segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo batendo à minha porta

Faz tempo que eu não escrevo nada por aqui, né amigo? Acho que eu já estava te devendo algumas palavras minhas.
Eu deveria ter falado do ano de 2014. Sempre escrevo para ti tudo o que de mais importante eu vi em cada ano. Faço um resumo da minha vida em cada ano. Que é para que você e eu podermos lembrar de tudo o que aconteceu de bom e de ruim. É bom ficar registrado em algum lugar, sabe? Sempre é interessante revisitar históricos.

Mas há vários motivos que me impedem de escrever mais seguidamente aqui, sabe amigo?
Primeiro que esse blog chamou a atenção de algumas pessoas. E eu fui convidado para fazer pesquisas, revisar fontes, auxiliar com temas e até ser ghostWriter de outros blogs. Sou proibido de falar até o nome dos blogs e o meu nome não aparece... Mas o dinheiro no final do mês na conta é bom.
Segundo que eu estou tocando meus livros. Um deles já está todo na editora, acredita? Só esperando a hora dele ir para a prensa, para a publicação, etc... Enquanto isso, eu toco os outros quatro. A máquina não pode parar, entende?
Também tenho tirado um tempo para mim. Estudar, me exercitar e... poxa vida! Estou morando em Florianópolis! Um ano aqui e eu ainda não visitei tudo o que tinha que visitar! Não fui em todas as festas que tinha que ir... Nossa, que lugar maravilhoso!
E, por fim, quem diz que eu não cuido do Ponto Final? Não é mais o ritmo frenético de 2012... Mas as postagens estão aí. Toda vez que algum tema me toca, eu separo um tempo, sento a bunda na frente do PC e publico alguma coisa.

Dessa vez foi o atentado extremista ao jornal satírico Charlie Hebdo.

Não. Espere. Não foi só o atentado ao pasquim. 
Pessoas morrem todos os dias. Pessoas são atacadas pelo que pensam todos os dias. Pessoas tentam impôr sua visão de mundo usando o terror, a força bruta, a força econômica, a força política... utilizando o terror, todos os dias. 
A morte desses cartunistas não é motivo para eu escrever aqui.
A afronta à liberdade de expressão não é motivo para eu escrever aqui.

Não.

O que está me motivando escrever aqui é o fato de muitas pessoas estarem RELATIVIZANDO o atentado. Muitas pessoas estão escrevendo verdadeiros tratados contra a evolução do pensamento humano, defendendo que os cartunistas de Charlie Hebdo "provocaram" os extremistas islâmicos.
Que nós, seres humanos incluídos na cultura da civilização ocidental, cujo pensamento é o mais evoluído de todas as culturas conhecidas e documentadas que já existiram na face da Terra... Nós estamos errados e temos que entender o estado islâmico!

Pior: esses textos estão aparecendo nas minhas redes sociais por todos os lados. De gente que eu jamais pensaria que os passaria à frente.
Muito pior: várias dessas pessoas - do alto do gozo do seu direito de se expressar livremente - já me disseram que eu "não tenho o direito" de argumentar contra quem quer que esteja relativizando o atentando.

Hoje pela manhã, inclusive, uma dessas pessoas me chamou em inbox e disse com todas as letras que me proibia de responder ou citar a ela em debates.

Você me conhece. Eu não tenho o menor respeito com qualquer ideia que seja posta em debate. Nem as suas, muito menos as minhas. Estou aqui escrevendo o meu texto a favor da liberdade de expressão hoje. Mas, se você entrar em contato comigo e me der bons argumentos para ir contra a liberdade de expressão, eu mudo de ideia no exato momento que notar que sua argumentação é melhor do que a minha.
Mas você me conhece muito melhor: enquanto eu não tenho respeito por ideias, eu tenho todo o respeito do mundo pela pessoa com quem estou debatendo. Mantida a educação, eu debato por horas a fio, tomando cerveja e rindo com qualquer pessoa do mundo. Baixou o nível, fez ataque direto, meteu a mãe no meio ou a mão na cara, aí eu desconheço o cidadão enquanto pessoa racional.

Vamos à uma recontextualização histórica. Por qual motivo a liberdade (dentre elas a de expressão) é importante?

Amigos, brasileiro estuda muito Marx e Revolução Comunista e muito pouco Voltaire e a Revolução Francesa. E isso é uma pena. Porque, a partir da visão histórica, se a Revolução Francesa tiver um peso 10 (entre 0 e 10), a Revolução Comunista tem um peso próximo a... "-37 e meio" (ainda de zero a dez).

Por muito tempo a nossa civilização esteve entregue às trevas da falta de conhecimento. Da burrice. Da crendice insustentável. Da falta de perspectivas de um amanhã melhor. Entregue à morte pela falta de conhecimento dos tratamentos de doenças medíocres como febres, tétano e sarampo.

E tudo isso porque? 
Porque os reis e os religiosos insistiam em escravizar o povo. Mas não uma escravidão com algemas de ferro atadas às mãos e aos pés. Não uma escravidão física, com cabrestos e chicotes.
A escravidão era mental. Emocional. Psicológica. Esses reis, rainhas, condes, barões, papas, cardeais, bispos e clérigos em geral doutrinavam as cabeças das pessoas com ideias que só garantiam a sua perpetuação no poder.

Entenda, amigo: até os anos 1600~1700, você era ensinado para saber desde sempre que o barão era poderoso porque havia nascido barão. Não importa se o barão era burro, tinha maus hábitos, era mal educado, não tinha dinheiro, não sabia gerir suas terras... Ele era o barão e isso bastava para que você devesse a ele uma parte do que você produzia, a título de IMPOSTO.
E o pior de tudo: você aceitava isso. Mesmo porque, quem não aceitasse era enforcado/queimado/guilhotinado/afogado... executado em público. Com evento, pompa e feriado. Isso tudo só para você servir de exemplo para os outros.

Era uma forma de terrorismo. Ou você aceitava o que os poderosos ditavam, ou você morria.

E era um poder tão fraco, tão tênue, que o próprio povo não notava que estava em maior número. Maior número que os poderosos. Maior número do que os exércitos e guardas dos poderosos.

Éramos como ratos em uma gaiola. Enquanto tivéssemos comida para enchermos a barriga e algum prazer nessa vida, suportava-se tudo. Todas as mazelas possíveis e imagináveis.

Sempre existiram pessoas que desafiavam os poderosos e estudavam as coisas por si. Mas eram poucos. Controláveis. E, em último caso, eram executados. Bastava que a mulher pesasse o mesmo que um pato e todos gritavam "Bruxa!" e a matavam.
Quem aqui não conhece as histórias conturbadas entre o clero e Galileu? Até Newton teve problemas com a igreja...

Mas o tempo passou e o número de pessoas com um pouco mais de conhecimento aumentou. Tanto que houve a revolta iluminista. As pessoas exigindo que a igreja parasse de se meter nos assuntos da ciência. Não foi a toa que houve um "boom" de conhecimento de 1700 para cá. E, é claro, um "boom" de qualidade de vida e de quantidade de pessoas no mundo.

Por milênios a fio não conseguimos passar de 3 bilhões de pessoas porque não tínhamos TECNOLOGIA para alimentar e manter vivo mais do que essa quantidade de pessoas. Então, em três séculos, nosso número pulou para 7 bilhões. E a previsão é que alcemos o final do quarto século em torno de 10 bilhões de pessoas nesse nosso mundinho.
Agradeça à ciência.

Só que a ciência exata sozinha não fez esse milagre. Foi necessário que houvesse um avanço nas ciências políticas e econômicas.
As pessoas produziam mais, mas a estrutura de "eu sou nobre desde que nasci até a minha morte, por isso você me deve tributos, camponês" persistia. E quanto mais os camponeses produziam, mais eles ficavam ricos. E quanto mais ricos os camponeses ficavam, mais eles utilizavam a ciência para manufaturar seus produtos básicos. E quanto mais as industrias se expandiam, mais o comércio crescia.
E as indústrias e o comércio se fixaram em torno dos castelos dos nobres. Formaram-se os BURGOS. Cidades antigas, sabe?

Logo, muitas pessoas dos burgos tinham mais dinheiro do que o próprio nobre no castelo! Esses burgueses - gente da gente, gente com iniciativa de melhorar a sua vida e dos outros ao vender-lhes produtos mais refinados - eram sobretaxados. Trabalhavam muito e usufruíam pouco.

Os IMPOSTOS do rei tirava muito da riqueza dos burgueses.
E foi na França que ocorreu o cisma. O povo trabalhava tanto e era tão taxado, que não tinham dinheiro sequer para o pão, para seu fumo, para as coisas básicas que qualquer ser humano precisa para viver.
Os nobres, por sua vez, nadavam em rios de dinheiro oriundos dos impostos. Esbanjavam afrontosamente. O conjunto de leis do estado era muito injusta. Pessoas eram presas por bobagens. Você já deve ter assistido "Os Miseráveis". Apesar de não ter bunda, explosões nem efeitos especiais, é um filme obrigatório.
Bem, quando a rainha proferiu a famosa frase: "o povo não tem pão para comer? Que comam brioches!", houve a revolta popular. A famosa QUEDA DA BASTILHA. 

E a nossa civilização ocidental deu o maior salto cultural que nenhuma outra população humana conseguiu fazer.

(Adendo: As ideias iluministas cultivaram a revolta por décadas. Os franceses esperaram para ver se a "experiência Estados Unidos" de democracia por eleição daria certo. A Revolução Francesa só aconteceu depois que houve a certeza de que seria possível instituir um governo do povo.)

Bem. As cabeças dos nobres rolaram em praças públicas, guilhotina abaixo.

O povo pôde decidir suas leis. Colocar no papel tudo o que achavam justo. E, pela primeira vez na história, decretaram a liberdade de todas as pessoas.

A Revolução Francesa, amigo, foi a revolução da iluminação da ciência. Da lei superior de que todo cidadão é igual e é livre em fraternidade.
Nasceram nesse momento muitas máximas que temos como comuns, certas e garantidas até hoje:
A máxima de que você tem direito à sua vida. 
Que você tem direito à sua propriedade. 
Que a sua posição na sociedade é ditada de acordo com o seu esforço pessoal. 
Que você é igual em proporção a todas as outras pessoas desse mundo.
Que você tem o direito de fazer o que quiser com a sua vida, contanto que não prejudique a vida dos outros.
Entre tantas outras máximas. Pesquise-as. É um conhecimento pra lá de valioso.

A Revolução Francesa desvencilhou a religião do estado de vez. Agora, você é livre para acreditar em quem você quiser. Do Deus judaico-cristão, em Buda, Krishna ou até no monstro de espaguete voador ou no Super-Homem... ou em nenhum deles. O problema é seu. Como disse George Carlim: "Escolha um amigo imaginário qualquer e faça pedidos a ele!"

Mas... Nossa cultura ocidental foi a única que conseguiu dar esse salto de evolução.

Aliás, vou além. Eu já disse aqui, antes: cada pessoa nesse mundo está em um momento da história diferente.
Sempre existiram os que estão à frente de seu tempo;
Os contemporâneos...
E existem pessoas que ainda vivem com o pensamento do pós-guerra, da segunda guerra mundial, da revolução iluminista, do período metalista, do período medieval... Olhe bem para as tribos indígenas! Alguns seres humanos ainda vivem na idade da pedra!Na África há quem não tenha chego à idade do bronze, ainda!

Eu fico triste quando penso nesses seres humanos vivendo em situação mental tão precária, enquanto eles são pensamentos abstratos na minha mente. "Um índio lá no meio da floresta" ou "uma pessoa lá no meio da áfrica".
Mas quando eu noto que alguém do meu lado... que eu conheço... com quem eu convivi ou convivo por algum tempo... defende pensamentos atrasados. Ou pior: tenta os impor para cima de mim... Amigo, meu sangue ferve de revolta.

(Note que eu não falei que nossa cultura é "a ideal"; Apenas é a melhor cultura que o ser humano já conseguiu produzir. Temos muito o que melhorar, ainda.)

Esse é o exato ponto do ataque ao pasquim Charlie Hebdo. Foi um ataque de uma CULTURA MAIS ATRASADA à nossa cultura. Um grupo de pessoas que ainda vivem na idade média, tentando impor seu pensamento retrógrado à NOSSA CULTURA MAIS AVANÇADA.
Esses extremistas não respeitaram a soberania, as fronteiras, as leis, as culturas e o direito à vida de cidadãos da nossa cultura. 

Esses extremistas estão mandando um recado para você e para mim: nós não temos o direito de pensar e de falar o que pensamos. Sob pena de morte.

E o que temos visto por aqui?
Pessoas relativizando. 

"Os chargistas não tinham que provocar os islâmicos!"
"Eles sabiam no que estavam se metendo. Pediram por isso!"

Estão, inconscientemente, validando argumentos absurdos como:

"Mulher, você saiu de saia curta na rua, pediu para ser estuprada!"
"Filho, você usou óculos na escola, pediu para o valentão bater em você!"

E o que doeu foi ter falado com alguns amigos sobre o caso. Amigos que citaram essas relativizações. Amigos para quem eu fui levar um pouco de coerência. "Cara, desculpe dizer, mas não é assim que a banda toca..." Amigos que chegaram ao extremo cúmulo de defender extremistas religiosos que se usam do terrorismo para impor suas ideias. Amigos que me mandaram calar a boca. Amigos que me disseram que eu não tinha o direito de escrever em suas publicações. De contrariá-los. De expor a minha opinião.

Amigos que tentaram me censurar.

Amigos que pensei que estivessem no mesmo momento do tempo que eu. Mas que se mostraram meros humanos da idade média.

Deveria, mas não vou citar nomes, aqui. E essa é a diferença entre esses meus amigos oriundos da idade média e eu: mesmo sabendo que eles são culturalmente inferiores, eu os reconheço como cidadãos iguais, livres e fraternos a mim. Eu reconheço os direitos deles, mesmo eles não reconhecendo os meus direitos.

Dada a quantidade de pessoas que morreram para que você e eu tivéssemos liberdades, direitos e mobilidade social, eu me assusto quando vejo OCIDENTAIS batalhando para que nossas liberdades seja REVISTAS em prol de pensamentos CULTURALMENTE ATRASADOS!

Eu tenho medo cada vez que vejo alguém tentando retirar do povo qualquer um dos pilares do tripé de igualdade, liberdade e fraternidade.
Por isso eu temo tanto o comunismo. Em nome de uma suposta "igualdade", o comunista sacrifica a liberdade dos indivíduos.
Assim como eu abomino o conservadorismo que quer, em resumo, o retorno dos dias em que o rei mandava e desmandava, enquanto nosso suor e cabeças rolavam do pescoço até nossos pés.

A única saída é a liberdade. É deixar que os Charlies Hebdos da vida falem o que quiserem. É sabermos dar risada e ignorarmos o que não pode nos atingir. Como eu faço com as piadas de gaúcho gay, por exemplo... (Não é uma piada sua que vai fazer eu gostar de homens. Então porque não aproveitar a piada e rir?)
E se a livre expressão do outro nos atingir, que saibamos respeitar a liberdade e os direitos do outro e 
reivindicarmos nosso direito e liberdade. Existem leis sobre calúnia, difamação e direito de resposta. Existem tribunais para determinar se você foi realmente ferido moralmente pela outra pessoa. E, caso o Charlie Hebdo da vida realmente tenha ultrapassado os limites entre os direitos dele e os seus, você será indenizado por isso.

Simples. Justo.

Eu? 
Não sou perfeito, não sou tão evoluído. Eu ainda não sou capaz de ficar perto de pessoas que me fazem mal. Pessoas que me puxam para trás. Eu não sou tão bom em perdoar os outros, assim. Gostaria de ser, mas não sou. Infelizmente esses amigos que me atacaram, tentando retirar o meu direito de me expressar, ficaram para trás.

Eu não tenho medo de vocês, terroristas. 
Seja o terrorista do Oriente Médio, do lado da minha casa ou da prainha no final do mundo.
Foda-se Maomé Bichona.
Foda-se Jesus Cristo Bichona.
Foda-se comunista de merda.
Foda-se conservador redneck biruta.
Foda-se PTista ladrão regulador de mídia para não aparecer seus podres.
Foda-se qualquer um que queira tirar o direito dos outros.

Eu sou Charlie Hebdo.