terça-feira, 10 de setembro de 2013

Copos Cheios

Em "Avatar", a xamã dos nativos diz ao forasteiro que "é impossível encher um copo que já está cheio".

Eu sei, essa filosofia é antiga, não nasceu nesse filme. Mas, no momento, é o único lugar "ponto comum" que eu lembro para citar essa ideia.


O importante é que recentes acontecimentos na minha vida me fizeram notar essa ideia.

Aliás, tudo na vida é assim, né? Acontece com músicas o tempo inteiro, se você notar. Todos já gostamos demais de alguma música. AQUELA música que, em determinado momento das nossas vidas fez TODO O SENTIDO DO MUNDO. Tanto que parece que foi escrita só para a gente. De alguma forma, essa música parece que revela algum segredo do universo, só para a gente. 
Torramos o saco de meio mundo de pessoas para escutarem essa música especial, na esperança de que ela os ajude do mesmo modo que está nos ajudando. Os outros parecem não notar o quanto ela é especial. Alguns até criticam a melodia mais especial do universo!
Passa o tempo, escutamos aquela música querida, novamente, e notamos que ela não tinha nada de especial... Muito porque já superamos aquele momento crítico, que dava sentido à música.

Portanto, talvez você leia este texto inteiro e dê um grande "e eu com isso" para tudo o que eu estou escrevendo. Mas, nesse momento da minha vida, o conceito por detrás do exemplo de que um "copo cheio não pode ser enchido, novamente" está fazendo todo o sentido do mundo, para mim.

No filme, a xamã fala isso fazendo menção à cultura e conhecimento que os colonizadores traziam, quando pediam para que os nativos ensinassem sua própria cultura e conhecimentos.

Mas, aqui, na "minha vida real", eu notei que esse conhecimento se expande um pouco mais.

Eu tive a epifania que, sim, todos somos tal qual os copos, utilizados no exemplo da xamã.

Só que podemos encher nosso copo com mais do que só conhecimento e cultura. Há muito mais coisas que podem ser colocadas dentro de nós, para nos completar. Planos, relacionamentos, pensamentos, pessoas, animais, causas, trabalhos, atividades... A lista de coisas que podem encher nossos copos é infinita. 

Mas só uma coisa é certa: cada um de nós busca - ávidamente - preencher o espaço vazio do nosso copo.

Mesmo porque esse espaço vazio dentro de nós é apenas uma analogia para o "motivo para viver". Todos temos tempo, forças, algum recurso, força de vontade, determinação e todo o aparato para encher os nossos copos com algo. Mas só sabemos definir o que devemos fazer quando determinamos com o que vamos preencher o nosso copo.

E a vida consiste, amigo, justamente no "o que devemos fazer". Ou seja, o objetivo é relativamente insignificante, nas nossas vidas. Não importa se você preencheu seu copo com o objetivo de vida "respirar" ou com o objetivo de vida "descobrir o segredo da imortalidade"; a sua vida é o conjunto de decisões e ações que você toma, motivado pelo conteúdo do seu copo.

Só que muitos de nós não notam esses objetivos de vida. Não notamos que vivemos para brincar, para estudar, para termos um parceiro, para construirmos um relacionamento com este parceiro, para ganharmos dinheiro, para criarmos filhos, para nos aposentarmos, para criarmos os netos e para não morrermos por qualquer doença...

Passamos uma vida inteira cultivando os mesmos objetivos biológicos, geração após geração. E você ri das formigas operárias, que trabalham incessantemente pelo bem da colônia...

O fato é que não adianta você querer se concentrar em um objetivo, se há outro objetivo preenchendo o seu copo.
Acontece com quem acabou um relacionamento há pouco tempo. O "copo" do novo solteiro ainda está cheio com o antigo parceiro. Com os sentimentos, com os objetivos, com os apelidos, carícias, lugares que frequentavam, manias, brigas, cheiros... Tanto que o primeiro caso após o final de um namoro geralmente não dá certo. Ou primeiros casos, dependendo. É impossível encher um copo que já está cheio. Não há lugar para colocar a nova pessoa, os novos sentimentos, as novas brincadeiras, os novos apelidos, as novas brigas, metas e planos. 

É preciso esvaziar o copo de um relacionamento, antes de querer viver outro.

E, amigo, esvaziar um copo não é fácil. Dói para caralho. Há um sentimento de pesar, pelos planos e sonhos que morrem junto com o relacionamento. Há um sentimento de frustração por ter perdido tempo precioso que não volta mais, recursos e tudo o mais, em algo que não resultou nos objetivos determinados.

Por muito tempo eu acreditei cegamente no amor romântico, intuitivamente. 
Depois, jurei pela minha morte que o amor romântico fosse uma mentira. Que nós poderíamos escolher uma pessoa, nos dedicarmos a ela e, assim, construir um relacionamento a partir do zero. O sentimento surgiria com o tempo. Tudo estaria centrado na vontade de fazer dar certo.
Nessa epifania que tive a partir da frase do copo, notei que ambas visões estão certas. E estão erradas, também.

A verdade é que nem todos sabemos educar nossa inteligência emocional. Alguns de nós sequer notam os próprios copos. Vamos colocando qualquer bobagem lá dentro. Criamos uma mistura de muitas coisas insignificantes demais. Nos perdemos nos objetivos da nossa vida. E, quando conhecemos alguém especial, esta pessoa não consegue preencher o nosso copo que já está cheio.

Nossa atenção se divide em diversas atividades. No processo, não fazemos nada direito.

E, voltando a atenção para os relacionamentos, acabamos não cuidando da pessoa que deveríamos cuidar.

Ficamos preocupados com o futebol de quarta, com a cervejinha com os amigos, com o carro, com o joguinho, com o trabalho, com o salão de beleza, com a própria família, com a associação do bairro, com a ONG de proteção aos animais, com o jardim, com potes plásticos, com a religião, com os filhos ou com qualquer outra porcaria... E esquecemos de dar atenção para AQUELA PESSOA ESPECIAL.

E, isso geralmente acontece dos dois lados. Como a maioria das pessoas são analfabetos emocionais, temos casais que se conhecem, ardem no fogo da paixão e, depois, passam a se distanciar lentamente. Se distanciam até que a intensidade do espaço reservado no copo de um não seja suficiente para atrair o outro.

Traições, famílias separadas, brigas, pensões, filhos mal criados, mais uma geração sem educação emocional...

Mas é pior ainda quando uma pessoa "com o copo cheio" se relaciona com uma pessoa "com o copo vazio". Você já deve ter visto casais por aí em que um "faz de tudo pelo outro" e o outro ignora, despreza e faz pouco do parceiro dedicado... Não?

É amigo... Não existe sentimento no mundo que force as pessoas que têm "o copo cheio" a ficarem com outra.

O ideal é que o casal tenham os copos vazios. Cada um de nós deve saber o que quer da vida. E, se o desejo é o de viver um relacionamento, o copo deve estar vazio, pronto para receber o outro como objetivo de vida. Pronto para se dedicar ao outro. Pronto para atender necessidades, para mimar, para fazer feliz. Um relacionamento de verdade nasce quando os dois estão prontos para fazerem da outra pessoa o centro de suas vidas.

Menos que isso é enganação que acabará mais cedo ou mais tarde.