segunda-feira, 3 de março de 2014

O Lobo de Wall Street

Então. Fui ao cinema ver o tal filme "O Lobo de Wall Street".

Na matemática existe uma regra que diz que, se você partir de uma premissa errada, seu resultado sempre será errado. Mesmo que você não tenha cometido nenhum erro matemático durante a resolução do problema.
Eu tomei conhecimento desta regra aos onze anos de idade, em uma das raras vezes que a minha família me deixava ficar acordado para ver o Jô Soares. Nesta vez, um matemático provou esse conceito colocando a premissa "2+2=5" no topo do quadro, desenvolveu toda a fórmula e, no final do quadro, havia provado – sem nenhum erro – que dois mais dois eram iguais a cinco.

Desde então eu coloquei na minha cabeça: por mais bonito que pareça, o que não começa bem não pode terminar bem.

E isso é a minha opinião sobre "O Lobo de Wall Street".
Um punhado de cenas feitas para serem impactantes, mas com princípios completamente deturpados. Sugiro fortemente a quem se desmancha em elogios aos conceitos passados por este filme, que procure ajuda psiquiátrica.
Apenas três personagens conseguiram despertar a minha simpatia desde que foram apresentados: a primeira esposa de Jordan Belfort (Leonardo di Cáprio), o agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler) e o pai de Jordan Belfort.
Não é a toa esses três personagens sejam os mais certinhos do filme. Podem me chamar de "Coxinha" à vontade.

O filme inteiro é baseado em uma história de roubo, corrupção, lavagem de dinheiro, mentiras, drogas e sexo. O ponto alto desse filme é ver o personagem principal se dando mal. Ah!!! Como são divertidas as cenas em que o imbecil do Jordan Belfort se dá mal!

Particularmente, antes de ver o filme eu até achei simpática o mote do filme. "Eu já fui rico e eu já fui pobre. Mas eu sempre escolho ser rico!" – Diz o Jordan Belfort como se um pastor evangélico fosse, para os seus fiéis empregados a certa altura do filme. Acredito que ninguém precise provar os dois lados da vida para escolher ser rico. O problema são os meios que você usa para chegar lá. A vida é um jogo e tem suas regras. Burlar essas regras é errado e, se dependesse de mim, ele mofaria na cadeia para o resto da sua vida...


A partir daqui eu falarei abertamente sobre o roteiro do filme, dando minhas opiniões. Se você ainda não foi ver, pare de ler, clique na propaganda do meu blog e vá assistir ao filme. Ele é fraquinho demais e, se você souber de muita coisa antes de assisti-lo, você ficará mais decepcionado com essa película do que eu.


O filme já te joga sexo e drogas na cara, na primeira cena. Acostume-se, isso acontecerá até a última cena. Aposto que o brasileiro típico gostou ou gostará desse filme muito por causa disso...

Jordan Belfort era um piá recém-saído da faculdade, com o sonho romântico de se tornar milionário. Sabiamente, decidiu trabalhar como corretor em Wall Street. Quando conseguiu seu primeiro emprego, Jordan ainda jogava de acordo com as regras. Mas logo em seu primeiro dia, Jordan é "catequizado" pelo dono da corretora. Mark Hanna (Matthew McConaughey), explica que o importante em um corretor não é fazer seus clientes ricos através do mercado de ações. "Deixe isso para o Charles Buffet!", exclama Hanna. Hanna explicou que as pessoas que "jogam na bolsa" agem como viciados. E explorar esse vício no lucro não realizado dos clientes era o que gerava as COMISSÕES para os corretores.


Jordan faz um bom trabalho até que consegue a sua licença para ser um corretor. Seu primeiro dia de trabalho foi nada menos que a "Segunda-feira negra", da década de oitenta. Demitido, passou a procurar emprego... Até que achou um em uma corretora de ações fora do pregão.



Nesse ponto, eu sugiro FORTEMENTE, que você já tenha lido ou leia o livro "Crash!: Uma Breve Históriada Economia – Da Grécia Antiga ao Século XXI", do AlexandreVersignassi. Com certeza vai te ajudar a entender todo o filme...

Uma "ação" nada mais é do que uma "vaquinha" que uma empresa faz para conseguir capital, prometendo pagar novamente ao acionista o valor que ele investiu na empresa, mais um percentual dos lucros. Imagine que baita negócio você comprar uma ação por R$10,00, com a promessa de receber R$20,00 no final do ano! Legal isso, né? Mas para que ficar só nos 10 pilas investidos? Se você colocar 20 pilas, receberá 40... Se colocar 100, receberá 200... Se colocar R$1.000,00, receberá R$2.000,00! Ah! Pra que ser tão conservador! Vamos vender tudo o que pudermos e colocar o máximo de dinheiro nesse negócio mágico! Vende logo o carro, dá a casa em um empréstimo, pegue alguns empréstimos consignados com o teu salário... Vamos colocar logo R$100.000,00 para esperar só um ano e ganhar R$200.000,00 nesse ótimo negócio!

Mas se nós comprarmos tantas ações assim, nós chamamos a atenção do mercado. Se você visse alguém comprando muitas ações de uma empresa desconhecida e barata, você não compraria também? Sim, né? Aí, com a procura, o preço da ação sobe. Antes ela custava R$10,00... Ela passa a ter mais procura e o pessoal passa a vender por 11, 12, 13... Vendem até o teto do lucro... Para quem comprou por 10 e vendeu por 15, é um baita negócio. Ganhar 50% de lucro só na especulação "será que essa ação é boa mesmo?" não é nada mal.
Mas... Ações que são baratas e pagam tão bem assim geralmente são bombas. Raramente o lucro de 100% do exemplo ali se realiza. Vocês lembram do Facebook na bolsa de valores? É, né?

Fazer esse movimento inteiro na bolsa de valores é enganar os outros. Brincar com a boa fé do sistema. É crime. Por isso todo país que se preze tem uma Comissão de Valores Mobiliários. E essa comissão investiga essas fraudes. Os Estados Unidos ainda possuem o FBI e a CIA, com várias divisões especialistas em rastrear esses roubos nas bolsas de ações.



Basicamente, o que Jordan aprendeu no filme foi a manipular as pessoas para conseguir roubá-las. Inicialmente no pregão on-line (em tempo real). E, depois, em corretoras que operam fora do pregão. Essas corretoras que agem "fora do pregão" vendem e compram ações que não têm valor suficiente para serem lucrativas dentro da bolsa de valores. Pequenos negócios que precisam de poucos milhares de dólares para iniciarem seus negócios (os famosos IPO's). Vendê-las, obviamente, é mais difícil. Logo, a comissão do corretor é muito mais alta. Comissão de 50% fora do pregão, em relação ao 1% de comissão dentro do pregão.
Com toda lábia do mundo, Jordan convence cidadãos de classe média e baixa que essas pequenas empresas de fundo de quintal são, na verdade, grandes empresas, com futuro próspero. E faz com quem essas pessoas invistam suas suadas economias em verdadeiras bombas-relógio.

Fodam-se os clientes. O que importa para o corretor são os 50% de comissão.

Jordan faz muito dinheiro. Junta uma turma de conhecidos para iniciar sua própria corretora de ações fora do pregão.
Então, o pulo do gato desonesto dele, ele descobre um meio de vender ações IPO para grandes investidores. Em pouco tempo, Jordan está milionário com seu golpe.
E sua segunda genialidade foi criar um personagem para si próprio. Alguém com um estilo de vida que os seus funcionários acreditassem que poderiam alcançar. Um playboy que só aproveita o melhor da vida. Melhor casa, melhor carro, melhor esposa, melhores jantares, festas... enfim... tudo melhor.

Atenção para o que eu estou fazendo, aqui. Estou contando "a história por detrás da história". No filme, tudo isso é passado muito rápido. As cenas de drogas, festas, piadas infames e sexo gratuito são muito mais numerosas e impactantes... O foco do filme é te mostrar que trabalhar com ações faz de você milionário. O QUE É MENTIRA.
O filme peca miseravelmente em explicar COMO Jordan e seu time ficaram ricos. Eles ficaram ricos na manobra ridícula de colocar grandes ações como carro-chefe de seu "pacote de serviços" para os grandes investidores. No meio dessas grandes ações convencionais, a agência de Jordan entupia seus clientes com IPO's de fabriquetas de fundo de quintal. Grandes investidores nem sentiam que estavam perdendo dinheiro com essas ações podres. Os lucros – na casa de milhões – das boas ações encobriam os prejuízos na casa de milhares dessas ações ridículas.

Com uma equipe de centenas de corretores sendo motivados o tempo inteiro pela lábia e carisma (em nível de pastores evangélicos) e pelo estilo de vida de Jordan, a agência ganhava muito dinheiro sujo.

Mas os Estados Unidos são um país livre. Cada um coloca o seu dinheiro aonde quiser. Para você ter uma ideia, nos EUA pirâmides financeiras são negócios regulamentados. Você coloca seu dinheiro aonde você quiser, filho. Só não venha reclamar depois.
Embora a CVM e o FBI fechassem o cerco em volta de Jordan, eles não conseguiam encontrar muitas provas do golpe. Isso sem falar em agentes nas duas instituições devidamente comprados por Jordan.

O fecho aperta mais quando Jordan tenta manipular o IPO de uma fabriqueta de "um amigo de infância do sócio dele". Em uma jogada completamente desonesta, Jordan compra a maioria das ações através de vários laranjas. Essas compras geram comissões para a corretora e elevam o valor das ações. Quando as demais corretoras começam a querer comprar essas ações podres (transformadas artificialmente em boas ações), os laranjas de Jordan as vendem, garantindo lucros monstruosos apenas na especulação e nas comissões.

Essa manobra chama a atenção do FBI, que passa a investigar mais de perto ainda a corretora e o próprio Jordan. Escutas telefônicas, amigos sendo observados... Tudo para arranjarem provas para prender Jordan.

Jordan tira seu dinheiro dos EUA e leva para um banco na Suíça, com uma enorme operação com laranjas.

O filme faz questão de mostrar que a vida inteira de Jordan é só festas, sexo e drogas. Foca demais no estilo de vida hedonista dele. Eu odiei cada cena. Menos uma.

Jordan "estuda" as "fases" da loucura das drogas. Então ele apresenta a hilária cena da "fase da paralisia cerebral". Amigo, foram cerca de quinze minutos de filme em que eu quase me mijei rindo. SORTE que eu não bebo refrigerante. Se tivesse tomado algo antes, teria que trocar de calças no meio do filme, ali no shopping mesmo.
Essa sequência de cenas está na altura do roubo do Coringa no início de "Batman, o Cavaleiro das Trevas".

Jordan cheirando cocaína para "ativar o cérebro" ao som da musiquinha que toca quando o popeye come espinafre... Olha... Fiquei FELIZ por estar acompanhado por alguém que deixou que eu risse feito um bobalhão no cinema.

No final dessa cena, um dos amigos de Jordan estava falando com o banqueiro suíço por telefone. E o FBI pega a ligação. E aí começa a parte divertida, para mim. "A casa cai" para Jordan. Ele é ameaçado de prisão, tem que entregar amigos, a esposa se divorcia dele, ele perde a guarda dos filhos, tem que pagar milhões em multas...

Saí desse filme meio impactado por quererem vender a ideia de que o estilo de vida irresponsável e hedonista é gratificante. As mentes mais FRACAS entrarão em redes sociais para dizer que o filme foi fantástico. Eu achei que, para ser RAZOÁVEL, poderiam diminuir a nudez e as drogas, aumentarem mais a parte em que Jordan fazia seus golpes e, principalmente, a parte em que ele se ferra.

Nisso, "Prenda-me se for capaz" foi MUITO mais feliz. Vendo a repercussão do Oscar, ontem à noite, vi muitas pessoas exclamando que esse era o ano de Leonardo ganhar seu primeiro Oscar. Desculpe, mas até a Scarlett (que sequer aparece em Her) merecia mais um Oscar esse ano, do que Leonardo.

Fico profundamente chateado que esse tipinho de filme faça tanto sucesso. "O Hobbit – a Desolaçãode Smaug" merecia muito mais estar entre os indicados.