segunda-feira, 28 de abril de 2014

Elevador

Ela passou o final de semana inteiro presa em casa, sem leite.

Ela nunca havia notado o quanto o leite era necessário em um apartamento de um quarto, habitado por uma única menina de 23 anos de idade, no antepenúltimo andar de um prédio do centro da cidade.

Ela sequer atendia o telefone. Não porque ele não estivesse funcionando ou tocasse incessantemente no final de semana inteiro. Ela simplesmente havia mentido que tinha ido para longe. Alguma viagem até algum lugar aonde não havia cobertura do 3G. Algum lugar distante, como o outro lado da cidade...

Mas a verdade é que seu celular vibrou algumas vezes no final de semana. Mas ela não teve sequer coragem de olhar as notificações. "Tomara que a mensagem de 'entregue' não tenha aparecido!"


Na verdade ela não parou de pensar PORQUE ela fez o que fez na sexta. Talvez se ela passasse o final de semana inteiro dentro de casa o mundo inteiro esquecesse o que aconteceu. O mundo inteiro, menos ela, claro. Porque passar o seu número para aquele carinha novo? Porque?

Era só uma viagem curta, de poucos andares, até o seu apartamento. Ela nem precisava ter feito essa viagem com o carinha novo. Bastava que ela tivesse demorado um segundo a mais para acelerar naquela sinaleira aonde não havia ninguém na frente dela. Dois segundos a mais gastos ali, ela teria estacionado dois segundos depois na sua vaga na garagem e ela teria chego no hall dois segundos depois. Dois segundos seriam suficientes para o carinha novo não ter visto ela, não ter segurado o elevador, para ela não ter rido de alguma piada boba que ele fez, não ter achado seu sorriso bonito, não ter dito que "adoraria sair para conversar uma hora dessas" e não ter dado o número do telefone para ele... 

Droga de Whatsapp...

Mas a segunda sempre chega. Uma segunda sem leite no café da manhã. "Como isso é possível? Tenho que fazer alguma doação para os grupos de ajuda aos intolerantes à lactose. Não dá para ter uma vida feliz sem leite!"

Ela se arrumou. Caprichou demais no visual para uma segunda-feira. Mas não muito, porque ela deveria parecer cansada para comprovar a viagem que disse que fez no final de semana.

Exitou antes de abrir a porta do apartamento. Olhou para os dois lados antes de sair. "Que bobagem! O carinha novo nem mora no meu andar..."

Ela pensou umas duas vezes sobre os prós e contras de descer as centenas de degraus da escadaria, em vez de usar o elevador. Na primeira ela achou a ideia interessante, pois estava usando um belo salto. Na segunda imaginou que nem seria tão ruim assim encontrar com o carinha novo. Afinal, ela havia passado o final de semana inteiro fora! 

Ela apertou o botão para chamar o elevador. Ele veio do último andar. "Droga!"

As luzes correspondentes aos números dos andares acendiam e apagavam, demorando uma eternidade. Uma eternidade para apagar, outra eternidade para acender, mais uma eternidade para apagar... "Será que o elevador parou nos outros andares?" 

Até que a luz do seu andar acendeu...
O sinal sonoro avisando que o elevador estava em seu andar soou em unissono com a sua aflição.
As portas pareciam se recusar a abrir. Será que o carinha novo estava ali? Se ele tentou falar com ela e ela não leu a mensagem dele, será que ele vai achá-la muito convencida? Será que ambos passariam por um constrangedor, pesado e fedorento silêncio até o hall? Será que o mundo inteiro iria condená-la por algo que só os dois sabiam que deveria ter acontecido? Ou será que o carinha novo iria contar mais uma boa piada? Será que ele estaria usando um bom perfume, faria um convite para um almoço em um bom restaurante e teria um sorriso mais branco e lindo do que o de sexta? Será que ela diria sim para ele? Será que os dois conversariam, marcariam um jantar (na casa dele, não da dela... ela não iria cozinhar!), o jantar seria legal, marcariam um filme para outro dia, um barzinho para o final de semana, uma festa para a madrugada... Logo estariam namorando, logo ela apresentaria ele para a sua família, planejaria um casamento, se mudariam para uma casa longe do centro, teriam três filhos e seriam felizes até que o carinha novo contratasse uma secretaria novinha. Aquela vadia. Destruidora de lares. Mas ela iria tirar tudo dele no divórcio, sem falar da pensão! E ela nunca mais olharia para ele! Nunca mais!

As portas do elevador enfim se abriram o suficiente para que ela pudesse ver que não havia ninguém dentro. 

Ela suspirou aliviada nesse dia.

Duas semanas depois ela se mudou para outro prédio. Só para garantir.