quarta-feira, 24 de junho de 2015

É só uma fase... (Ou: Ainda há esperança para esse mundo!)

Eu moro em Florianópolis e odeio esquecer de carregar meu celular.
Mais exatamente, moro do lado da Udesc e ontem meu celular morreu quando eu estava indo pra casa depois do trabalho..
Quando eu digo que moro "do lado" da Udesc, quero dizer "do lado" mesmo.
Eu preciso atravessar uma rua e andar alguns metros para estar no portão da universidade.

Você sabe que a Udesc é a universidade estadual de Santa Catarina, né?
"Gratuita" de acordo com o senso comum brasileiro.
Concorrida, por óbvio.

Ontem fui fazer compras no "mercado" próximo da Udesc e da minha casa.
Coisas para comer à noite. Ovos. Um bife. Suco. (Restrição de carboidratos. Nada de pães, bolos, etc... Uma vida triste, como você pode ver.)

Na fila, eu estava me lamentando do meu celular estar morto. Não tinha música para estuprar meus tímpanos, criando uma barreira que só eu notaria entre o meu mundo perfeito e essa coisa horrível que vocês chamam de "mundo".
Eu conseguia escutar o barulho dos carros no estacionamento. Os bipes dos leitores de códigos de barras, nos caixas. Conseguia escutar os irritantes passos das pessoas. Mas nada disso superava a pior coisa que eu conseguia escutar: as conversas dos outros.

E os outros falam tanta bobagem...

Na fila aonde estava logo se juntaram três rapazes. Mochilas nas costas. Menos de vinte anos, estampados nos rostos. Garrafas de cerveja barata e gelada nas mãos. Não precisei gastar meus neurônios para deduzir que eram alunos da faculdade, pois a conversa deles denunciou.

Cara 1: "Getúlio Vargas foi um cara muito foda, defendeu o Brasil demais! Não entendo como existem pessoas que não gostam dele!"
Cara 2: "Meu avô sempre defendeu o Getúlio. Alguma coisa de bom o Getúlio deve ter feito para que o meu avô gostasse tanto dele."
Cara 3: "O pessoal mais novo reescreve a história de acordo com os interesses das multinacionais. Getúlio era o pai dos pobres, as multinacionais querem destruir o legado de Getúlio para poderem explorar os pobres."
Cara 1: "Poxa cara, isso mesmo! Pode ver que as multinacionais agiram rápido e não deixaram o Brasil seguir o rumo natural do comunismo: quando viram que iam perder o mercado brasileiro, deram o golpe de 64!"
Cara 3: "Sim! E se não tivessem feito o golpe em 64, teriam muito mais dificuldade para tentar fazer na década de 70."
Cara 2: "É... foi por pouco que o Brasil não conseguiu ser uma potência comunista..."

"PRÓXIMO!"

Opa. Era a caixa chamando. Fiquei tão concentrado no volume de merdas que os guris estavam falando, que deixei de prestar a atenção na fila. Na verdade, estava utilizando toda a minha concentração e força de vontade para NÃO responder aos imberbes imbecis.

Eu fui até o caixa e os guris continuaram as comunices deles.

Cheguei no caixa. Tirei os produtos da cestinha. Olhei os guris ainda na fila e fiz um sinal negativo com a cabeça. Achei que ninguém havia visto. Mas a senhora que atendia no caixa viu.

Caixa: "Se tá difícil com a liberdade de escolher, imagine o país comunista..."

O coração disparou. Eu abracei e beijei a caixa. Na minha mente, é claro.

"Fico imaginando qual foi o professor que colocou essas besteiras na cabeça desses guris" - falei.

"Isso são as bandeiras que todos nós defendemos, em determinadas épocas da vida. Eles começam a trabalhar e isso passa."

Chorei. Eu pedi aquela senhora em casamento, ali mesmo. Na minha imaginação, claro.

A caixa falou alto. Os guris escutaram e estavam olhando pra gente.
No caixa do lado, um senhor de idade que escutou e notou tudo, emendou:

Senhor do caixa do lado: "Ou quando a vida der a primeira tunda de laço neles. A vida sempre ensina." - falou em alto e bom som, com tom de voz de quem quer ser ouvido por todos no recinto.

Os rapazes ficaram com medo. Eu fiquei com medo.

"Vinte e cinco e cinquenta."
"Cartão".
"Crédito ou débito?"
"Débito."

A mão que digita a senha chegou a tremer.

"Boa noite."
"Boa noite."

Santa Catarina é um dos estados mais livres do país. O estado aonde partidos comunistas mais perdem, historicamente. Aonde as pessoas trabalham mais duro. Muitos aqui são acostumados com o pensamento empreendedor. Os próprios rapazes deveriam ser filhos de capitalistas de sucesso.
E isso reflete na sabedoria do povo. Eu estou na fase de compreender completamente "a mão invisível do mercado". Tanto a caixa quanto o senhor do outro caixa devem achar que eu também estou "levantando a bandeira" de alguma fase.
Mas, pelo menos, compreendi que defender o comunismo é - realmente - coisa de criança. É fase da vida. Alguns estacionam nessa fase e ficam ali durante décadas. Mas é claro que os seus pares não os levam a sério. Não tem como.
De certa forma, fico imaginando como deve ser triste e solitária a vida de um comunista mais velho. Sendo obrigado a conviver com moleques de faculdade a vida inteira. Vendo os outros entenderem a vida, saírem da fase de defender o comunismo ("traírem o movimento", rs...) e deixarem os comunismos da vida para trás.

Talvez... Talvez não seja necessário falar nada mesmo com esse povo. Talvez o melhor mesmo seja não perder tempo, seguir com a vida e deixar que o tempo sozinho trate de reparar as mentes dessas pobres criaturas.

Eu só queria que esses comunistas não fizessem tanta besteira com o nosso país, enquanto eles não amadurecem.