sábado, 23 de julho de 2016

Ocaso

"I hope I die before get old"
- The Who, My Generation.

Minha avó, dona Catarina Tavares, é uma figura. No ano de 2016, ela completou 77 anos.
Essa senhora nunca foi uma pessoa fácil para se lidar. Muito "caxias", ela sempre se esforçou para ser a melhor em tudo. Mesmo tendo crescido em uma época que não respeitava as mulheres, dona Catarina sempre se deu e exigiu respeito.
Sabem aquele funcionário público que trabalha direito? Aquele que chega no horário, cumpre suas tarefas com afinco e excelência e não se importa em fazer hora extra para atender às necessidades do público? Sabe aquele funcionário público que temos certeza que nunca existiu?
Pois bem, não só existiu como eu lhes apresento a minha avó.

Trabalhou uma vida no meio escolar. Era a "certinha" do grupo. A funcionária cujo desempenho evidenciava o desleixe dos demais funcionários. E, por isso, sofreu com chacotas, isolamentos e até mesmo retaliações durante toda sua vida profissional.

Minha avó sempre foi tinhosa. Desde sempre até hoje: se ela colocou algo na cabeça, só sai de lá realizado.

Criou família, montou uma vida, enfrentou dificuldades de frente e venceu todas.

Já faz algum tempo que o meu pai e eu "corremos atrás" das atividades da minha avó. Cuidamos para tomarmos o lugar dessa senhora de 77 anos sempre que ela tenta fazer algum serviço que exija força ou precisão.

Há mais de uma década ela estourou os nervos do ombro direito. Só fazendo força para "manter o jardim". Imagine: então com 60 e poucos anos, essa senhora arrastava ou erguia vasos de plantas. pelo jardim inteiro. Vasos grandes. Tô falando de objetos de 30, 40, até 50 quilos!

Achas que ela parou? Parou nada!
Achas que ela passou a pedir ajuda para outras pessoas? Que nada!

Até hoje ela aproveita qualquer descuido nosso para ir fazer força, sozinha.

Acredito a vó possua uma urgência de independência única. Talvez ela tenha desenvolvido isso durante a sua vida, enquanto enfrentava o mundo sem se desviar dos seus princípios.

Acontece que, não importa o que seja, se ela vê algo a ser feito, ela faz.
Ela não conversa, não exige, não solicita, não pede. Ela não planeja em grupo, não fomenta ideias, não compartilha o fardo.
Ela simplesmente baixa a cabeça e executa.

Mas como eu falei, a idade alcançou minha avó. E essa excelente qualidade dela se transformou em um defeito.

Temos medo cada vez que ela pega a tesoura de jardinagem. 
Quando ela procura a faca com ponta e fio na cozinha é uma emergência na casa.
Fogo? Leite derramado no fogão é uma constante na vida dela há décadas. Mas agora temos medo é dela esquecer comidas, panos, etc...
E eu nem vou falar muito das quedas. A vó vive há mais de 25 anos na casa dela. E os armários são basicamente os mesmos. Todos na mesma altura. Muitas vezes a vó tenta subir em cadeiras e escadas para alcançar objetos mais altos. E, sim, muitas vezes ela cai.
Nos últimos cinco anos meu pai está morando com ela. E, nesse tempo, com muito custo, ele conseguiu convencer a vó a colocar alguns balcões e armários mais baixos. Mas ela se recusa a trocar alguns armários aéreos. Eles ainda estão lá. E, com eles, o nosso medo.

Mas, mesmo sabendo de tudo isso, nós deixávamos que a vó fizesse o que quisesse. Tal qual um bebê aprendendo a andar, apenas tirávamos as coisas perigosas do caminho e mantínhamos vigilância.

No último mês, uma coisa me chamou a atenção sobra a minha avó.
Ela abandonou programas de TV comuns. Ela sempre adorou programas de artes, culinárias e talk shows, novelas, entre outros. Mas recentemente, fora o Dr Oz e ocasionalmente Ana Maria Braga e Escolinha do Professor Raimundo, ela abandonou totalmente a grade de programas que ela assistia. Hoje, ela passa os dias assistindo Shop Time e os leilões do canal do Tapete Persa.

No início eu achei estranho, mas como tinha mais coisas para fazer, deixei pra lá. Era só TV.

Então, um dia, minha avó quis comprar uma panela elétrica.
Estava brigando com o telefone, não conseguia efetuar a compra.

"É bonita, dá para levar à mesa", argumentou ela.
Ajudei fazendo o pedido pela internet. "Uma panela, na promoção? Sem problemas."

A panela chegou. Porcaria de produto. Mas, né? A vó queria...

Alguns dias depois ela para do lado do meu computador. "Arthur, eu quero encomendar mais algumas coisas..."
O primeiro boleto foi de cerca de cem reais. O segundo boleto? quase quinhentos.
Novamente, só bobagens. Panelas, cobertor, toalhas de banho.

Acendeu uma luz amarela dentro de mim. Passei a reparar na linguagem dos vendedores da ShopTime. Minha avó estava sendo enrolada...
Estava tentando conversar racionalmente com ela sobre isso. Para que ela notasse e entendesse que estava sendo feita de boba, que não precisava das coisas que estava comprando e que os produtos estavam caros para a qualidade oferecida.
Tudo sem sucesso. Mas OK. Eram só compras.

Mas hoje...


Hoje eu estava ajudando a minha avó a fazer o almoço. 

É uma coisa que o pai e eu fazemos quando estamos por perto. Medo real dela se machucar.

Quase na hora do almoço, minha avó começou a fritar bifes.
Em um desespero injustificado, ela começou a querer tirar as outras panelas de cima do fogão. Queria "espaço". Corri para ajudá-la. Tirar panela com batatas, tirar as beterrabas, tirar os ovos cozidos.
Então sobrou uma tampa (que agora eu sei que era da panela das batatas) na vertical, apoiada na tampa do fogão.

Eu olhei para a tampa sem saber que ela estava quente e pedi à vó que me passasse.
A vó pegou a tampa quente e largou na minha mão.

O resultado? 
Uma bolha no meu dedão. 
Uma bolha no meu indicador.
Uma bolha no meu maior de todos.

A reação da vó?
Continuou fritando os bifes.

Fui passar um antisséptico. Colocar água. Tratar a queimadura. Meu pai me ajudando.

Chega a vó: "O almoço tá pronto!"

Fomos almoçar. No almoço, minha avó mostrou uma reação de completo desconhecimento que ela tivesse me queimado.
Em vez de se preocupar com as bolhas que causou no dedo do neto, preferiu "jogar papo fora" sobre a qualidade da comida à mesa.

Lá pelas tantas eu perguntei se a vó tinha algum remédio para queimaduras em casa, ou se conhecia um bom.
A resposta dela?
"Hoje à tarde eu tenho que fazer uma visita para as minhas amigas!"
(Sim, há dias as amigas dela querem vir visitá-la, mas ela não quer as amigas dentro da casa dela. Logo, ela toma a frente e faz a visita na casa da amiga.)

Eu fiquei perplexo.
Minha avó é uma pessoa séria, mas jamais foi alguém que se esquivou de responsabilidades ou com coração tão frio.

Insisti: "Poxa vó, as queimaduras tão doendo..."

E então ela começou a contar uma história sobre como ela "não comia cebola porque achava o cheiro da cebola amarela catinguento. Mas que foi uma sorte ela descobrir a cebola roxa, que é menos ácida, mais gostosa e cheirosa".

Já tem uma hora que isso tudo aconteceu. Enquanto eu escrevo o texto, ela está lá, se arrumando para ir visitar as amigas. Eu tô até agora com aquela cara de "o que diabos tá acontecendo aqui?"

Essa é a sala da vó.
Um misto de estilos Vitoriano e Contemporâneo.
Eu já vi isso acontecer antes.
Os erros porque a cabeça pensa mas o corpo não acompanha... seguidos dos erros pelo corpo agir sem que a cabeça pense.

Minha avó é muito inteligente. Por isso, para qualquer desavisado, ela parece eloquente ao conversar.
Ela tem algum dinheiro. Isso encobre os erros financeiros e péssimas escolhas de compras que ela faz. E, por não passar necessidades, faz parecer que está tudo bem com ela.

Mas a verdade é que ela ENTOPE a casa com quinquilharias que não precisa. Que não são bonitas. Que sequer combinam umas com as outras.

E essa aqui é a "Nossa Senhora de Luz".
Uma "peça cara" que ela diz que "teve sorte de encontrar"!

E antes fossem só as dezenas de toalhas para duas pessoas, as centenas de tapetes para um único banheiro, quase 50 potes de plástico e vidro, etc... Ela faz o mesmo com COMIDA.

Pelo menos uma vez na semana ela vai ao mercado e à feira. Para DUAS pessoas, os gastos com comida giram entre 500 e 800 reais por SEMANA.
(Cara, eu, sozinho, gasto entre 400 e 500 reais por MÊS!)

E tu achas que essa quantidade toda de comida é consumida?
CLARO QUE NÃO!

E, puta merda, como eu fico doido quando alguém desperdiça comida.

Todas as semanas quilos de legumes, vegetais e frutas são jogados nos canteiros "pra fazer adubo", porque ficaram velhos e apodreceram.

E essas são as confirmações da senilidade da minha avó.

É triste. Mas aquela senhora forte, que fazia as coisas acontecerem, hoje é quase um bebê grande que precisa de observação 24hs por dia.
Não dá mais para confiar no discernimento dela.

E não bastassem as confirmações... Minha avó apresenta a contra-prova clássica: NEGAÇÃO.

Você não pode dizer à ela sobre as incapacidades dela. Não há como fazer entender que ShopTime tem uma linguagem estudada para te fazer comprar. Que eles fazem monólogos, conduzindo a conversa do modo que eles querem até te conduzirem à compra. Que o reloginho de 5 minutos de promoção não é definitivo e, daqui a pouco ele retornará. Que o número de peças no estoque caindo a cada segundo é uma mentira e que o mesmo produto estará à venda daqui duas horas na programação.
Ela nega tudo isso. Nega que esteja sendo passada pra trás. Nega tudo. Nega até o fim.

Nem o Lula e a Dilma são tão bons em negar as coisas.

Bem, minha avó não deixa que o pai saia de carro sozinho. Segundo ela, se ele dirigir sozinho, acontecerá um acidente e o pai morrerá. Por isso ela ou eu devemos sempre sair com o pai. Porque, se houver mais uma pessoa no carro, tudo ficará bem.
Ela acredita nisso. Sério. Não ri, não.

E eu tô triste. Há dez anos, quando saí da casa da vó, ela era uma pessoa tinhosa. Teimosa. Uma praga de cabeça dura. Mas era uma pessoa lúcida. Inteligente. Muito mais do que capaz.

Hoje?

Hoje ela está envolta em crendices absurdas. 
Mergulhada em falta de discernimento. 
Soterrada em negação.


E minha tristeza só aumenta porque eu notei que não há como escapar disso. É o curso natural das pessoas. Algo acontece no nosso cérebro e essa pecinha vai falhando até estragar. E quando ela estraga, não sabemos direito ainda o que fazer. Infelizmente é desse ponto para a decrepitude.

E, novamente, eu entendo o que quis dizer o The Who. 
CLARO que ninguém quer morrer. Claro que todos nós queremos ter uma vida boa, pra sempre. Mas infelizmente não é assim que a banda toda. O tom é outro, o compasso é bem diferente. Uma hora a entropia vai danificar de vez os nossos cérebros e nós seremos passageiros de pensamentos descolados da realidade.
Só nos resta desejar que nossa vida tenha acabado ANTES que isso ocorra.

Porque eu espero morrer antes de ficar velho.