quinta-feira, 18 de abril de 2013

Fábula...

A historinha começa em lugar nenhum, onde algumas pessoas recém chegaram. Esse lugar é tomado pelo mato e não tem nada ali, senão a natureza nua e crua.

Então, mãos à obra! As pessoas arregaçam as mangas e fazem o que precisam para construir um lugar propício para morar.
Limpam o mato, constroem ruas, casas, plantações, criações de gado.
Desenvolvem ligações com outros povoados.
As ligações com outros lugares geram "importações" e "exportações" de produtos e fluxo de pessoas.

Logo logo, o lugar começa a crescer.

O lugar fica tão grande, que as pessoas que ali moram já não têm tempo de cuidar de suas próprias vidas E cuidar das coisas que fizeram para melhorar a vida de todos. Não há mais como levar o lixo para longe, cuidar da rua, cuidar da propriedade das pessoas contra roubos, cuidar das disputas legais... enfim, cuidar de todas as benfeitorias, patrimônios e regras públicas que foram criadas para que todos pudessem viver em paz.

Então, essas pessoas ocupadas notam que existem pessoas menos ocupadas. Pessoas que não têm iniciativa própria (privada), mas que poderiam cuidar do bem público.
Aí, as pessoas criam uma vaquinha e passam a pagar para que esses desocupados efetuem "serviços públicos", que as pessoas com iniciativa privada não têm mais tempo para se dedicar.

Assim, nasce desde o professor que ensina as crianças de toda a comunidade, nasce o gari que varre todo o lixo da cidade, o policial que cuida da segurança dos bens e das pessoas, nasce o juiz que aplica as leis criadas para garantir a justiça no povoado, cria-se o médico que fica de prontidão para zelar pela saúde de todos, nasce o prefeito para gerenciar todos os demais servidores... E por aí vai...

Passa o tempo e as pessoas que não usam alguns desses serviços acham que não devem pagar por eles. E, para que os serviços não deixem de ser efetuados, para que um pequeno grupo não tenha que pagar por todos os serviços e para que todos paguem uma cota justa pelo serviço, os "servidores públicos" (antes meros desocupados, sem iniciativa privada) impõem valores para que todos paguem obrigatoriamente pelos serviços - quer usem ou não. Valores impostos. Impostos.

Aí, existem duas inversões de valores "que só o Brasil faz para você":

1 - Os "desocupados sem iniciativa que ganharam um emprego para ajudar as pessoas com iniciativa", como exigem dinheiro das pessoas com iniciativa (e recebem-no), embriagam-se com o poder adquirido. E passam a acreditar que são mais importantes do que as pessoas com iniciativa privada!
Veja que maluquice: inúteis que ganharam uma chance de se integrarem à sociedade acabam se achando mais indispensáveis do que as pessoas que foram benevolentes para com eles. Não notam que, se a iniciativa privada não existisse e não estivesse tão ocupada, não haveria razão para existir serviços públicos! Porque, afinal de contas, se as pessoas que criam negócios tivessem tempo para cuidar de mais coisas do que só de suas empresas, empregados, clientes, fornecedores e "ganhar dinheiro para pagar impostos exorbitantes", provavelmente elas estariam fazendo alguma coisa pelo bem público. Afinal de contas, quem tem iniciativa não consegue ficar muito tempo quieto em um canto. O "bicho-carpinteiro" coça e a pessoa já acha alguma coisa o que fazer - nem que seja capinar a estrada de chão na frente de casa...

2 - Aliás, as pessoas da iniciativa privada são tão incrivelmente fodonas que, quando notam que os "desocupados sem iniciativa que ganharam um emprego para ajudar as pessoas com iniciativa" não estão fazendo o serviço (fácil) corretamente, eles próprios encontram tempo para se envolver com os serviços públicos!
Essa inversão é a mais delicada que existe. Porque o pessoal da iniciativa privada sabe fazer ou sabe quem faz. E têm o ímpeto de fazer as coisas. Só que, infelizmente, são seres humanos. E, em um mundo superpopulado, onde o capitalismo recebe um turbo do consumismo, é complicado manter-se imparcial. Donos de grandes empresas se transformam em políticos e - incorretamente, embora compreensivelmente - acabam usando o dinheiro da "vaquinha" para beneficiarem direta ou indiretamente às suas próprias iniciativas privadas.

Situação mais do que delicada. Situação completamente complicada.

Mesmo porque eu defendo a democracia. Acho que qualquer um tem o dever de se envolver com o bem maior. Com a coletividade. Mas, quando a pessoa ganha o dever de cuidar dos outros, é complicado explicar para ela que o dever não é poder.
E, do mesmo modo, não há como proibir que pessoas da iniciativa privada tornem-se, também, servidores públicos. Mesmo sabendo que a confusão de interesses acontecerá e esta pessoa não conseguirá separar as necessidades de todos das suas próprias necessidades.

São condições humanas demais para exigirmos que os servidores públicos suprimam ou não as possuam.
Ao mesmo tempo, agir com justiça, imparcialidade, idoneidade e honestidade são pré-requisitos básicos - o mínimo esperado - para que alguém possa desempenhar uma função para todos os demais.

E em um país onde a "militância em causa própria", o "neo-coitadismo" e a "ditadura do politicamente-correto" imperam, é mais utópico, ainda, que apareça alguém realmente capacitado para cuidar do bem maior.
1 - Nosso cérebro mal consegue lidar com o que acontece conosco. E olha que o que acontece conosco sempre é mais marcante do que o que acontece com os outros. Exemplo do meu prédio: UMA vez, UM ex-morador entrou no prédio com a chave que manteve depois de se mudar, para ir bater boca com uma ex-vizinha. Arrombou a porta, invadiu o apartamento da ex-vizinha, quebrou coisas... Bem, essa ÚNICA ocasião foi o suficiente para que essa vizinha torre o saco de todos, até hoje, por segurança. Trocas de chave constantes, cercas, portões, cercas elétricas, porteiro eletrônico, câmera de segurança, sistema de segurança e empresa terceirizada de segurança. Todos pagamos por tudo isso por causa da "militância em causa própria" da vizinha pirada. E esse exemplo se repete socialmente em todas as partes. Direitos das crianças, das mulheres, dos negros, dos idosos, dos homossexuais, dos índios, dos animais, dos trabalhadores, "disso", "daquilo", "daquele outro também", etc... Em lugar de um único direito para todos... Cada qual puxando o máximo possível da pouca brasa, para o seu próprio assado...
2 - E a arma mais potente que existe para que uma minoria seja assistida é o "neo-coitadismo". Ignoram-se as causas. Elas não precisam sequer serem citadas, pois já são previamente e instantaneamente desculpadas. Só vemos a consequência: alguém está em uma situação delicada. Só notamos uma ação possível: dar a essa pessoa carente o que lhe falta. É claro que uma pessoa que ganha tudo o que precisa só irá sair de sua situação momentaneamente e de modo artificial: tão logo acabem as doações, a pessoa tornará ao mesmo ponto de partida. E toda a estrutura para atender ao "neo-coitadismo" será mantida. Provavelmente empregando pessoas no processo. Sim, amigo. Para que a "ajuda" chegue ao "neo-coitado", há a necessidade de logística, transporte, burocracia, contabilidade, etc... E, mesmo que existam "empregados voluntários" na estrutura para atender aos "neo-coitados", estes são só pontas do iceberg. Pessoas enganadas, achando que estão fazendo muito e sequer notam que tem inúteis recebendo enquanto eles próprios trabalham por uma causa morta e de graça...
3 -  "Ditadura do Politicamente Correto".
Vou me ater um pouco mais nesse ponto, porque eu já andei lendo muitas pessoas que zombam do termo. Inclusive já li até a frase "Falou em 'ditadura do politicamente correto' eu já sei que é burro". por aí...

Dissecando o termo, separamos "ditadura" e "politicamente correto", para podermos explicá-lo melhor.
"Politicamente Correto", só para começar, é uma forma de mentira. De enganação. De tapeação. Essa expressão remete à situação em que alguém fala de modo bonito, geralmente usando eufemismos, algo que outrem, algum grupo, minoria ou a população em geral, não acha correto. Por exemplo, criemos a figura pública hipotética "João". João é racista. Não sabe porque, não sabe como ou quando, mas é um racista. João não gosta de negros e, habitualmente, refere-se a negros como "Negos". Sua expressão favorita é "neguinho safado tem que morrer". Resumindo, João é um babaca. Idiota da pior espécie. Mas, como é figura pública, João não pode falar aos quatro ventos sua opinião quando aos negros. Porque o senso comum brasileiro segue o bom senso e criminaliza os racistas. Então, para não perder sua popularidade, João MENTE que não gosta de negros. João não fala "negos" em público. Quando precisa citar negros, João utiliza o tempo "afro-descendentes", de modo extremamente respeitoso. Assim, João agiu de forma "Politicamente Correta".
"Ditadura" é quando algo ou alguém te obriga a tomar atitudes, mesmo que essas atitudes não sejam as que você acredita que sejam as corretas. Nós, brasileiros, sabemos muito bem o que uma ditadura, visto que os militares a implementaram muito bem em nosso país. Até toque de recolher já tivemos! Imagine só: o Estado determinar que NINGUÉM pode sair ás ruas depois de determinado horário!
Quando as pessoas que são vítimas de atitudes "politicamente corretas" identificam, militam e conquistam leis para não serem tratadas desta forma, inclusive com punições para os infratores, a "democracia" acaba por instituir uma ditadura.
Porque, sinceramente, você acredita mesmo que um racista deixará de sê-lo por força de lei? 
Bem, a ingenuidade em países como o Brasil chegou exatamente nesse nível. Nossa incapacidade de enxergar processos (início, meio e fim) é tão grande que achamos que simplesmente atacando a ponta do iceberg já conseguiremos solucionar todos os nossos problemas (lembra do "neo-coitadismo"?).

Paliativos, paliativos e mais paliativos, que se amontoam, cerceiam a liberdade das pessoas com capacidade de discernimento, oneram as pessoas que batalham para ter uma vida melhor e não resolve problema algum...

Outro dia li um texto de uma menina revoltada com a preocupação do Estado em criar faixas indicativas para televisão, livros, eventos, etc... Basicamente, ela disse que os critérios são deturpados (50 Tons de Cinza é 16+, Jogos de RPG são 18+, ou seja: sadomasoquismo e humilhação da mulher OK para adolescentes, mas livros de como matar dragões exigem discernimento de adulto? Realmente, quase não vemos mais dragões por aí, mesmo. É bom não ensinarmos nossas crianças a matar dragões... ¬¬ ). Eu dou um passo além: Porque isso existe? Ora bolas, os pais não são capazes de controlar seus filhos? Onde está a porra do poder pátrio? Saber o que os filhos assistem na TV, que livros as crianças leem, com quem andam, aonde vão, o que acessam na internet... Parece que nada disso é controlado pelos pais! Então, ao invés do Estado criar cidadãos mais conscientes, capazes de pensar por si próprios, forçamos regras para mudarmos o que as pessoas são, na base da coação da força de lei!

Isso, amigo, é ridículo. Toda censura é uma prisão. Mas esse tipo de censura que estão fazendo - sistematicamente, como em um processo - com o povo brasileiro é hedionda. Manipulam a massa para que não gostem de matemática, desvalorizam a categoria do professor para que os bons profissionais se evadam do sistema e, assim, geram uma massa dócil de manobra. Uma massa que, enquanto tiverem funk, pagode, sexo, novela e algum dinheiro para comprar as porcarias da moda, estarão felizes e farão tudo o que os desocupados sem iniciativa que ganharam um emprego para ajudar as pessoas com iniciativa" querem, para se manterem no "poder".

E, pior: essa massa de manobra dócil é tão idiota que realimenta e defende esse processo. Cada um de nós se encaixa em alguma minoria. E somos levados a reclamar separados, cada qual defendendo só a sua minoria. Estratégia básica de "dividir para conquistar". Os servidores públicos nos dividem em minorias - para sermos menos representativos - e, quando alguém nota o que estão fazendo e avisa, parece que está "dando contra". Aí, esse processo faz com que nós briguemos entre nós mesmos, ao invés de brigarmos com quem deveríamos enfrentar: os políticos...

É uma forma tão elaborada de garantir que as pessoas não tenham liberdade real de expressão, que eu chego a sentir nojo de dizer que faço parte desse povo.

A historinha termina sem um desfecho digno. Desculpem. Minha fábula não foi feita para ter um final. O final dela é ela se auto-sustentar. Manter-se estável indefinidamente. 

O "viveram felizes para sempre" é reservado para poucas pessoas. E você e eu não fazemos parte desse pequeno grupo.