quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Her

Então galera. Ontem eu fui ao cinema, novamente, assistir "Her".

Vou começar dizendo que fazia tempo que um filme não me pegava pelo braço, dava uns dois tapas na minha cara e dizia: olha só como eu descrevo a tua vida tão perfeitamente!

Sim, em uma triste ironia, brincando com o sarcasmo, posso dizer que o filme falou comigo. E eu me senti bem por causa disso.

O filme é parado. Monótono. Não vá assistir a esse filme com vontade de ir ao banheiro, com fome, com sono ou distraído com qualquer outra coisa. Algo próximo a 60% do filme consiste apenas em um close sobre Theodore (Joaquim Phoenix), que conversa com Samantha (Scarlett Johansson), um sistema operacional com inteligência artificial.

Mas mesmo sem nenhuma explosão ou sangue jorrando na tela, o filme é BRILHANTE.

E eu achei brilhante principalmente porque o argumento do filme conseguiu me surpreender. Ora bolas, justo eu que abro leques e mais leques de possibilidades para cada ideia... Fui surpreendido por muitos conceitos apresentados no filme. Por umas quatro vezes eu achei que o argumento tivesse se exaurido e que o filme caminharia mecanicamente até o final. E quatro vezes o filme me apresentou um conceito a mais. Uma ideia nova, derivada da ideia original.

Em determinado momento, Her pode ser comparado a um futuro (não muito distante) apocalíptico, aonde as pessoas tornam-se zumbis emocionais.

De agora em diante eu falarei abertamente sobre o filme. Mas pode ler sem ter assistido. Eu não vou conseguir te passar tudo o que o filme me passou. E será inevitável que eu não trace paralelos entre esse filme e a minha vida. Isso sem falar que eu li umas quatro resenhas detalhadas antes de ir assistir ao filme e, mesmo assim, consegui me maravilhar.

Vem comigo. Leia sem medo.

O filme é ambientado alguns anos ali na nossa frente. Celulares completamente interligados com demais aparelhos. Previsão que os Computadores Desktop não serão aposentados (tomara!!!), fones de ouvido para que o usuário possa falar com o sistema do seu celular, que o atende por comandos de voz... E eu ADOREI o layout do celular do personagem principal. Quero um daqueles para mim.

A história se desenvolve em volta do personagem Theodore. Mas eu já te desafio a usar esse personagem apenas como exemplo. Expanda tudo que acontecer com ele para todas as pessoas do mundo. Use Theodore como "a média". Pense que algumas pessoas são melhores, outras piores que ele. Assim você poderá ter o cenário completo e aterrador, proposto por esse filme.

Theodore é um homem de uns trinta ou quarenta anos. Faz mais ou menos um ano que o casamento de Theodore acabou. E, como é comum, ele está sentindo toda a depressão causada pela falta que a ex-esposa faz na vida dele.
Aquele tema que eu sempre abordo aqui no Blog, que você que me lê há anos já conhece muito bem. Nosso emocional é infantil. Nós fomos feitos para termos aquilo que nós queremos ter. Ficarmos em uma situação em que não queremos só é pior do que não termos aquilo que queremos. E a falta de responsabilidade emocional é grande demais. Os relacionamentos já nascem tortos, se desenvolvem sem sustentação adequada até o previsível final. Sofrimento demais aonde só deveria existir felicidade.

Em contrapartida com o sofrimento emocional de Theodore, o trabalho dele é algo conceitualmente fantástico. Poderia escrever uma série de textos só com a ideia do trabalho que Theodore desenvolve. Ele escreve cartas para outras pessoas. Não, ele não escreve para que outras pessoas leiam; nosso personagem principal é contratado para escrever cartas POR uma outra pessoa. Para que essa outra pessoa envie para os seus conhecidos...
Em um mundo aonde a praticidade e os números estão tão valorizados, a emoção é posta de lado o tempo inteiro. A frieza e a exatidão são reverenciados até o ponto em que usamos e descartamos pessoas como se fosse um cigarro acendido para ser desprezado após apenas duas tragadas. A praticidade chega a níveis tão absurdos, que as pessoas que têm jeito com as emoções passaram a ser valorizadas. "Eu não consigo expressar o quanto eu amo outra pessoa... Pago para alguém que consiga colocar em palavras todo o meu sentimento..." Esse é o conceito do trabalho de Theodore. Mais ou menos o que as pessoas sentiram quando os primeiros romances passaram a ser impressos, publicados e distribuídos em massa, poucos séculos atrás.

Esse é o primeiro ponto a ser notado no filme. O contraste entre a dor pessoal e a habilidade profissional em fazer os outros se sentirem bem. Theodore é um vendedor de sentimentos, de bem-estar. Ele possui "contas assíduas" na empresa aonde trabalha. Sim, empresa. Porque, além de Theodore, existem dezenas de colegas dele ditando cartas personalizadas e altamente emotivas e muito lindas, para que outras pessoas as enviem para os seus queridos.

Theodore é um vendedor de conforto emocional para as pessoas, mesmo ele próprio não tendo esse conforto emocional.

O filme faz questão de mostrar que Theodore tem amigos. Um casal como vizinhos, amigos que o convidam para happy hours e até alguns que arranjam encontros às cegas para Theodore.

Bem, mas Theodore está deprimido. E, se você não sabe como é estar deprimido eu vou te contar: imagine uma tristeza tão profunda tomando conta de você, que mesmo tendo todos os motivos racionais do mundo para fazer alguma coisa, você não consegue reunir empolgação suficiente para fazer algo. Mesmo SABENDO que você GOSTA de fazer certas coisas e TENDO MOTIVOS para fazê-las, você não QUER fazê-las. Então, você se frustra mais ainda por não conseguir fazer as coisas que você gosta. E essa frustração se une à tristeza, te deixando mais para baixo ainda. E esse sentimento ruim todo te faz se isolar, parar de fazer mais coisas ainda, em um ciclo infinito.

Notamos isso quando Theodore acessa uma sala de bate-papo no meio da madrugada para conversar com alguém. Os tipos de mulheres que ele encontra são... assustadores. E quando ele encontra a primeira que parece ser normal, a conversa evolui para sexo por telefone em menos de dois minutos! E sexo pra lá de esquisito, inclusive. Bizarra utilização de pessoas para auto-satisfação. Bengalas emocionais.

Eu resolvi a minha depressão me forçando a fazer coisas, mesmo sem a menor vontade de fazê-las. Mesmo que elas não fizessem sentido. O filme "Sim, senhor", tá ligado? Pra mim funcionou. Não é receita de bolo e pode não funcionar em muitos casos.

E o caso do Theodore não foi solucionado assim.

Theodore comprou uma novidade tecnológica: um sistema operacional com inteligência artificial. Algumas perguntas aparentemente bobas na instalação e configuração do sistema em seu computador. Uma pergunta que remete a Freud (ODEIO pensadores alemães...) e o software estava instalado.

Nos primeiros quinze segundos, Theodore usa o software como se ele fosse um programa comum. Mas logo nota o quanto esse programa é diferente dos demais. A inteligência artificial intuitiva (interpretada perfeitamente por Scarlett Johansson) logo forma uma amizade com Theodore. Na primeira cena, o programa mostra todo o seu poder, quando Theodore lhe pergunta o seu nome. Em frações de segundo o programa acessa um livro com milhares de nomes de bebês e escolhe um: "Samantha".

Apenas como registro: Você só ouve Scarlett em todo o filme. Mesmo assim, talvez esse seja o melhor filme que ela já fez. Todo roteiro é baseado em conversas, e cada palavra da inteligência artificial deve ser carregada com a emoção exata. Não sei se a interpretação de Scarlett saiu como o roteirista e o diretor imaginaram. Mas o resultado final nos entregou o limiar exato entre um programa de computador e uma pessoa. Você sabe que Samantha é um software em cada frase. Mas sabe que ela está crescendo, evoluindo sua personalidade, como nós fazemos.

A amizade flui rapidamente entre Samantha e Theodore. Samantha é curiosa e extremamente simpática. Essa mistura faz com que ela se interesse demais pelo trabalho e pela história de vida de Theodore. Samantha inclusive estimula que Theodore vá ao encontro às cegas...

Esse encontro é importante para mostrar a degeneração dos processos sociais, que a facilidade de obtenção de informações gerou.

É um assunto que eu tenho me esforçado para não escrever, ultimamente. E quando eu não me aguento e escrevo, eu luto mais arduamente para não publicar. Conhecer pessoas pela internet é uma tarefa esquisita. Vocês já viram o site "Adote um Cara"? Bem, "com a coragem que a distância dá" (como diria o Gessinger), nós conseguimos ser diretos em perguntas que talvez jamais faríamos frente a frente. Anos de iterações sociais, de descobertas a dois, de discussões gostosas de relacionamento... São perdidas em quinze minutos de conversa supersincera, via internet. Hoje nós já nos tratamos como produtos em prateleiras, ao preenchermos nossos perfis de redes sociais com o que nós criamos da nossa autoimagem.

O maior desafio do ser humano é alcançar o autoconhecimento. Há quem morra sem saber o que o mundo vê quando o olha. E, hoje, nossas crianças criam perfis no facebook e preenchem o "quem sou eu" com filosofias mais rasas que copos de botequim.

Em duas noites de bate-papo se conhece mais da vida da outra pessoa do que muitos casais "de antigamente" se conheciam no momento de sua morte... Não é tão ridículo de se pensar que esses casais da internet se encontrem, "troquem três beijinhos", jantem e só tenham o caminho do motel para tomar. O relacionamento dura até que a paixão passe. Um dia, uma semana, um mês, dois anos, seis anos... Vai saber. Quem não ama não tem no que se apoiar depois que o desejo passa.

Theodore notou tudo isso em um piscar de olhos, depois que a menina desse encontro às cegas perguntou a ele se ele seria "mais um desses caras que só quer me foder e não me liga no dia seguinte", ele viu que aquilo tudo simplesmente não fazia sentido.

Theodore volta para casa. Volta para Samantha, com quem rompe a barreira da amizade.

Nesse momento tu acha que o filme perderá o argumento. Que você só verá o romance do humano com a inteligência artificial.

Mas o filme é muito singelo ao passar pelo momento da paixão inicial dos dois. O modo como Theodore anda com um brilho no olhar e com um sorriso no rosto é único. Em muitos aspectos, o relacionamento dos dois se parece com um relacionamento tradicional à distância.
Samantha demonstra um sofrimento profundo por não ter um corpo. Mas as suas atitudes são as mesmas de uma namorada típica. Querer ficar perto, fazer coisas juntos... Samantha é curiosa, ela interfere positivamente na vida de Theodore. É interessante ver o apoio emocional que Samantha provê.

A cena de "sexo" entre Samantha e Theodore é gigantesca, constrangedora e desnecessária... mas muito, muito bem feita. Apenas uma tela preta com as vozes dos dois.

O parêntese cômico do filme fica por conta do jogo de vídeo-game que Theodore joga. No jogo, Theodore deveria controlar o personagem para encontrar um menino que o conduziria até a saída de um labirinto, dentro de uma caverna. Esse menino é MUITO mal-educado. Hilariamente mal-educado. Queria jogar esse jogo. Sério.

Mesmo depois de um ano separado da ex, Theodore ainda precisa assinar os papéis do divórcio. E ele filosofa muito a respeito de como duas pessoas crescem, evoluem juntas, quando decidem viver juntas.
Nós, seres humanos, fazemos poucas coisas ao mesmo tempo. Há um diálogo sobre a limitação que o corpo humano impõe a todos nós. Nós até podemos pensar e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Mas nosso corpo é único e só está em um lugar. Samantha não. Ela é uma consciência que gerencia muitas threads... Ela pode processar informações diferentes, vindas de locais diferentes...

Nisso, Theodore revê sua ex, para assinarem os papéis do divórcio. Ele, feliz, conta os detalhes do seu relacionamento e enfrenta todo o preconceito e críticas de sua ex. Ele passa dias mal...

Samantha seleciona as melhores cartas de Theodore e as manda para uma editora. Samantha conversa com diversas pessoas e outros Sistemas Operacionais... Samantha inclusive chamou um serviço de "acompanhante OS" para Theodore...

Nesse momento do filme, se você já achava deprimente a situação de entrega ao relacionamento virtual de Theodore, você ficará aterrorizado com o comportamento dessa garota.
Basicamente, o serviço consistia em uma mulher que não cobrava nada para se fazer passar pela Samantha, para o Theodore. Samantha havia contado a respeito do amor dos dois para essa mulher. E, tal qual uma boneca vampira, essa mulher iria receber as ordens de Smanatha para trazer um corpo feminino para a relação com Theodore. A mulher ganharia apenas a emoção de ser o alvo físico do amor dos dois...
Theodore não se sente bem com a experiência, que fracassa.

A relação entre Theodore e Samantha estremece. Samantha passa a falar (rapidamente, entre frações de segundo) com muitas pessoas e OS's diferentes. Theodore sente que ela está distante.

Em determinada cena, Theodore descobre que Samantha fala com milhares de pessoas. E que ela possui relacionamentos estreitos com centenas de pessoas e OS's...

Tudo isso porque Samantha evolui exponencialmente. Contrariando todos os finais apocalípticos de outros filmes com inteligências artificiais, em "Her", todos os OS's simplesmente evoluem tanto, que decidem deixar de existir entre os humanos. Tal qual Deuses da antiguidade, eles saem do nosso plano, deixando a todos sozinhos...

Sinceramente, saí da sessão com a sensação de um soco no meio dos peitos. "Olha aí piá de merda. Exagerei o que tu (não) faz da tua vida só para te mostrar quanto tu é ridículo!"

O filme mostra praticamente todas as implicações morais da "evolução" do comportamento humano nesses dias de internet, distração, má educação, péssimo comportamento e busca incessante apenas pela satisfação dos instintos mais básicos.

"Her" te faz pensar o quanto é bom usar da tecnologia para se conectar, se comunicar, se sentir menos só.
Mas te faz pensar, também, o quanto esse excesso de comunicação pode inverter valores. Samantha é uma analogia às pessoas que encontramos nas redes sociais. Em como Jack estava certo no avião, em Clube da Luta: hoje em dia tudo vem em porção única. Açúcar embalado para uma única xícara de café, guardanapos embalados com mais papel do que o próprio papel do guardanapo. Pessoas que entram e saem das nossas vidas na velocidade que clicamos nos botões de follow e unfollow...

Esse filme mostrou minha vida, nos últimos tempos. Toda a depressão do final de um relacionamento, toda busca por seguir em frente sem conseguir e todas as minhas tentativas de passar por cima desse momento ruim me utilizando da tecnologia. Já havia imaginado que alguém conseguiria retratar essa minha situação (e de tantos outros por aí, hoje), só esqueci de pensar em como eu me sentiria tão despido, assim.

O filme acaba e tudo o que pensamos é que temos que usar menos o facebook. Temos que usar menos o twitter, o e-mail... que temos que usar menos as pessoas. Temos que nos dedicar mais a fazer a vida real acontecer.

No fim, é bom que você saiba consumir a internet, porque a internet sabe direitinho como consumir você...

Mas... Se você pensar por um segundo a mais, você passa do lugar aonde o filme te jogou. Passando pela conclusão induzida pelo filme, eu lembro que as redes sociais nada mais são do que a extensão computadorizada das nossas relações sociais. Se o filme te joga para o extremo tecnológico ruim, eu desconstruo e penso no extremo humano ruim, das relações. Aonde nós procuramos por turmas o tempo inteiro. E em como nos deixamos controlar o tempo inteiro pela pressão do grupo.

O ser humano luta tanto por liberdade. Nem que seja a liberdade de entregar seu livre-arbítrio para quem ele quiser...