terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mercado de TI: Faltam Profissionais Qualificados?

Antes de mais nada: Sim, existem péssimos "profissionais" de TI. Gente da pior estirpe, que só enrola, não cumpre prazos, não se adapta ao sistema da empresa e os seus entregáveis são ridículos. Gente que ganha o título de "profissional" mais por formalidade do que por merecimento.
Mas, vamos combinar, esses parasitas mentecaptos existem em qualquer área. Qualquer.

Eu faço parte de muitas listas de discussão. Calligaris, Gleiser, Jô Soares, Cenário Musical Gaúcho, Cenário Musical Nacional, Física, JAVA... Dou meu pitaco onde quer que me aceitem, hehe!

Recentemente, entrei em uma lista de discussões sobre "O Mercado de TI do Rio Grande do Sul", na rede social LinkedIn. Eu acho imprescindível que o profissional esteja constantemente monitorando seu mercado de trabalho. Saber se o mercado está em alta, aquecido, ganhando ou perdendo força ou competitividade ou se está em baixa é importante para que possamos traçar nossa estratégia profissional pessoal. Saber quando é bom se manter na empresa, quando é preciso buscar por novas oportunidades...

Enfim, um dono de empresa de TI criou um tópico nesta lista de discussões, indicando que faltam profissionais qualificados no mercado de TI.

E faltam mesmo. Mas, também, não faltam. Explico.

O mercado de TI está aquecido.
O capitalismo atingiu um nível tal de concorrência em que não adianta mais só produzir em larga escala produtos de alta qualidade. Estes itens que obviamente têm impacto direto na receita da empresa já foram exaustivamente vistos e revistos. Linhas de produção, setorização da mão de obra, intercambialidade de peças e funções. Aumento na produtividade. Redução drástica de custos.
Tudo o que é óbvio para aumentar a produtividade e, consequentemente, o lucro, já foi feito.

O capitalismo chegou no ponto em que os administradores precisam "caçar" os itens que podem aumentar a produtividade e reduzir os custos. E não se engane: o ponto pode parecer ínfimo (uma azeitona a menos em uma salada no almoço de um voo) mas, quando detectado, faz diferença de milhares (ou milhões) de dólares no resultado da empresa.

Assim, os administradores desenvolveram relatórios cada vez mais refinados, que exigem cada vez mais variáveis, cuja obtenção dos valores é cada vez mais delicada.

Essa precisão na origem dos dados gera o mercado super aquecido de TI. Empresas que querem se diferenciar precisam de ótimos sistemas de informação, para que os dados possam sem colhidos com exatidão, processos possam ser automatizados e os relatórios (que baseiam a tomada de decisões) possam ser mais precisos.

Só que a área de TI não é uma área fácil. Sistemas de Informação está exatamente entre a administração e as ciências da computação. Embora as pessoas atraídas por este curso sejam, em sua maioria, nerds de computador, essa área exige muito mais conhecimentos administrativos do que computacionais. Mesmo porque, o computador só é utilizado porque é o melhor meio disponível para tratar os dados administrativos. Assim que surgir um meio melhor, os profissionais de TI terão que aprendê-lo. Até lá, continua a máxima: fazer um programa ou sistema de computador é fácil. Difícil é saber o que esse sistema tem que fazer.

Posto isso, é claro que a demanda das empresas é muito maior do que a oferta de profissionais sendo colocados no mercado, todos os anos. Empresa inteligente pega os profissionais da área, treina, remunera bem, dá toda condição de trabalho, embala, põe na cama, dá beijinho na testa e não deixa o profissional ir para outra empresa nem sob tortura extrema. E deseja "saúde" adiantado, para o caso do profissional espirrar.

Mas...

O que ocorre é justamente o contrário.

Como eu disse antes, fazer um programa de computador é fácil. Qualquer acadêmico (ou pessoa com o mínimo de vontade de pesquisar no GUJ, por exemplo) faz um programa. O problema é esse programa atender a uma necessidade de uma empresa ou de um setor da economia.
Essa é a diferença básica entre donos de empresa da área de TI e os funcionários:
PATRÕES são os profissionais de TI que conseguem vender uma solução de TI. Diretamente ou montando uma equipe de vendas, o dono da empresa é quem consegue vender o software.
FUNCIONÁRIOS são todos os outros profissionais de TI. Todos aqueles que não conseguiram vender uma solução para alguma empresa ou setor.

Como os patrões são pessoas da área de TI, geralmente eles não são bons vendedores. São raros os donos de empresa de TI que sabem - efetivamente - vender as soluções de TI para as empresas.
Por ser um produto intangível, as empresas depreciam o valor do software. E os patrões nem sempre conseguem reverter esse quadro. As negociações geralmente culminam em "é melhor cobrar barato e ter/manter um cliente, do que perdê-lo".


Então, com contratos onde o trabalho exigido é muito grande e o pagamento pelo esforço é muito pequeno, as empresas de TI publicam maravilhosas vagas de trabalho. Vagas em que o candidato deve ser especialista em diversas áreas, dominar vários conceitos, ser proficiente em muitas ferramentas e, ainda por cima, é desejável que saiba inglês, tenha ótima oratória, português perfeito, saiba dirigir moto e carro, tenha disponibilidade para viagens e se atualize constantemente.
Tudo isso por um salário de "R$1.500,00".

Vou traçar um paralelo com a medicina. Imagine que um hospital publique uma vaga exigindo conhecimentos em cardiologia, neurologia, endocrinologia, pediatria, geriatria, oncologia, ortopedia, traumatologia, ginecologia e urologia. Indispensável a certificação básica em cada uma das áreas. Desejável certificação avançada. Inglês e espanhol fluentes. Conhecimentos em anestesia, enfermagem, medicina do trabalho, medicina do esporte e cirurgia plástica são diferenciais. Carteira A e B para prestar pronto-socorro fora do hospital. Disponibilidade para viagens e de horários para atendimento aos pacientes fora do horário de trabalho. Desejável que o médico esteja em constante atualização em suas áreas.
Salário: "R$1.500,00".

E aí, vale?

Vamos ver se eu consigo explicar.
Existe o arquiteto do software. O cara que entende dos conceitos de construção do programa. Que irá gerar e gerenciar a base e os pilares do sistema.
Existe o DBA, que irá cuidar do banco de dados que o programa utiliza para guardar os dados.
Existe o Infra, que irá cuidar de todas as máquinas e redes, para que os demais possam se concentrar em seus trabalhos.
Existe o analista de negócios, que irá levantar as regras de negócio que o programa deve atender.
Existe o desenvolvedor, que irá criar as novas aplicações no sistema, seguindo as orientações do analista de negócios, sobre a base e os pilares que o arquiteto de software criou.
Existe o suporte, que irá atender aos problemas do dia-a-dia de utilização do software pelos clientes, gerando, inclusive, demandas para a programação.
Existe o programador, que irá efetuar as correções e as modificações, seguindo as orientações do suporte e dos analistas de negócio, sobre os programas já criados pelo desenvolvimento, no sistema.
Existe o testador, que irá submeter todas as alterações a testes, para certificar a qualidade e padronização do software.
Existe o documentador, que irá descrever as regras de negócio e de usabilidade do software, para registro do padrão do sistema.


E ainda podem existir mais pessoas envolvidas no processo. Implantadores, seccionamento de setores por nível, etc... Mas cada um destes trabalhos possui toda uma área de estudo, suas próprias metodologias e ferramentas. Assim como em outras áreas, até há como alguém fazer mais de uma etapa. Mas é muito mais interessante aplicarmos o fordismo e criarmos uma linha de produção. Cada qual fazendo uma parte pequena do todo.

Esses donos de empresa querem o máximo de conhecimento pagando o mínimo de salário, justamente porque não sabem gerencial o projeto que se inicia com a venda do software.

E o pior é que tem profissionais de TI que aceitam receber pouco, serem sobrecarregados com acúmulo de funções e, ainda por cima, serem cobrados como se nada estivessem fazendo.

Nós, profissionais de TI, chamamos este quadro de "prostituição".

Basicamente, para não morrer de fome, os péssimos profissionais se submetem a "R$10,00 a hora" ou "R$800,00 por mês". E, porque eles aceitam, a média de qualidade dos softwares acaba baixando drasticamente. Os softwares são entregues para as empresas-clientes sem renderem tudo o que poderiam. Às vezes, até mesmo dando prejuízos. O produto-TI desvaloriza. As empresas que querem cobrar valores justos têm menos base, ainda, para discutir. Mesmo tentando se diferenciar no mercado, sendo exemplo de empresa com boa qualidade.

Não faltam bons profissionais de TI no mercado. Eles só são bons demais para se sujeitarem a esse ciclo de exploração. Simples assim.