quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

"Efeito Túnel": Foco completo da consciência.

Lá pelos idos dos anos 1900, um grupo de cientistas avaliou o tempo médio de atenção de crianças em sala de aula, no assunto da aula. Em média, os alunos conseguiam manter a concentração em um único assunto por 50 minutos. Alguns mais, alguns menos.

Passou o tempo, esse estudo foi sendo efetuado em novas salas de aulas, com novos alunos. E, de modo impressionante, as crianças passaram a conseguir se concentrar em um único assunto por cada vez menos tempo. Hoje, as crianças já perdem o foco em menos de seis minutos, em média.

Isso não é um trabalho científico, é só um texto de opinião. As afirmações que citei estão disponíveis na internet. Inclusive, devem estar precisas, com detalhamento do método e até com os segundos discriminados. Caso queira se aprofundar, pesquise-as. Para a continuidade do meu texto, a exatidão da informação não é necessária. Precisamos apenas saber que esses testes foram feitos e que existe a diferença de atenção entre as gerações.

Passado o parágrafo de "como ler um texto do Arthur", continuamos no tema.

Dentre muitas outras coisas, eu sou músico. Acredito que todos somos muitas coisas na vida, né? Temos interesses diversos e tempo de vida para nos aprimorarmos em mais de um assunto. Eu, por exemplo, tenho graus diferentes de entendimento de informática, desenvolvimento de software, estatística, administração, contabilidade, legislação, filosofia, psicologia, música, literatura, artesanato, culinária, arquitetura... Entre outras coisas.

Mas voltemos à música. Porque é ela quem vai me ajudar a explicar o "efeito túnel".

Eu sou guitarrista, baixista, sei manter a base com os teclados e até arrisco no vocal. Mas a minha paixão é a bateria.
Quer saber o porquê?
Porque em qualquer outro papel que tu desempenhe para gerar música, tu podes efetuá-lo de modo mecânico. Se tu não está em um bom dia, podes simplesmente tocar as notas da guitarra, realizar mecanicamente os solos da guitarra ou do baixo ou só declamar as músicas no tom certo, no vocal. Gaita, violinos, instrumentos de sopro... Se tu não está com muita paciência ou "no clima" para tocá-los, tu podes executá-los mecanicamente. A música acontece. Meio "arrastada", sem empolgação, eu sei. Mas acontece.
Agora, se o percursionista não "veste" a música, ela não acontece. O percursionista não pode fazer da execução do seu instrumento uma sequencia de "bate aqui, bate ali, bate lá". O percursionista tem que sentir a música. Ele tem que suar a música. Cada nuance da música que ele toca só acontece porque ele sente - instintivamente - o momento certo de atingir o instrumento certo, no ângulo certo, com a força certa. 
Menos que isso e a música se transforma em uma batucada disforme. 

Já dizia a música "O Toco", dos Raimundos: "...Culpa do Fred não lembrar quando acorda / Tava num show maneiro / Tocando num som fuleiro / Parece tora-tora só que em uma versão só com viola..."

Enquanto era só baterista, eu não sabia disso. Eu não notava isso. Só fui notar esse efeito quando as primeiras notas do violão se juntaram e eu consegui tocar uma música que as outras pessoas reconheciam.

Reserve esse conceito.

Eu não gosto de carros, sabe? Aliás, sequer tenho um. E acho que, se comprar um, será por pura "falta de onde enfiar dinheiro", mesmo. O que, convenhamos, está longe de acontecer na minha vida.
Mas eu gosto de Fórmula 1. Não, não gosto de automobilismo, gosto só de Fórmula 1, mesmo. Os avanços tecnológicos, o modo como as disputas se dão "no braço", "na estratégia" ou "na matemática" me empolgam. Sempre me empolgaram. Sério.
Outro dia, assistindo ao GP de Mônaco, vi um comentarista relatar uma entrevista do Senna, em que ele afirmava que algumas pistas pareciam se tornar "túneis" para ele. E esses "túneis" "sugavam" o carro, fazendo com que cada curva fosse executada instintivamente com perfeição. Como a velocidade do carro aumentava. Como os limites eram testados e superados a cada volta. E de como todas as manobras pareciam possíveis, quando ele estava imerso nesse efeito.

Reserve esse conceito, também.

Estou lendo o livro "Rápido e Devagar, duas formas de pensar". É um livro grande, complexo e repleto de relatos de experiências e conclusões. Já faz três meses que eu estou deglutindo página por página desta maravilha, que rendeu ao seu autor o Premio Nobel de economia. Não terminei o livro, mas já o recomendo.
Neste livro é provado que o nosso cérebro se divide em duas partes: 
Uma é instintiva, inconsciente de si, rápida, pronta para reagir a qualquer momento, fácil de ser enganada, falível e treinável. 
Outra é analítica, consciente de si, morosa, preguiçosa, matemática, de resposta lenta e conclusiva. 
Nossa memória RAM e memória ROM, se você preferir uma analogia nerd.

Juro que, quando terminar o livro, faço uma postagem cheia de spoilers sobre ele, aqui.

O importante é saber que a parte mais inteligente do nosso cérebro não quer e não gosta de ser utilizada. Essa área do cérebro consome muita energia. Esquenta demais nosso cérebro. Literalmente auto-consome-se quando é utilizada por muito tempo.
O mecanismo que é empregado é do "treinamento" da parte mais basal e instintiva do nosso cérebro. Aquela parte mais burrinha, mas que é "pau pra toda obra". A utilização desta parte mais ancestral e mais animal não nos custa muito, em um primeiro momento. São as consequências geradas pelo não-treinamento desta área primitiva do cérebro, que nos custam caro.

Por um instante, correlaciono a minha experiência com a música, os relatos atribuídos ao Senna e a teoria do livro. 
Fico imaginando que chamamos - erroneamente - de "talento", o correto treinamento da mente rápida em determinada área, pela mente lenta. (Talvez essa minha conclusão esteja nas páginas que ainda não li do livro... Aliás, é bem provável...)

Talvez o Senna só fosse o extraordinário piloto que era, porque estudou e pensou tanto sobre cada detalhe dos seus carros e sobre cada centímetro das pistas. Tanto que, quando pilotava, ele se "entregava" para a mente instintiva. E essa mente estava tão bem instruída com cada movimento e cálculo que deveria executar, que não precisava acessar a mente lenta. E, com isso, parecia que as decisões "vinham do nada". A percepção da visão se adaptava. A audição, tato, olfato e paladar passavam desapercebidos. Só existia o próximo centímetro de pista a ser superado no menor tempo possível. O "efeito túnel" se tornava real, conforme descrito.

Esse mesmo "efeito túnel" eu sentia quando executava perfeitamente uma música na bateria. Não existiam tambores, caixa, bumbo, tons, surdo, pratos de ataque, chimbal, condução, splash ou china... As baquetas tornavam-se extensões naturais das minhas mãos e braços. Quando o "efeito túnel" se apoderava de mim, as pernas pareciam se mover sem que eu as comandasse: elas simplesmente sabiam quando deveriam acompanhar o baixo e/ou marcar o tempo da música. Criava viradas onde a música original não possuía, mas em perfeita harmonia com a execução como um todo. Acionava pratos com movimentos que eu jamais ensaiara, praticara ou sequer tentara, antes. E em momentos que ajudavam a esconder o fim da repetição de notas da guitarra, com perfeição. Só existia a música, enquanto eu estava no "efeito túnel". 
Geralmente eu era muito elogiado no final de músicas em que eu havia mergulhado no "efeito túnel". Elogios que não se repetiam (com justiça) quando eu tocava sem conseguir alcançar esse efeito.

Levando esse conceito às demais áreas, hoje eu noto que o "efeito túnel" acontece, também, enquanto escrevo e programo. É muito chato, moroso, lento e até dolorido, compreender toda a teoria, regra de negócio e planejar o que quer que tenha que ser implantado no sistema em que trabalho. Mas, uma vez que tudo tenha sido aprendido corretamente (que a minha mente rápida foi treinada), o "efeito túnel" me traga para essa zona em que tudo parece possível.

Traçando um paralelo com o estudo que apontei lá no início do texto, perdi-me em pensamentos.
Talvez - só um "talvez", veja bem - a atenção das gerações não tenham decaído, durante o tempo. Talvez o ser humano tenha um tempo de atenção muito curto, mesmo. Um tempo de atenção que, se quisermos ampliá-lo, deve ser treinado. O treinamento deve ter o rigor da disciplina. Porque, só com o uso da disciplina é que conseguimos manter o treinamento da nossa atenção. Infelizmente, até hoje, não são todos que conseguem se auto-imputar a disciplina necessária. 
Antigamente, em épocas onde os pais possuíam menos paciência e psicologia e mais chinelos e cintas, as crianças tinham seu comportamento mais disciplinado. E esse comportamento mais disciplinado auxiliava os professores, na hora de ensinar as matérias escolares. As crianças suportavam um pouco mais de pressão e conseguiam manter sua atenção por mais tempo.
Com o passar das décadas, os pais foram perdendo - gradativamente - a exigência por disciplina. As crianças não estão mais acostumadas a respeitarem as diretrizes. O tempo em que elas se esforçam para manter a atenção cai na exata proporção em que elas não têm mais o respeito pela autoridade instituída.

Fico com medo - torcendo para estar errado - de estarmos entrando em um mundo onde as pessoas não consigam se concentrar em um mesmo tema por mais de uma frase. Incapazes de acionarem suas mentes lentas para raciocinar sobre os pontos que são colocados à sua frente. Onde todos deixem de treinar suas mentes rápidas, tornando-se seres altamente instintivos. Entregues apenas aos interesses mais básicos que um animal pode ter: comida, abrigo e sexo. 

Qualquer semelhança do meu medo com a realidade, é mera coincidência.