quinta-feira, 18 de julho de 2013

92.000.000.000.000.000,00 de Motivos...

O texto de hoje começou, na verdade, no texto de ontem. Por isso vou te pedir que você leia ele, antes:

http://alsssg.blogspot.com.br/2013/07/um-dia-nos-sermos-maioria.html

Obrigado por ter lido lá.

Nessa semana aconteceu uma coisa interessante. O PayPall (site que trabalha como se fosse um banco) depositou $92.233.720.368.547.800,00 para o usuário Chris Reynolds. Evidentemente, isso foi um acidente. Um erro do sistema. Mesmo porque, noventa e dois quadrilhões de dólares sequer existem no nosso mundo, hoje em dia. Para você ter uma ideia, segundo o banco mundial o PIB mundial, hoje, gira em torno de US$50.000.000.000.000,00. Levando em consideração o acumulado, o mundo tem a disposição cerca de US$350.000.000.000.000,00. Ou seja, o mundo inteiro dispõe de uns trezentos e cinquenta trilhões de dólares para gastar. Mas o PayPall "deu" noventa e dois quatrilhões para o Chris.

Evidentemente é um erro. Uma coisa dessas tu tira um printScreen para rir com os amigos no facebook. Uma pessoa séria, educada e honesta, liga para a empresa, avisa sobre o equívoco e espera que seja ajustado.

Aliás, foi isso que o Chris fez. Isso por si só nem vira notícia, diga-se de passagem. Sistemas de informação nunca estão a salvo de falhas humanas, seja em sua programação ou operação. Mesmo com o número astronômico na conta, isso é o de menos.

Mas o caso virou notícia no mundo inteiro. Lá fora, o caso foi noticiado, mas o enfoque foi no detalhe do tratamento que a empresa PayPall deu para o caso. Em momento algum a empresa se eximiu da responsabilidade da falha, tão pouco tentou dar desculpas esfarrapadas. Com toda a dignidade que se pode esperar, a empresa simplesmente reconheceu o erro. Como compensação para o incômodo que gerou para o cliente, o PayPall prontamente ofereceu uma doação para uma instituição que o Chris escolhesse. Justo, nobre e até lindo.

Essa é a notícia, esse é o enfoque. A lisura, presteza e rapidez com que a PayPall resolveu o caso. Vendo isso, qualquer um nota que existe justiça no mundo. E, principalmente, que existem pessoas boas, que acatam a justiça sem a necessidade de algum juiz bater um martelo sobre sua mesa. Bom senso, integridade... enfim, valores. A alma da humanidade fica um pouquinho maior depois de sabermos que o Chris e o PayPall resolveram o caso de um modo mais justo do que se poderia imaginar no melhor cenário possível.

Aliás, está aqui a notícia em inglês:
http://edition.cnn.com/2013/07/17/tech/paypal-error/index.html?hpt=hp_t2

Detalhe para a resposta de Chris para a pergunta: "O que você teria feito se fosse quatrilionário de verdade?"
"Eu provavelmente pagaria a dívida nacional."

Mas...............................

A notícia chegou aqui no nosso país. E o nosso enfoque... Olha, amigo, foi algo de chorar de desgosto.

Veja você mesmo:
http://tecnologia.br.msn.com/mercado/paypal-da-usdollar-92000000000000000-a-usuario-por-acidente

Enquanto o título da notícia norte-americana diz "PayPall credita acidentalmente US$92 quadrilhões para um homem", uma notícia tupiniquim já atacou de "PayPal dá US$ 92.000.000.000.000.000 a usuário por acidente".
Tá bom, eu sou malvado e quero botar abaixo o Brasil. Nem foi tão discrepante assim... Mas olhe o sub-título brasileiro: "Usuário não conseguiu sacar sua fortuna antes do erro ser corrigido."

Nossa "cultura" é tão atrasada, que disponibilizamos a ideia de que todos são "espertalhões". Que qualquer um se adonaria do dinheiro que não lhe é devido! Por este subtítulo, entende-se claramente que o Chris não queria devolver o dinheiro mas, sim, ficar com a fortuna! Pior é o parágrafo final do texto. Certamente Chris não correu para o computador com intenções ruins. E, certamente, ele não ficou amargurado ou na sarjeta, por não poder se aproveitar do erro alheio.

Aliás, quem acessou essa notícia sequer soube como o PayPall irá compensar o Chris pelo erro.

E é aí que eu sinceramente não sei "quem veio primeiro". Naquela historinha "do ovo e da galinha", não sei se o brasileiro está tão degenerado que essa degeneração entrou na cultura e na mídia, ou se a cultura e a mídia degeneraram o pensamento do povo com a ideia do "venha se dar bem você também".

De qualquer modo, hoje os dois processos se encadeiam em um ciclo. Quase a totalidade dos brasileiros são ou querem ser espertos e a cultura e a mídia dão o enfoque nessa esperteza que todo brasileiro têm ou quer ter.

E eu já nem sei mais qual é a solução mais correta para isso.
Proibir esses "artistas" e "jornalistas" rasos, sensacionalistas, comerciais e irresponsáveis de produzirem materiais que contribuam para a degeneração da sociedade parece algo bom. Embora eu defenda a liberdade do indivíduo, é complicado dar liberdade de escolha para quem sequer sabe quais são as opções que existem.

É complicado jogar um jogo onde os demais sequer sabem as regras.

Ou, então, perder os poucos anos de juventude que ainda me restam (crise dos trinta pegou pesado em mim e eu não sei como desencanar dela. Sinto que a minha juventude se foi e estou depressivo, como se alguém muito próximo tivesse morrido), lutando para mudar o pensamento das pessoas à minha volta? Engajar-me na política, fazer uma reforma drástica na educação, esperar trinta anos para que os jovens se formem pessoas de verdade. Esperar mais uns vinte anos para que, lá nos meus oitenta anos, eu veja uma geração com vinte anos na idade e ideias de verdade na cabeça?
Quando eu vou começar a viver, então? Quando eu vou sair nas ruas sem medo de ser assaltado, raptado, atropelado, abordado ou, simplesmente, assassinado? Quando eu vou parar de ter medo de ficar doente?

Vocês podem não notar, mas construímos um país onde nós não nos tratamos uns aos outros como "pessoas de verdade". O tratamento que dispensamos a todos em nossa volta é de lixo humano. O pouco conforto que temos é comprado ao custo do nosso suor, da nossa dignidade e da nossa alma.
E o mais incrível é que quem consegue alçar um pouquinho mais alto literalmente CAGA E ANDA para os que ainda estão se afogando no mar de lama.
Não, não estou me referindo à caridade. Mesmo porque a caridade não ajuda a quem deveria ajudar. Estou me referindo às pessoas que só militam em causa própria. No pessoal que insiste em só ver o próprio umbigo em todas as situações. "Está bom para mim, então farei de tudo para manter a situação assim!" Mesmo que a situação esteja visivelmente errada. Mesmo que isso custe a vida de milhões de outras pessoas.

Eu insisto: "Bem e Mal" e "Sorte e Azar" são relativos. Mas o "Certo e Errado" são absolutos. E cada um de nós sabe, exatamente, o que é justo e o que não é justo. E, mesmo assim, muitos de nós passam por cima desse conceito, para manter o benefício próprio.

Vergonha de ser brasileiro. Essa cultura não me representa. Infelizmente, acho que é mais fácil sair desse país e encontrar um lugar onde as pessoas tenham uma cultura parecida com a minha. Assim, ainda poderei aproveitar os meus anos de juventude em um ambiente onde poderei viver sem me preocupar com áreas básicas da minha vida.

Realmente, talvez seja esse o sentido geral da frase ignorante: "Os incomodados que se mudem".