quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um dia... Nós sermos a maioria!

"Os tiranos não imaginam o outro..." - José Carlos Fernandes

Há um tema recorrente na minha mente. Um tema para o qual eu não tenho, ainda, uma resposta satisfatória. Aliás, anseio há tanto tempo por essa conclusão que não sei se algum dia a conquistarei. "Aliás dois", esse é um tema de perene discussão da humanidade.

Até onde o ser humano pode ou deve ser guiado, perdendo a sua liberdade?

Bem, que não podemos deixar as decisões dos indivíduos "por sua própria conta", isso já é certo. Imagine, por um instante, um mundo onde não existisse nenhuma regra, nenhum juiz e, portanto, nenhuma punição. Ou melhor: que a justiça e punição para o que quer que aconteça seja somente a sua própria capacidade de sentir-se lesado e de fazer justiça com as próprias mãos.

É, ninguém quer viver em um ambiente onde possa ser enganado, roubado ou, até mesmo, morto.

Por isso, criamos o famoso "pacto social". Para vivermos em sociedade, nós dois aceitamos perder um pouco dessa "liberdade total", para ganharmos segurança. Eu concordo em não te matar e você ganha o direito de não ser morto por mim. Usando reciprocidade, você concorda em não me matar e eu ganho o direito de não ser morto por você. Logo, a visão individual do pacto social é "eu sou submetido ao dever de respeitar a vida dos outros para ganhar o direito de ter a minha vida preservada".

Assim como no exemplo que citei acima, alguns pontos do pacto social são óbvios. "All around the world", ninguém quer ser morto, roubado ou lesado de qualquer forma. Mas o ser humano é um povo muito imaginativo e inventivo. Existem milhares de culturas espalhadas pelo mundo. Há quem diga que as opiniões e modo de ver a vida de cada pessoa gere uma cultura diferente. Assim, podemos até arriscar que existem bilhões de culturas diferentes. Muitas das quais dentro de um mesmo continente, país, região, cidade, bairro, rua, casa, quarto ou até mesmo dividindo a mesma cama. A política está aí justamente para conciliar todas essas culturas diferentes, criando um pequeno monstro, amálgama da opinião da maioria sobre cada assunto considerado relevante. Os povos e/ou os seus governantes acabam discutindo esses pontos e transformam-nos em leis.

E é a penetração dessas leis na liberdade de cada indivíduo que geram a dualidade na minha mente.

Qual é o ponto em que os direitos que o indivíduo ganha com o pacto social são menores do que os deveres que o mesmo pacto social imputa a cada um de nós?

E eu nem falo tanto de cobrança de impostos abusiva, corrupção e regulamentações criadas só para benefício diretos ou indiretos de parlamentares. Não estou considerando questões de moralidade das leis criadas. Estou pensando no cenário ideal, onde os legisladores são todos honestos e fraternos. Mesmo nesse caso, a restrição da liberdade versus direitos ganhos me dão dor de cabeça.

Vou citar um exemplo. Exemplo simples, mas que me tira o sono.

Remontando o distante ano de 2007, lembro de ter discutido com o Duda (Eduardo, dono de uma vídeo-locadora) em Balneário Gaivota, sobre as aquisições de filme dele.

Basicamente, esperei por uma semana pelos novos filmes que ele havia encomendado. Quando os filmes chegaram, os títulos que eu queria assistir não vieram. Mas, em compensação, dezenas de filmes de ação, terror, suspense, comédias românticas e lixos em geral, estavam na seção de "lançamentos". Sim, eu sou metido e gosto mais de filmes cerebrais. Aqueles que tu tem que pensar para entender. Que o enredo tenha filosofia, consistência. De preferência, um mistério que vá além do "onde será que o assassino vai emboscar o personagem extra?". Se o enredo for cômico, que as piadas sejam bem elaboradas. Aceito piadas "de pum", desde que sejam bem encaixadas com o contexto. A cena do gel em "Quem Vai Ficar com Mary" é tão infantil quanto hilária.

Quando perguntei para o Duda porque ele não havia trazido os títulos que eu estava esperando, a resposta dele foi taxativa: "Porque ninguém aluga filmes com conteúdo!"

Conversando com ele, o próprio Duda disse que preferia filmes com mais conteúdo. Que não se baseassem em efeitos especiais para vender. Mas o povo... Temas complexos não prendem a atenção do povo. O povo não entende um ponto, não pega uma referência... E perde o interesse no filme que tem conteúdo. Assim, os únicos filmes que prendem a atenção do povo são os que apelam para as emoções, ao invés do cérebro. É mais fácil ficar conectado a um filme que te causa medo, amor ou risos histéricos, do que um que você tenha que prestar a atenção nos detalhes, nas falas e no mistério.

E, desde então, eu tenho pensado nessa conversa. Até já devo ter comentado sobre essa conversa com você, amigo, aqui no Ponto Final.

Isso porque eu fico imaginando o que aconteceria se o povo só tivesse acesso a filmes com conteúdo. Ou a indústria cinematográfica iria à falência, ou o povo passaria a ver filmes que aumentariam sua capacidade de raciocínio.

Evidente que isso seria um paliativo grosseiro. Atuar na consequência, esperando que a causa se adapte e se extingua pela necessidade de atender à exigência imposta na consequência. Coisinha que os políticos brasileiros adoram fazer. O mais correto, nesse caso também, seria melhorar a educação para termos mais cidadãos com mais capacidade de raciocínio. Porque, hoje, a maioria das pessoas do Brasil é composta por analfabetos-funcionais. Mão de obra barata para empresas de processamento básico, extração, agricultura e pecuária. Centenas de milhares de secretárias, atendentes de telemarketing, office-boys e moto-boys ineficientes sendo despejados do segundo grau para o mercado. E a (falta de) cultura desse povo é o balizador para criação das nossas regulamentações e leis. Esse povinho sem capacidade se fez maioria e elegem governantes corruptos eleição após eleição. 

Definitivamente, um povo cujas vontades não podem ser utilizadas para definirmos o futuro da nação. Mesmo porque, é um povo que sequer sabe o que é melhor para si próprio. Gente que se deixa enganar pela mídia o tempo inteiro. 
Quer exemplos bons? 
1 - A PEC37 estava combatendo algo imoral. O Ministério Público se auto-concedeu poder de investigação e isso é imoral. O Legislativo e o Judiciário deveriam dar esse poder ao Executivo. E o primeiro passo seria, justamente, derrubar a medida provisória do executivo e retirar os poderes de investigação do Ministério Público. Depois, os demais poderes deveriam criar a regulamentação corretamente. Respeitando o tripé dos poderes.
2 - O Ato Médico estabelecia as funções de cada profissão da área médica. Entre as regulamentações, estava escrito que é responsabilidade do médico dar diagnósticos. Sinceramente, eu concordo. Afinal de contas, é o médico que estuda para isso. É o médico que tem que ser responsabilizado por isso. Enfermeiros, farmacêuticos e a sua mãe não estudaram para interpretar sintomas e exames. Quem não é médico pode arriscar palpites, de acordo com a sua experiência pessoal. Tá certo, enfermeiros e farmacêuticos acabam lidando muito com essa área e podem acabar sabendo o que fazer em muitos casos. Você e eu não vamos ao médico para sabermos quando tomar uma aspirina... Mas eu mal confio na perícia de um médico para saber o que deve ser feito... Geralmente peço opinião de dois ou mais médicos... Imagina seguir cegamente o diagnóstico de enfermeiro ou de farmacêutico? Não, obrigado. Prefiro jogar roleta russa, logo. Mas o brasileiro-comum é contra isso. Acha que o Ato Médico é uma tentativa de golpe. Ok, então...

Fiquei pensando que, talvez, quando a capacidade de raciocínio de uma população se degenera até este ponto crítico, a maior restrição de liberdades pode ser algo bom.

Entenda: Somos um povo que não admite perder o direito ao porte de armas; mas a lei que proíbe a comercialização de álcool líquido está quase entrando em vigência. Ou seja: o álcool será proibido porque PODE causa incêndios e matar pessoas, se mal utilizado. Agora, uma arma que foi feita para matar pessoas, independente se for bem ou mal utilizada, ainda é algo que pode ser comercializado. A capacidade de manter a coerência no pensamento não existe. Nesse caso e em muitos outros. A população não lê, não se informa, não pensa sobre o assunto e tira conclusões pelo pensamento de terceiros.

Quais terceiros?

Minha televisão é o meu despertador. De segunda a sexta ela liga às 06:32hs. Exatamente no momento que está começando o "Bom Dia Rio Grande". Telejornal diário, que mostra as principais notícias da noite, madrugada e do dia que seguirá.
De segunda a sexta eu vejo a chamada de notícias. E, notando como a pauta se repete, eu fico imaginando como é fácil ser jornalista. Nem bem deram "bom dia" e a primeira notícia é o relatório de mortes no trânsito, na última noite e madrugada. O sangue escorre pela tela, sujando todo o chão. Mesmo que a frota de automóveis aumente exponencialmente, enquanto a quantidade de acidentes e mortes se mantenham estáveis, o relatório de acidentes é dado com tom de indignação. 
Situação do trânsito (geralmente engarrafamentos) e a previsão do tempo...l
Na sequência, a pauta nos trás assaltos, assassinatos, vandalismos e quaisquer outras ações de violência que tenham acontecido. O banho de sangue fica completo.
Alguma notícia de denúncia de má prestação de serviço (público ou privado) fecha esse arco de notícias.
Depois, vem o esporte. Grêmio, Inter e mais alguma nota de rodapé sobre algum feito do esporte gaúcho.
No meio disso tudo, jogam uma matéria com fundo social, geralmente com cunho feminista. "Doenças da mulher", "Desafios da mulher", "Violência contra a mulher", etc... Anteontem foi dia do homem e nem mencionaram isso no jornal...

Enfim, se você notar bem, o jornal quer é mexer com as suas emoções. Nenhuma pauta é explorada a fundo. As (poucas) entrevistas são rasas.. Jornalistas experientes fazendo perguntas triviais, em nome "do interesse da população". Sério, meu interesse sempre vai muito além do que esses "jornalistas experientes" perguntam... Mas, né?

Desde a época em que eu conversei com o Duda, eu não sabia. Achava que essa minha ideia era original. Que eu estava abrindo toda uma nova discussão no saber humano. Claro que o hábito da leitura me fez descobrir, depois, que isso é apenas a Heurística da Disponibilidade.

A Heurística da Disponibilidade nos mostra que a atenção do povo - independente do grau de instrução - é curta. Se você não alimenta a população com assuntos realmente relevantes, discutidos com a profundidade correta, você manipula as pessoas. 

Exemplo? O incêndio na Kiss. Quantos outros incêndios dessa magnitude já aconteceram em casas noturnas no mundo? Quatro, cinco? Estatisticamente falando, incêndios são improváveis. Dada a quantidade de prédios e as precauções que nós já tomamos, acontecer um incêndio é uma fatalidade. Extrema má sorte ou crime, mesmo.
Mas qual foi a reação no Brasil? Hoje, quase seis meses depois da tragédia, o país ainda gira em torno de prevenções de incêndio.. Políticos estão trabalhando no endurecimento de leis e regulamentações anti-incêndio. Estamos gastando tempo e recursos com um assunto que não tem urgência proporcional.

Entenda: os jornais não falam de futebol porque o Brasil é "o pais do futebol"; O Brasil é "o país do futebol" porque toda a mídia só fala de futebol... Foi a ESPN abrir espaço para Futebol Americano, Baseball, Hockey e Basquete, que ligas nacionais foram criadas ou passam a ter mais visibilidade.

Disponibilidade da informação. Informação completa.

No incêndio do Mercado Público, em POA, mangueiras dos bombeiros estavam furadas. Os repórteres nada falaram. Em uma entrevista um comerciante falou que "a prefeitura tem que olhar mais para os valentes bombeiros, que estão trabalhando com mangueiras furadas". Vários amigos meus que estiveram lá (já morei DUAS vezes no centro de POA) relataram o mesmo. Porque o jornal não falou isso?

Eu sou um adepto do liberalismo. Tanto intelectual, quando político e econômico. Eu acredito firmemente que as coisas que precisam de proteção não valem a pena serem protegidas. Ideias que precisem do uso de força maior para serem perpetuadas (como as eternas ameaças infundadas que justificam ideias religiosas) não elevam a humanidade como um todo. Negócios e empresas que precisam de protecionismos baratos dos governos não oferecem boas oportunidades a médio e longo prazo. Um país só se torna forte quando compete e ganha dos demais países.
E o liberalismo dita que não existam interferências. Mas, quando a situação está muito degenerada, a falta de interferência nos leva a cenários como o do filme Idiocracy. Coisa que já está acontecendo hoje, em muitos lugares do Brasil. Onde o sexo e o hedonismo inundaram o modo de ser das pessoas. Músicas, histórias e a própria cultura já giram em torno de bundas, peitos, bocetas e paus.

Não há como oferecer o mais refinado direito para pessoas sem capacidade de utilizá-lo.

Entenda: Quem tem instrução, capacidade de raciocínio, inteligência e discernimento para usar uma arma de fogo, geralmente opta por não tê-la!
A pessoa que sabe utilizar álcool líquido não provoca incêndios. Quem a pessoa realmente habilitada para a vida usa os telejornais para se informar dos tópicos para, depois, se aprofundar nas áreas de interesse. E, somente depois de conhecer a fundo os casos e refletir sobre o que está acontecendo, a pessoa habilitada tira as suas conclusões.

Acho que posso resumir meu sentimento para com o povo brasileiro com aquela frase-chavão: "Direitos humanos para humanos direitos". Só que, no meu caso, não trato apenas de direitos humanos. Como não formamos humanos direitos nesse país, talvez o que estejamos precisando por aqui seja, somente, de uma ditadura comandada por um déspota esclarecido. Alguém que "arrume o barraco" em que se encontra o Brasil. Investimentos pesados nas áreas básicas. Fazer as próximas gerações notarem como o povo brasileiro tem sido tratado como bicho.

Alguém que ensine o povo brasileiro a pensar, do mesmo modo que se ensina uma criança a andar de bicicleta.

Então, depois que o povo estiver pensando por conta própria, esse déspota largaria o banco da bicicleta e deixaria esse país maravilhoso seguir o seu caminho.

Mas, se você notar bem, isso é trabalha para uma ou duas gerações. Coisa de 20~30 anos, partindo de hoje, agora mesmo. Isso significa que eu teria 50~60 anos quando o Brasil finalmente fosse um lugar habitado por gente de verdade. Eu perderia a minha vida inteira e passaria pelo processo de mudança.
No fim, a única alternativa é encontrar o povo que já está pronto e ir morar perto dessas pessoas parecidas comigo. Onde eu possa, enfim, fazer parte da maioria...