segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ciclo da Razão

Oi, amigos.
Eu já estava resoluto em não escrever mais no Ponto Final. Por algum truque do destino, parece que vocês gostam mais de imagens, gifs e vídeos do que dos meus textos. As estatísticas do Ponto Final me mostraram isso. E, como boa pessoa que está do lado da razão, eu acredito no que os números me dizem. Porque, né? Quando corretamente tratados, organizados e interpretados, os números não mentem.

"Ah, Arthur! Mas o papel aceita qualquer coisa!!!"

É, já escutei esta frase milhares de vezes. E, sabe, eu acho ela uma tremenda bobagem. 
Sim, o papel aceita absurdos, como os textos dúbios da bíblia. Eu posso escrever, aqui, agora, que 2 + 2 = 7. Você imprime e o papel aceita a tinta ou o grafite, sobre ele.
Só que, convenhamos, o meio de propagação do conteúdo é o de menor importância. Sejam pinturas rupestres, entalhes em rocha ou o mais sofisticado laser de projeção de imagens, o que importa é a avaliação do leitor. O senso crítico sempre deve ser aplicado sobre o conteúdo recebido. Qualquer que seja.

O papel pode te dizer que 2 + 2 = 7. Mas você tem o dever de perguntar "porque". De colocar à prova o resultado apresentado. De descobrir o mecanismo lógico que faz com que o conteúdo culmine nessa conclusão. E, se você não concordar com os argumentos que sustentam a conclusão, é seu dever propor suas próprias teorias, embasá-las com seus argumentos e concluir da melhor forma possível.

Esse processo de receber conteúdos, questioná-los, testá-los e adicionarmos nossas conclusões é o que nos tirou de mil anos de emburrecimento mundial. Onde estudar matemática era um crime, e a inquisição caçava as pessoas que conseguiam provar seus pontos de vista - contrários aos dogmas instituídos.

Mas, se olharmos bem a história do homem, não estamos vivendo a primeira época em que a razão sobrepujou a religião.

De 800dc até quase 1200dc, Bagdad era o centro artístico, cultural e científico do mundo. Todas as áreas do conhecimento humano evoluíram muito, naquela época. Nós fomos capazes de descobrir metodologias avançadas, que nos permitiram criar verdadeiras maravilhas.Bússolas, astrolábios, lunetas... Alguns avanços médicos (já faziam cesarianas nessa época!) e muitos avanços, principalmente na aritmética. O mundo foi um lugar melhor por mais de trezentos anos.

Antes disso, na Grécia antiga, os primeiros filósofos surgiram. Aristóteles, Platão... De 400ac até quase 200dc, inúmeros filósofos, atomistas e matemáticos criaram regiões de conhecimento, no mundo. Bibliotecas lendárias foram criadas. A matemática era difundida. Aliás, ainda hoje apendemos Teoremas de Pitágoras e Talles, por exemplo.

Eu relacionei dois bons vídeos em uma postagem, mostrando como a Religião Atrasou o Mundo.

Provavelmente, antes destes casos, devem ter havido outros. São mais de dez mil anos de civilização egípcia, por exemplo. Em alguns momentos esta civilização deve ter alternado momentos de profunda religião com momentos de absoluta razão. Eu acredito nisto porque existem maravilhas relatadas e visíveis destas civilização, ainda hoje. Construir pirâmides tão perfeitas não foi um exercício só de mobilização de escravos e de força bruta. Muita matemática e logística foram empregadas para colocar os três gigantescos monumentos de pé.
E me desculpem os amigos que gostam de viajar na batatinha, mas eu trabalho sempre com a explicação mais óbvia. Para mim, teorias de anjos, alienígenas ou astronautas viajantes do tempo são absurdas, por enquanto. Até que alguém me apresente uma prova cabal (não circunstancial, por favor), eu continuarei acreditando na superação do ser humano. Até já escrevi uma teoria sobre o método de construção das pirâmides. Vale a pena lê-lo, depois.

O ponto em comum em todos estes momentos da humanidade é que havíamos passado um longo período acreditando cegamente em algum dogma. Escravizados através de pensamentos - geralmente religiosos - que nos forçavam a viver de acordo com um certo conjunto de regras. Regras estas, é claro, que sempre favoreciam pajés, sacerdotes, bispos, padres, pastores e líderes religiosos quaisquer, em detrimento da exploração das pessoas que os seguiam.
Basicamente, a população era manipulada para dar todo o dinheiro possível para a igreja. E faziam isso porque a igreja tinha o domínio ideológico destas pessoas. Amedrontam os seguidores com ameaças de inferno, caso não sejam pessoas boas. E as pessoas boas sempre têm que ser subserviente aos caprichos da igreja. Não questionar.
Garantido o mecanismo de retenção, o mecanismo de multiplicação age de forma primorosa: Não existe nenhuma religião no mundo que seja "secreta". Em todas as religiões do mundo há alguma regra de que você deve "converter os infiéis" ou, simplesmente, "espalhar a palavra".
Aliás, o mecanismo Cristão é o mais inteligente de todos. Ir de dois em dois significa que nenhuma pessoa que irá converter os demais ficará sozinha. Duas pessoas centradas em um objetivo pensam e falam melhor do que uma. Quando confrontado, o pregador sempre terá um parceiro - com igual ânimo - para concordar, corroborar e dar todo o apoio necessário para convencer os outros.

Tal qual uma doença, a religião se instala e multiplica.
Só que, assim como a doença, a religião consome tanto os seus hospedeiros, que chega uma hora do que eu chamo de "Ponto de Ruptura". Uma hora o povo estará tão pobre, sofrendo tantas humilhações, com tantas regras absurdas para seguir e sendo tão acoado, que ninguém terá a menor chance de ter uma vida digna.

E quando a fome, frio, doenças e demais catástrofes não são contidos pelo ser superior, as pessoas passam a questioná-lo.
Lembra do início do texto? Então.

Quando o primeiro "porque" resiste à fúria armada, que sempre protege as religiões, a Razão tem a sua chance de surgir.

Notaram o padrão que eu tentei descrever? Creio que sim. Todos vocês, amigos, que leem o Ponto Final são ótimos entendedores. Pessoas diferenciadas, mesmo.

Eu acredito que encontrei um padrão. Sempre existem duas grandes forças agindo simultaneamente, no mundo. De um lado a Religião, de outro lado, a Razão. Em diversos casos, os dois pontos podem coexistir e até fazerem trocas interessantes. A imaginação das Religiões podem ser o ponto de partida para descobrimentos da Razão. Descobrimentos da Razão podem embasar algumas das ideias da Religião.
Mas, na maioria dos casos, a Razão e a Religião são antagônicas. Enquanto a Religião quer que você acredite sem te dar embasamentos, a Razão cobra os embasamentos e, mesmo em uma teoria completamente explicada, continua a testar tudo.

Religião é a negação do que é observado, para que a fé seja preservada.
Razão é o ajuste da fé, de acordo com o que é observado.

E, amigo, quando os fiéis fazem TUDO o que "Deus" manda e, mesmo assim, as pragas e pestes continuam a atingi-los, a fé começa a ser ajustada de acordo com o que é observado.

Então, temos uma era de fundamentalismo, onde as pessoas são manipuladas por Religiões. Então, as pessoas passam a notar que a Religião é uma cilada.
Acontece o ponto de ruptura e a Razão tem o seu momento.

Mas porque a razão falha e é sobrepujada, novamente, pela Religião?

Simples, amigo.
Primeiro porque a Razão também registra os seus avanços. Lembra que ainda estudamos Talles e Pitágoras? Então, cada vez que a humanidade se volta para a razão, nós retomamos o ponto de onde paramos. Por isso que cada época de razão é mais brilhante e, também, mais curta.

Curta?

Amigo, as pessoas são ignorantes. Eu sou ignorante. Você é ignorante. Tá certo, podemos entender bastante de muitas coisas. Mas, para cada coisa que você realmente domina, existem pelo menos um bilhão de coisas que você nem sabe que existe.
Ou você consegue desmontar e montar um carro, com perfeição?
É, talvez saiba. Faça o mesmo com um computador.
Tá, talvez você entenda de mecânica, eletrônica e computação. Ok.
Então, depois de terminar com o carro e com o PC, vá a um hospital e faça uma cirurgia cardíaca!

Complicou, né?

O que eu quero dizer é que, em pouco tempo, a Razão faz tantos avanços individuais que o conhecimento torna-se muito complexo. E a pessoa-comum, que não está habituada com o conceito sequer nota todo o esforço empregado para construir um celular moderno...
Em uma analogia simples, para um leigo, Usar um celular ou a telepatia são a mesma coisa. Comunicação instantânea à distância. O leigo não sabe como os dois são possíveis. Mas sabe que o celular funciona.

Sim, com o tempo, a Razão se auto-mistifica. Passamos a não compreender como estudar o Tales de Mileto na quinta série nos faz construir o LHC (Super Colisor de Hádrons).
Para a pessoa-comum, "acreditar" na Razão e na Religião são a mesma coisa, em determinado ponto.

E, como a Religião é excelente em oferecer explicações simples, com certa coerência e até com algum carisma, as pessoas tornam a se voltar para a Religião, pouco a pouco.
Mesmo porque a Razão - embora traga surtos de desenvolvimento e avanço - também não consegue contornar todos os problemas da pessoa-comum. Pessoas continuam com fome, morrendo de doenças (algumas até trazidas pelo novo estilo de vida instituído pela Razão) e sem compreender todos os mistérios do universo.

Então, coisas como ISSO, acontecem:


Sim, na Indonésia, estão planejando remover as aulas de matemática e ciências, para ter mais espaço na grade curricular para a religião e para o civismo. Ou seja: em um país com religião oficial (lá, se você não é Muçulmano, você está agindo contra a lei e pode ser punido por isso), estão querendo tirar a matemática e as ciências do povo, para colocar uma matéria para torná-los mais dóceis (civismo) e outra para arrebatar suas mentes de vez (religião).

Um dos comentários que eu li é que isso seria bom para o Brasil e a sociedade ocidental. Porque, em menos de vinte anos, o povo da indonésia estaria novamente em uma era medieval. E olha que, egoisticamente falando, até que acho bom. O problema é o Mimetismo Social. Logo, outros países muçulmanos irão gostar da ideia. Copiá-la. Quando menos notarmos, um terço da população mundial estará sem acesso à matemática. E oremos para que a China não embarque (mais ainda) nessa. Porque, aí, amigo... "Tamos fudidos".

Mas o pior mesmo é quando países hoje completamente separados da religião passarem a cogitar essas ideias. Nos Estados Unidos, a liberdade religiosa é tão levada a sério que malucos se matam - de quando em quando - em nome de suas doutrinas. 
E nem precisamos ir tão longe, sabe? Aqui mesmo no Brasil, já existem Escolas Ensinando o Criacionismo!!! O que, obviamente, é um absurdo, visto que o Big Bang e a Teoria da Evolução já foram exaustivamente comprovados.
Um adendo importante: Eu fico PUTO DA CARA com as pessoas que não conseguem abrir um dicionário e descobrirem a diferença entre HIPÓTESE, TEORIA E LEI.
HIPÓTESES são ideias não testadas. Todo o conceito de Deus é uma hipótese. Pessoas da Razão não jogam completamente a ideia de Deus no lixo, porque ela ainda não foi testada. Aliás, nem tem como ser testada...
TEORIAS são as hipóteses que já foram testadas e comprovadas.
Antigamente, quando os primeiros cientistas achavam que uma TEORIA fora completamente testada e comprovada, ela adquiria o status de LEI. Mas, com o tempo, vimos que é errado determinar leis, porque o conhecimento humano de amanhã pode estender a ideia, mostrando que só uma parte do conhecimento foi descoberto e confirmado. Quer um exemplo? Newton determinou a Lei da Gravidade, afirmando que os corpos celestiais atraem-se uns aos outros. E ele estava certo. Só que, depois de alguns séculos, veio Einstein e mostrou como funciona a Gravidade, de verdade. A Lei da Gravidade de Newton era só uma fração do conhecimento, que Einstein expandiu na sua Teoria Geral da Relatividade.

Entenderam como funciona? Você pode concordar ou não com uma Hipótese. Mas você só pode contrariar uma Teoria se testá-la e mostrar os seus resultados adversos. Isso é a Razão sobrepujando a Revelação.

Mas, voltando, o pior é ver notícias como esta aqui:


Nossos representantes acham que o "cuidado com os animais" (lei civil e penal, portanto abaixo da constituição) está acima da liberdade religiosa, concedida na nossa Constituição. Sabe a Constituição? Nosso conjunto de leis máximas? Então...

Em um artifício ridículo, evangélicos estão promovendo uma verdadeira cruzada contra religiões com menos seguidores (principalmente as de matriz africana). E, se você não notou ainda, esta mesma praga não está só na câmara de vereadores de Piracicaba. Esses imbecis já estão nas nossas câmaras de deputados estaduais, nacionais e no senado. Como um país laico permite que uma religião crie uma bancada em sua representação política?
Eu acho uma afronta. Como ateu, não me sinto representado nos três poderes. É como aquela história do crucifixo nos tribunais: Como eu, um ateu, vou achar que a justiça é imparcial, caso esteja resolvendo uma contenda com um padre, em um tribunal que tenha um crucifixo pendurado? Óbvio que vou achar que a justiça pende para o lado Cristão.
O mesmo vale para a estátua da justiça, em Brasília (e muitas outras cidades). Aquela imagem é de uma Deusa Grega. E se eu for à um tribunal representar contra alguém que acredite na Mitologia Grega?

Bem, eu notei esse ciclo. E estou com medo, porque estamos cada vez mais imersos nessa onda de fundamentalismo. Daqui poucas décadas, acredito que o mundo se tornará um lugar cada vez mais repleto de seguidores acéfalos. Alguma igreja irá determinar que celulares, televisão ou internet são coisas "do capeta". A tecnologia passará a ficar mais rara. Poucos bolsões de pessoas se resignarão em manter os estudos e as ciências. E nossa sociedade mergulhará, novamente, em uma era de Religião.

Espero não estar vivo para ver isso... Ou que a Razão me torne imortal, para lutar por ela e sobreviver até a sua próxima grande era.