quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Robocop

Acabei de voltar da sessão de Robocop.

A primeira coisa que eu tenho para te dizer é: Você já viu Tropa de Elite? Então. Pegaram um super-herói que precisava de uma repaginada e largaram na mão do mesmo diretor. O Padilha seguiu a receita bem direitinho. Robocop é exatamente o que Tropa de Elite seria, se tivesse um orçamento decente.

E só por isso essa versão nova de Robocop já chuta a bunda do Robocop de 1987.

Vamos começar dizendo que o filme foi MUITO suavizado, para que a censura baixasse consideravelmente. Esqueça bundas, peitos, execuções em paredões, linguajar ofensivo e tiros no saco de meliantes. Todas essas coisas que fazem um quase parecer comédia ficaram lá na década de 80.
Em vez disso, Padilha usou da mesma habilidade que fez de Tropa de Elite um filme agressivo, mas não violento, para baixar a censura do novo Robocop para uns 12 anos. Sabe, tipo sessão da tarde?

O filme mexe muito no personagem. Mexe mais ainda na história dele. Cria um inimigo muito mais perigoso e elaborado do que o inimigo de 1987. E deixa no ar o gancho para a continuação. Excelente, excelente mesmo.

O elenco é um capítulo à parte. Eu não tinha procurado saber quem estava no filme antes de ir assisti-lo. Cada nova aparição foi uma boa surpresa. Quatro nomes sobressaem-se: Samuel L. Jackson, Jackie Earle Haley, Michael Keaton e Gary Oldman. Quase um remake de Batman, misturado com Vingadores e Watchman.

A partir daqui eu vou falar sobre o filme. Não leia se você não quer saber de detalhes antes de assisti-lo.

O filme começa exatamente do mesmo modo que Tropa de Elite 2: com o debate da opinião pública. Com aquilo que eu tenho falado MUITO em redes sociais, mas que NINGUÉM acredita que exista: a manipulação de massa. Em Tropa de Elite 2, o personagem de André Matos era um apresentador de TV que manipulava a massa para ganhar audiência e garantir o interesse das pessoas que o patrocinavam. Já em Robocop, o Personagem de Samuel L. Jackson é... um apresentador de TV que manipula a massa para ganhar audiência e garantir o interesse das pessoas que o patrocinam.


O filme se passa em um futuro próximo, aonde a empresa (OCP) de um empresário milionário visionário com lucros e um mundo mais seguro (Steve Jobs, digo... Batman, ops, digo... Michel Keaton) criou robôs funcionais para garantir a segurança e atuar em guerras.
Embora bem aceitos no mundo inteiro, os parlamentares norte-americanos criaram um lei que impede a utilização de robôs dentro do país. Embora não seja mostrado em nenhum momento do filme, fica claro que a OCP está patrocinando o programa de TV para manipular a opinião pública, a fim de derrubar tal lei.

Acontece que a opinião pública demonstra medo da frieza robótica. Eles acham que os robôs não saberia pesar as situações como os seres humanos.

O filme corta para te apresentar o novo Alex Murphy. Um policial determinado, aparentemente incorruptível, com uma família que o ama muito, um parceiro que é muito seu amigo e um trabalho ao qual é extremamente dedicado. 
O filme não te explica direito o porquê, mas Alex e o seu parceiro acabam cruzando com um traficante poderoso, em suas investigações de tráficos de armas. Esse traficante poderoso é investigado a anos e não é preso porque... comprou vários policiais dentro da polícia de Detroit. Qualquer semelhança com Tropa de Elite não é nenhuma coincidência.
No confronto, o companheiro do Murphy é atingido. Os policiais corruptos dão endereço do hospital e do Alex para os bandidos, para que os dois policiais "que incomodam" fossem mortos.
Ao invés de colocaram um pelotão de fuzilamento para massacrar o Murphy, como no filme de 1987, Padilha fez uma singela explosão de carro destruir o corpo do herói do filme.

Detalhe: Um carro explode a uns dois metros da casa, e a casa nem chamuscada fica. O próprio Alex é arremessado uns três ou quatro metros, só. O suficiente para que ele perdesse um braço, um olho e queimasse 80% do corpo. 


Nessa situação, Alex se mostrou ser o candidato ideal para o projeto de "humanização" dos robôs da OCP. Keaton chama Oldman e o Batman pede para o Comissário Gordon... Opa. Não. Filmes errados. Em Robocop, Oldman é um cientista especialista em próteses robóticas com interfaces nervosas. Só que o doutor é bonzinho. Ele não quer que suas pesquisas sejam utilizadas para guerras, violência, etc... Então o Steve Jobs, digo... O Keaton faz um discurso inspirador manipulatório qualquer e o Dr Frankeinstain, digo, Oldman cai no papo e aceita levar o projeto Robocop em frente.

Após convencerem a esposa de Alex que ele merecia uma segunda chance, ela aceita que ele seja submetido ao projeto e a transformação em Robocop tem início. Alex é levado para China, aonde é submetido à mudança.


Sinceramente, eu achei estranho. O Alex estava mal, mas tinha sobrado muito "corpo" dele, para que justificasse uma transformação em robô. Ainda mais depois das primeiras cenas do novo robocop mostrando o que sobrou do corpo dele... Aparelho respiratório, mão direita e a cabeça. Muito malabarismo com partes do corpo para justificar as expressões faciais e a voz humana.
Isso sem falar a falta de coerência da mão humana! Há duas cenas em que o Robocop a usa para apoiar ou sustentar o corpo que olha... Levando em consideração que as partes robóticas pesam centenas de quilos, a mãozinha deveria ter se esfacelado...

Enfim.

O projeto Robocop deve ser testado antes de ir às ruas. Aí entra o Rorschach, digo... Jackie. Um marine redneck típico. Um adorador de armas e de robôs. Alguém que teve preconceito com o projeto Robocop.
Claro que o nosso herói passa por todos os testes e até humilha o redneck.


Robocop volta para Detroit. Revê sua família. No momento mais cuti-cuti do filme, o filho dele diz que gravou todos os jogos do time de Hockey dos dois, mas não sabia como tinha acabado o campeonato: Deixara para ver os jogos junto com o pai (agora Robocop).

Antes de ser apresentado para a população (tipo "5 minutos" antes) os cientistas fazem upload de todo o banco de dados da polícia e todas as imagens de câmeras de segurança dos últimos anos.
O excesso de informações frita o cérebro do Robocop. O lado humano dele fica sobrecarregado com tantos crimes. Entra em colapso. A solução em cima da hora do Dr foi tirar todas as emoções de Alex.

Transformaram o Robocop de 2014 no Robocop de 1987.

Sem emoções ele não reconhece sua família, seu amigo, passa batido por protocolos sociais... E só mantém a missão de encontrar e prender suspeitos. E faz isso muito bem, logo no primeiro minuto de volta à ativa.

Desse ponto em diante o filme corre rápido. A esposa de Murphy não consegue vê-lo e passa a procurar por modos de rever o marido. 

Murphy passa a resolver casos e, ao encontrar sua esposa, passa por um stresse emocional e consegue reprogramar suas prioridades. Investiga e resolve o caso do seu assassinato em menos de um dia. Descobre que, além dos policiais corruptos, a própria chefe de polícia de Detroit era corrupta. "O inimigo é outro"... Haha.

Do outro lado, com a opinião pública do seu lado, o CEO da OCP consegue a derrubada da lei anti-robôs. Com medo de repercussão negativa caso todos soubessem das falhas emocionais do Robocop, o chefão manda desativar o projeto. Era para desligarem o Robocop. Até o Dr finge entrar na jogada, mas no último momento liberta Alex.

Alex vai ao encalço do dono da OCP. Passa por soldados, passa pelos drones gigantes. Muitos tiros. Um braço amputado ao melhor estilo "coiote roendo a pata para se livrar de uma armadilha", passa pelo redneck (novamente) e, por fim, consegue burlar sua programação e matar o chefão da OCP.

Vejam só: o novo Robocop é um homem de lata com mais coração que o Robocop antigo!

Nos anos oitenta tínhamos uma visão mais "dura" da informática. Nós não sabíamos o que poderíamos fazer com microchips. Quando o primeiro Robocop foi lançado, não tínhamos nem um 486 à venda nas lojas! Tecnologias touch screen eram coisas de ficção... Talvez por isso nós tivéssemos sonhado um ciborgue tão "duro" quanto o primeiro Robocop.
O novo Robocop corre, pula, é ágil, sabe da sua vida desde o início... Até pede por eutanásia! E mesmo assim é mais leve. Uma criança conseguirá ver o filme sem ferir sua inocência, enquanto um adulto conseguirá notar nuances nas falas e atitudes, de modo a encontrar muitos pontos de discussão.

Atenção especial a "Eu sou só do marketing!"... Talvez o cara mais filho da puta de todo o filme. Usando do marketing para salvar a própria pele. Fantástico.

Eu gosto do Robocop antigo. Uma bela obra de arte. Mas adorei o Robocop novo. Quero mais. Quero uma continuação digna. Quero ver inimigos mais poderosos em um filme com menos apresentação de personagens e explicações e com mais tempo de ação!