliamor"?

Simples: porque ele é um investimento de curto prazo, com retorno baixo.

Quem curte essa de "poliamor" não está pensando lá na frente. Não está pensando em construir uma vida com outra pessoa. Não está pensando formar um lar estável para trazer crianças a este mundo de modo adequado. Não pensam nem no ano que vem, quiçá em se preparar para eventuais crises, em se preparar emocionalmente para as fases da vida, em se preparar economicamente para as necessidades que certamente acontecerão conforme a vida passar, etc...

Quem curte essa de "poliamor" pensa apenas com o sexo. A vagina e o pênis gritam mais alto. Bata o pau ficar duro ou a vagina ficar molhada para os dois seres humanos involuírem para dois mamíferos trepando. De qualquer forma, em qualquer lugar. O que importa é o pau estar dentro da boceta. O resto do mundo é problema de amanhã, "vamos viver o hoje", YOLO e todas essas merdas de filosofia que só piá de 14 anos acha profunda.

Sem estrutura alguma - desde a financeira até a emocional - esses animais empilham abortos por aí. Ou pior: filhos. Crianças que vêm ao mundo sem que os pais estejam preparados para enfrentar a barra que é educar um ser humano para o convívio social.

Eu sei, eu sei, a base biológica fala que os relacionamentos humanos duram até a criança conseguir alguma independência. Talvez a pior crise para todo casal seja a dos sete anos justamente por isso. É quando o piá começa a interagir de modo mais aceitável e até consegue comida em um ambiente selvagem. Daí em diante as crianças precisam mais de um tutor do que de pai e mãe. Deixando os pais livres para novos parceiros e outros filhos.

Mas o ponto, aqui, é que a vida é dura. É um projeto de LONGO PRAZO.
Nós não estamos mais na savana, a medicina dobrou nossa expectativa de vida, o capitalismo revolucionou os trabalhos, a população nos centros urbanos explodiu e a vida virou um grande jogo.

Dá pra vencer o jogo da vida sozinho? Claro que dá! Mas eu tô seguindo essa estratégia e, olha amigo, é difícil pra caramba. Sempre falta alguma coisa. Alguém pra cobrir aquele momento que tu não consegue segurar a barra sozinho, aquela pessoa que te dá apoio emocional depois de um dia difícil... que seja uma companhia para ir celebrar uma vitória ou alguém que tu cuide, mesmo.

A vida sendo um projeto de LONGO PRAZO, exige que nós escolhamos nossos aliados com sabedoria. É bom ter aliados com recursos, com inteligência, conhecimento, etc... Mas é muito mais importante termos aliados FIÉIS à causa. Amigos do peito, aqueles que não nos abandonam por qualquer motivo tolo. Que estarão do nosso lado até mesmo no pior momento, aqueles que a gente mais precisa, sabe?

Essa FIDELIDADE é a chave para que as pessoas envolvidas consigam ter CONFIANÇA umas nas outras para TRAÇAREM PLANOS A LONGO PRAZO.
Porque, me diz COMO CARALHOS tu vais conseguir fazer um plano para daqui 10 anos com alguém que hoje tá fazendo juras de amor pra ti, gastando o tempo dele contigo, partilhando a cama e, principalmente, o FOCO DE VIDA DELE... mas AMANHÃ MESMO já tá com a cabeça longe do que vocês combinaram, gastando tempo, dedicação, dinheiro, etc... com outra pessoa!!!

Vocês entendem que NÃO TEM COMO planejar a longo prazo com alguém que não te dá confiança para planejar algo para o mês que vem?

Um filho é um plano para uma vida.
Uma casa, um carro, viagens, ter um negócio de sucesso, carreira, etc... são planos para pelo menos 10 anos de vida.

Esse pessoal do "poliamor" vive relacionamentos artificiais. Eles precisam manter um certo distanciamento afetivo para conseguir se envolver com tantos ao mesmo tempo. E eu nem julgo tanto. Porque é difícil baixar a guarda e deixar outra pessoa acessar o teu emocional, mesmo. Em um mundo com tantas pessoas mimadas, recebendo tudo de graça o tempo inteiro, a menor ideia de precisar SE ESFORÇAR para fazer um relacionamento estável dar certo é... ultrajante e naturalmente egoísta. E por esse medo egoísta de se abrir e se COMPROMETER com outra pessoa, essas pessoas do "poliamor" inventam suas próprias formas de se relacionar para se manterem confortáveis.

E quanto mais OFERTA de sexo fácil existe, mais fácil para a pessoa se manter longe de um projeto a longo prazo e mais próxima de um relacionamento aberto.

Porque, convenhamos, nada melhor que a conquista.
O frio na barriga que dá cada conversa com aquela pessoa nova e maravilhosa.
Quando os dois lados estão tentando desesperadamente levar o outro pra cama sem que nenhum dos dois dê o braço a torcer que está morrendo de vontade de foder. 
Quando tudo o que acontece no relacionamento é ir a jantares legais, cinemas legais, parques legais, festas legais, conversas legais, tudo no conto de fadas do ideal.
Mesmo porque, nos primeiros meses todas as pessoas mentem para seus parceiros. Não por maldade, mas porque a maioria de nós tem uma auto-imagem que não bate com a realidade. Então nos esforçamos ao máximo para vivermos o que dizemos que somos. E sempre somos tudo de bom: educados, honestos, bem humorados, bem sucedidos, cheios de amigos, habilidosos, etc, etc, etc...

Aí os dias passam e a convivência faz o novo parceiro conhecer um pouquinho mais de nós. A verdade não bate com o discurso. E nesse momento começa o trabalho árduo e infinito das duas partes para fazer o relacionamento funcionar.

Acontece que, aqui, no mundo real, o Whatsapp tá cheio de outros "contatinhos".

Olhar pro lado e ver uma situação com uma pessoa que tu precisas se esforçar para fazer funcionar... ou aceitar um dos milhares de convites que estão nas redes sociais?
Todos esses convites de pessoas que só mostram o que têm de melhor em si, de acordo com a sua própria auto-imagem desconectada da realidade. Príncipes e Princesas encantados. Perfeitos. Todos tentando desesperadamente te levar para a cama sem dar o braço a torcer que estão morrendo de vontade de foder contigo. Infindáveis convites para jantares perfeitos, cinemas perfeitos, parques perfeitos, festas perfeitas, conversas perfeitas...

Todos te convidando para mais um passeio no conto de fadas do ideal.

A diferença entre o "poliamor" e a "vida real" está exatamente aí:
Quem opta pela "vida real" sabe que vai precisar do companheiro daqui 2, 5, 10, 20, 30, 40, 50 anos... e foca em trabalhar para o relacionamento funcionar pelo tempo necessário para o projeto de vida ser realizado.
Quem opta pelo "poliamor" está "pulando de galho em galho" até encontrar um parceiro cujo primeiro mês de relacionamento se estenda até o final da vida. Um relacionamento "fácil", aonde não seja preciso se esforçar para que as coisas aconteçam. De preferência alguém que "já venha pronto", "do jeito que você sempre sonhou" e não traga "problemas para você resolver".

E aí chegamos no segundo ponto desse texto:


2 - Porque divulgar o poliamor é nocivo?

Simples: porque "poliamor" é uma utopia que não vai ajudar ninguém a conquistar nada!

Deixa eu adivinhar: você que curte o tal "poliamor" e fica "pulando de relacionamento em relacionamento" se queixa direto que "nada dá certo pra ti!". Estou errado?

Você está vendo seus amigos se casando, comprando casas, carros, tendo filhos, se formando, sendo promovidos, viajando... Enquanto vocês continuam com os mesmos sonhos de dez anos atrás, cumprindo pouquíssimos ou nenhum deles. Tá. Vocês conseguiram conquistar aquela meia dúzia de sonhos que só dependiam de vocês e mais ninguém. Entendo.

Hoje eu estou com 34 anos. Solteiro à quase 4 anos. Conheci muitas meninas solteiras da minha faixa etária nesses quase 4 anos.
Sabe o que eu vi de igual em todas elas?
Sempre a mesma coisa: todas querem se casar, querem ter filhos, querem "uma casa com cerquinha branca"... Mas não conseguem passar seis meses com um mesmo homem.
Tudo é um dilema. Qualquer frase dita já é uma ofensa. Todas as escolhas são difíceis. Não decidem o que querem fazer. Quando as questões apertam, correm para a opção mais fácil. Sair com amigas, abandonar o relacionamento, correr para a casa da mãe, fazer cena em público a troco de nada, etc...
Basta aparecer a primeira dificuldade, qualquer coisa fora do plano ideal delas, e elas pulam fora.

E eu falei das mulheres porque é o que eu vi.
Porque eu sei de muitos amigos homens que estão exatamente nessa mesma vidinha: basta a menina falar de relacionamento sério que o cara DESAPARECE.

E eu vou insistir no que disse no início: é NORMAL que ALGUMAS pessoas sejam assim, vivam essa vida e sejam perfeitamente FELIZES dessa forma. Nada contra. Muito pelo contrário. Eu gosto de dar liberdade para as pessoas fazerem o que querem. Porque gente que faz o que quer é feliz. E gente feliz não torra o meu saco.

MAS... Ao divulgar esse estilo de vida, você está dando uma DESCULPA para pessoas despreparadas FUGIREM do trabalho que elas PRECISAM passar para ATINGIREM AS PRÓPRIAS METAS.

Porque, veja bem, estou falando de pessoas que QUEREM ATINGIR o sucesso de um projeto de longo prazo. Mas que, por vários motivos, preferem se esconder atrás de qualquer desculpa que encontrem para evitar os necessários ANOS de DEDICAÇÃO E COMPROMETIMENTO com os NECESSÁRIOS PARCEIROS para atingir a própria causa.

Pessoas que estão aceitando o conceito de "poliamor", de "relacionamentos abertos" e "você pode conquistar tudo sozinho", mesmo MORRENDO DE VONTADE de ter um relacionamento estável, criar filhos levando a família inteira na igreja no domingo, ter um parceiro para viagens, alguém com quem montar uma empresa e conquistar o mundo, etc, etc, etc..

Pessoas que se tornam infelizes porque os anos estão passando e seus projetos de vida não estão se concretizando. Se tornando amargas, procurando culpados pelo seu insucesso, deformando quem são para aceitar o destino que o próprio comodismo está traçando e, por fim, se frustrando irremediavelmente.


A conclusão desse texto vai parecer piegas e até mesmo meio contraditória com os argumentos que eu expus.

Mas eu aprendi que o caminho é o objetivo.

Sim, precisamos de um objetivo, uma meta de longo prazo. Essa meta dá um norte para as nossas ações. Um sentido para a nossa vida, para nos afastarmos da nulidade total que é nossa existência.
Mas o objetivo é só isso: um norte. Nós vamos atingi-lo uma hora dessas. A casa estará comprada, o carro estará comprado, a faculdade será terminada, a empresa fará mais sucesso a cada dia, os filhos crescerão e sairão de casa, as viagens terão início, ótimas memórias e retornaremos para casa...

Até o mais difícil objetivo será alcançado uma hora. Basta fazer os planos com a cabeça lá nas estrelas e os pés bem plantados no chão, que tudo será terminado.

O importante disso tudo é A JORNADA. Como avançamos até o objetivo. As metas que nos propomos e vencemos dia após dia. Cada uma delas representando um pequeno passo até conquistarmos nosso Everest.

É possível alcançar seus objetivos sozinho ou vivendo de "poliamores"? Certamente.
Mas muitos desses objetivos requerem o COMPROMETIMENTO INTEGRAL de um parceiro.

Não dá pra montar uma família sozinho em casa... Ou com uma dúzia de parceiros diferentes por mês. Dando um pouco do seu tempo, recursos e dedicação para cada pessoa diferente que cruza a sua vida.
Não dá pra criar filhos corretamente sem a presença e a dedicação dos dois pais (e nisso eu falo com propriedade, visto que sou filho de pais separados e sofri muito para consertar por mim mesmo os erros que ambos cometeram na minha criação).

Por isso, eu insisto que você saiba bem quais são os seus objetivos de vida. E quando escolher um parceiro para conquistarem juntos esses objetivos, deixe-se comprometer com essa pessoa. Construam os planos juntos e não falte para essa pessoa. Aproveite O CAMINHO que vocês dois traçaram juntos, porque isso é a vida. É a parte que interessa. Estejam juntos nos momentos difíceis para dar força um ao outro. E estejam juntos nos momentos de alegria para comemorarem os sucessos!
Não deixe seu parceiro trabalhando sozinho o sonho de vocês dois. Não dê as costas, não desperdice seu tempo com outras pessoas. O sexo é o de menos. O terrível é você trair o comprometimento com a outra pessoa. Deixar de estar atento ao que você se comprometeu para diluir sua atenção, sua dedicação, seu tempo, seus recursos... seu sentimento com outras pessoas.

Se eu pudesse falar algo para o pessoal do "poliamor", diria para:
1- Evitarem "contagiar" pessoas que não estão orientadas para o seu estilo de vida com suas ideias. Você pode estar matando os sonhos de outra pessoa e nem estar notando...
OU
2- Se você quer MUITO viver o tal "poliamor", adeque os SEUS objetivos de vida ao CAMINHO que você escolheu. E, nesse processo, evite se envolver com pessoas que não praticam o tal "poliamor". Você estará só enganando essas pessoas. Desviando elas dos seus objetivos de vida, fazendo elas perderem tempo, magoando, etc...

E, novamente, whatever, pal. O que quer que te faça feliz. Só não esqueça da partezinha aonde você não ferra com a vida das outras pessoas. Essa é importante, porque respeito mútuo é base da civilidade.