quinta-feira, 21 de maio de 2015

A Negociação

Que eu não sou de usar telefone, vocês já sabem.
Não gosto das palavras ao vento. Odeio o "não era bem assim" que o telefone proporciona.

Mas o que talvez nenhum de vocês saiba é que eu também não gosto de negociar. Odeio colocar preço nas coisas dos outros.
Sou do tipinho ridículo de gente que paga o que o vendedor cobra pelo produto... ou fico sem.
Posso estar no meio do deserto, morrendo de sede. Se o vendedor disser que a água custa R$100,00 e eu achar que aguento até o próximo bar, eu não compro. Caso contrário, pago os R$100,00.

Mas eu nunca ponho preço nas coisas dos outros.

Quer dizer... Teve UMA coisa que eu coloquei preço. É dela que eu vim contar a história aqui, hoje.

Todos sabem eu me mudei para Floripa no início de 2014. Quando eu cheguei aqui, vi uma plaquinha de "aluga-se direto com o proprietário" em um apartamento.
Eu já havia arranjado um lugar para ficar... Mas mesmo assim eu liguei para o número do anúncio.

- Alô, aqui é o Arthur, eu estou procurando um lugar para alugar e vi o seu anúncio.
- Sim, é comigo. Você quer ver o apartamento?
- Só se o aluguel for R$700,00.
- Não. O aluguel não é R$700,00.
- OK. Obrigado.

A placa continuou lá meses a fio. Paradinha. Nada de ninguém alugar o apartamento
Seis meses passaram. Mudei de apartamento devido a brigas com a imobiliária (Evitem a Brognoli). Pensei comigo: porque não ligar para aquele anúncio, novamente?

- Alô, aqui é o Arthur, eu estou procurando um lugar para alugar e vi o seu anúncio...
- Ah! Mas o valor do aluguel é de R$1.300,00, não de R$700,00! - (A-DO-RO quando lembram de mim!)
- Ah, por R$1.300,00 eu não vou alugar o seu apartamento. Ainda mais que ninguém mais quer alugar ele. Dou R$600,00.
- R$600,00 nem pensar!
- OK. Obrigado

Bem, aluguei outro apartamento. Estou precisando me mudar para o centro, mas de toda forma estou bem no lugar aonde estou morando.
Durante todo esse tempo, o apartamento continua lá. Vazio. Com a perseverante plaquinha, que já fez pelo menos um aniversário.

Hoje eu estou voltando para casa e o celular toca. Era o dono do apartamento.

- Oi, aqui é o dono do apartamento.
- Oi! O aluguel do apartamento já está custando R$500,00?
- R$500,00??? Você não havia dito que pagaria R$700???
- Ah! R$700,00 quando falamos da primeira vez... Veja só: você perdeu quase R$12.000,00 nesse ano e meio!
- Mas o apartamento vale muito mais que isso!
- Nah, não vale não!
- Ah, vamos! Você pode pagar R$700,00 hoje...
- Poder, posso. Mas não vou. Vamos fazer assim: Quando o aluguel custar R$400,00 a gente volta a conversar.
- R$400,00???? O aluguel nunca vai custar R$400,00!!!
- Ok, então. Obrigado pela lembrança.

E desliguei o telefone.

Confesso que estou me sentindo mal por isso. A vontade é de ligar pro dono do apartamento, pedir desculpas e alugar o lugar pelos R$1.300,00. Só como pedido de desculpas pela zoeira toda.
Mas sei lá. Talvez todo esse tempo em que o apartamento está vago, somado à nossa conversa, faça o dono do apartamento refletir sobre como funciona a lei da oferta e da procura.

Eu vou esperar que ele ligue. Vai que chegamos a um acordo aonde ele me paga para ficar lá?