domingo, 6 de abril de 2014

Florianópolis: Impressões dos três primeiros meses morando aqui.

É amigo. Olha como o tempo voa, né? Parece que foi ontem que eu estava em Novo Hamburgo, reclamando de tudo o que acontecia naquela cidade. Quando tu menos nota estou eu, aqui, escrevendo sobre Florianópolis, a capital catarinense.

Bem, faço questão absoluta de começar falando coisas boas dessa cidade. Esse é um PUTA LUGAR MARAVILHOSO. Florianópolis certamente está no mesmo patamar dos Alpes Suíços, da Riviera Francesa, dos montes nevados norte-americanos, das ilhas do Caribe, da Nova Zelândia e de muito poucos outros lugares no mundo que eu não fui capaz de citar por causa da minha péssima memória.

É, realmente, um pedacinho de terra abençoado, perdido no mar.

É o tipo do lugar que você NÃO TEM COMO ficar muito tempo estressado, com raiva ou com mau humor. Porque, para aonde quer que você olhe, há alguma paisagem exuberante. Uma pequena pintura de algum mestre da arte, pronta para fazer com que teus olhos descansem e que você se esqueça de todo o mal do mundo.

Eu acredito que não preciso falar o quanto as praias daqui são PERFEITAS, né? 
Gostas de mar calmo e límpido? Vá para as praias voltadas para o continente ou para o norte. Desde a praia dos Ingleses até o costão sul... São quilômetros de praias encantadoras. 
Gostas de surf e de mar mais desafiador? As praias voltadas para o oceano são fantásticas. 

E não me venha dizer que o tempo anestesia a pessoa, fazendo com que alguém que more aqui há muito tempo "se acostuma" com isso tudo. Não há ser vivente nesse mundo que deixe de se sentir "recarregado" constantemente pela beleza desse lugar. Não há.

Ainda como ponto positivo desse lugar, posso dizer que Florianópolis é uma cidade "artificial". Sim. A imensa maioria das pessoas que aqui vivem não nasceram aqui. Empresas "importam" muita gente para a capital catarinenses. As faculdades atraem pessoas do Brasil e do mundo inteiro para cá. E, por fim, o turismo faz com que forasteiros se apaixonem e até resolvam fixar residência, aqui.
Por isso tudo, Florianópolis é um verdadeiro caldeirão cultural. Aqui você esbarra com todos os sotaques que pode imaginar em uma praia, em um shopping ou até no meio da rua.
E essa sopa cultural é interessantíssima. Para quem tem a sensibilidade de notá-la e estudá-la, é uma oportunidade única para aprender e crescer enquanto ser humano.

Isso faz com que Florianópolis seja uma terra de oportunidades. Sim, para quem está disposto a arregaçar as mangas e fazer alguma coisa acontecer, Florianópolis talvez seja um dos melhores lugares do mundo. (Tá bom. Floripa faz parte do Brasil e o Brasil odeia empreendedores. Mas, mesmo assim, você entendeu o que eu quis dizer...)
Nessa confusão de oportunidades, Florianópolis se beneficia com inúmeras coisa para serem feitas. Floripa já nos brinda com praias, lagoa, trilhas, pequenas outras ilhas em sua volta e toda uma variedade de roteiros naturais. Esses recursos todos também incentivam uma indústria da pesca gigantesca. E todo esse pescado impulsiona uma indústria de alimentação maior ainda. Há restaurantes simplesmente brilhantes, aqui. Iguarias com qualidade para fazer frente aos pratos mais badalados internacionalmente.

Não. Nada disso é barato. Mas se colocarmos em perspectiva o preço das coisas aqui e em outros lugares e compararmos a QUALIDADE, também... Floripa tem comidas extremamente baratas para a experiência que é vendida. 
Olha, eu ODEIO o sabor de frutos do mar. Mas, aqui em Florianópolis, qualquer restaurante oferece peixes que até eu acho surpreendentemente deliciosos...
Aqui existem cervejarias artesanais simplesmente inacreditáveis. E, em conjunto com as belas vistas, até os estabelecimentos mais simples apresentam um ambiente sofisticadíssimo.

Sério. No último mês a minha fatura do cartão de crédito mostrou exatamente o que é Florianópolis. Preços que você pensaria duas vezes em pagar na sua cidade, porque não sabe se será legal ir no lugar ou simplesmente não tem outra opção. Mas aqui você paga e só leva boas recordações. Tão boas recordações, que você olha a fatura e, ao invés de ficar chateado que gastou AQUELE valor, tu abre um sorriso e pensa quando voltará naquele lugar... Então tu olha novamente a tua fatura e vê que a listinha de lugares que tu passou é enorme. E tu não se sente arrependido de ter ido em nenhum daqueles lugares. Muito pelo contrário: a tua tristeza é de não poder ir a todos os lugares, todos os dias.

MAS...

Florianópolis tem pontos ruins, também.

Eu disse que os preços valiam a pena? Claro que valem. Mas eles valem pelas experiências, pelo custo-benefício. No dia-a-dia, Florianópolis tem uma coisa que o pessoal apelidou carinhosamente de "pedágio da ponte". Aqui, todos os produtos de todos os estabelecimentos, são ligeiramente mais caros do que no resto DO MUNDO. Tudo é um pouco mais caro que o normal, aqui. Nada que você faça você sair promovendo quebra-quebra por aí. Mas, no final das contas, você fica meio chateado de pagar quase vinte centavos a mais em um sabonete, do que pagaria em qualquer outro lugar.

Outra coisa que Florianópolis peca (e muito) é a falta de infra-estrutura. E eu estou falando no geral, mesmo. Um lugar que preza tanto a natureza não tem lixeiras o suficiente na cidade, por exemplo. Quer dizer... Você até encontra lixeiras "aonde o padre passa", "para inglês ver". Mas elas não estão distribuídas por toda cidade de modo satisfatório.

Mas antes fosse a falta de míseras lixeiras o maior problema de infra-estrutura desse lugar. Florianópolis têm um problema sério de planejamento urbano. Especialmente no que tange VIAS PÚBLICAS.

Explico. 

Tempo é dinheiro. Ninguém gosta de perder sua vida e seu dinheiro trancado em trânsito. A locomoção do ponto A até o ponto B deveria ser feita, via de regra, do modo que tomasse menos tempo e menos recursos.
Por isso as cidades ditas inteligentes são projetadas de modo que suas vias públicas forneçam mais de um acesso para um mesmo lugar. De preferência, construindo ruas com diversas pistas e que cada pista seja larga o suficiente para manterem os carros a distâncias seguras, uns dos outros. Portanto, diversas avenidas paralelas, todas conectadas por ruas perpendiculares, seria o ideal.
Quem jogou SimCity sabe bem do que eu estou falando. Algo como a imagem do lado é o ideal.

Só que Florianópolis... Ah! Bela Florianópolis... Quem "projetou" as principais avenidas dessa cidade certamente era uma mula. Sim. O animal, mesmo. Fico imaginando pequenos comboios de mulas passando pelos caminhos mais óbvios (não os mais fáceis, apenas os mais óbvios), para chegarem ao seu destino. Aí o caminho virou uma trilha. A trilha foi alargada para que passassem carros de bois. Então os caminhos foram calçados para que passassem as primeiras carroças e charretes... Até que chegaram os carros e o asfalto.
E, se as mulas criaram os caminhos, desde então mulas devem estar administrando a situação das vias públicas desta cidade.
Aonde quer que você vá, só há um único caminho para ser tomado. Quer dizer. Minto. Em uns três ou quatro lugares você tem opções. Mas de modo geral, só há uma única avenida para chegar aonde você quer ir. Um único caminho para chegar nas praias do norte. Um único caminho para a barra da lagoa. Para a própria lagoa. Para o sul... Você nota essa tendência logo que chega na cidade: Só há uma única ponte... Uma única ligação terrestre que te mova para dentro ou para fora de Florianópolis!

(Manezinhos, POR FAVOR, parem com essa BOBAGEM de dizer que Florianópolis têm três pontes, ok? Uma está CONDENADA e mal serve de ponto turístico. As outras duas configuram uma única ponte. Simplesmente PAREM DE ACHAR QUE SÃO DUAS. Obrigado.)

Eu não entendo porque não existem mais pontes entre a ilha e o continente. Principalmente uma no norte, ligando a praia Daniela a Governador Celso Ramos e outra ligando o sul da ilha com a praia da Pinheira.

ENFIM.

Dessas avenidas únicas e estreitas saem ruas que, em 90% dos casos, são mais estreitas ainda, não possuem calçadas e, pasmem, são BECOS! Becos que acabam, geralmente, no alto de algum morro.

Morros... É tão legal olhar para eles de longe... Verdinhos, com no máximo meia dúzia de construções...
Mas, na verdade, esses morros são antros criadores de insetos. Principalmente mosquitos. ÊTA LUGAR DA PORRA PARA TER MOSQUITOS!

Florianópolis poderia ter menos estradas subindo morros (como a que leva para a lagoa, por exemplo) e mais TÚNEIS (como o que abre caminho por sob um morro, entre o centro e a zona sul da cidade...

E deixemos registrado que o trânsito de Florianópolis não é caótico só por conta da péssima malha viária. Os motoristas daqui são brasileiros. E brasileiro não dirige; põe o carro em movimento. Aqui é comum todo tipo de infração de trânsito. Das pequenas até as mais graves. Dirigir usando celular? Ironicamente mais frequente do que carros estacionados em calçadas!
Contramão? Você não tem noção da quantidade de forasteiros que se perdem por aqui... Ainda mais no verão!

E não pense que o transporte público é uma solução... Há três tipos de ônibus: Os azuis são péssimos, os verdes são ruins e os amarelos não são bons. Táxi? Não sei porque são tão caros! Nunca há um único táxi disponível, em qualquer lugar! É comum você ESPERAR por táxis na rodoviária, em shoppings e até no aeroporto! Sem falar que taxista reclama se a corrida é curta! Vá entender...
Metrô? HAHAHAHAHAHA! ESQUECE!
Transporte Marítimo? Só a passeio! E olhe lá!

Essa precaridade toda gera a sensação que não cabe mais ninguém em Florianópolis. O trânsito pára por qualquer coisinha e engarrafa a cidade inteira. Nos horários de pico há uma movimentação intensa entre o continente e a ilha, fazendo com que pessoas percam de quatro a oito horas de seus dias dentro de veículos. Ridículo.

Mas, na verdade, Florianópolis é sub-povoada. O terreno da Ilha é macio demais. Não é qualquer lugar que comporta a construção de um edifício muito alto. Aliás, a maioria das construções ainda são pequenas casas, pela ilha inteira. Prédios, mesmo, só nos lugares mais badalados, como o centro, próximo da faculdade e perto das melhores praias...

Eu ainda não tenho tempo suficiente aqui para tecer comentários a respeito dos políticos daqui. Mas já sei que eles querem dividir a Florianópolis continental da Florianópolis insular. Só não o fizeram, ainda, porque o Brasil proibiu a criação de novas cidades desde 1996. Também já notei que o pessoal aqui utiliza demais a "desculpa IBAMA" para não fazer as coisas que precisam ser feitas... Mas quando a obra beneficia alguma empresa da região (as amiguinhas dos políticos eleitos, provavelmente), as coisas são feitas do dia para a noite.

Enfim. A impressão inicial é que, assim como em todos os demais lugares do Brasil, Florianópolis não vai para frente por causa dos seus políticos. Mas aguardo mais evidências para deixar a cautela de lado e dizer isso com certeza.

A sensação até o momento é que Florianópolis não é uma capital de um estado mas, sim, uma cidade do interior, bem desenvolvida. Daqui em diante vou tentar falar mais da cidade. Vai que eu só vi a ponta do iceberg... ou entendi tudo errado, mesmo?

EDITADO:

Que tal conferir o texto das minhas impressões sobre Florianópolis depois de um ano morando aqui?

http://www.pontofinal.blog.br/2015/02/florianopolis-um-ano-morando-na-ilha.html

E, na sequência, o meu texto das minhas impressões depois de dois anos morando em Floripa?

http://www.pontofinal.blog.br/2016/03/florianopolis-dois-anos-morando-na-ilha.html

Obrigado pela visita!