terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Aprenda a Aceitar

Nestes mensageiros diretos da vida, estava eu conversando com uma menina de 16 anos de idade.

Não, não era isso que você estava pensando. Seu pedófilo disfarçado de uma figa. Vá pensar bobagens na puta que te pariu.

Enfim.

Conversa vai, conversa vem, tentando dar uma mão nas crises infindáveis que acometem adolescentes, a menina me revela que "Eu queria ter sido um menino... Mas não deu...".

Meu amigo... Duas nuvens se abriram para que um feixe de luz iluminasse a minha cabeça, nesse momento. O tempo parou por uns instantes. E eu entendi tudo o que está acontecendo nesse mundo.

Espero que a minha memória me permita terminar de escrever esse texto com a mesma ideia que fez eu começar a digitar.

Eu vim de um tempo aonde as coisas eram difíceis. Na verdade, o final do tempo difícil. Mas, mesmo assim, um tempo em que filhos não eram semi-deuses. Tá, talvez alguns da minha geração já tivessem sido paridos nessa condição. Mas eu e a maioria, não.

A maioria das crianças da minha geração foi criada por avós que tiveram pelo menos quatro crianças. Senão 6. Senão 8. Senão 14 ou 16. Filhos vinham a rodo. Não existiam métodos contraceptivos, mas as pessoas queriam foder. Maternidade não era uma dádiva, era um suplício. "Mais um para criar, que merda".

A minha geração cresceu com uma crise gigante de auto-estima, porque nasceu em um mundo um poquinho melhor e, mesmo assim, estava sendo tratado como se a comida dependesse de caça e coleta.
Eu próprio fui acostumado a "come o que tem na mesa e não reclama". Talvez por isso que eu não aceito muito bem que as pessoas façam coisas especiais pra mim, até hoje. Eu me acostumei com "fica quieto no teu canto".

Minhas opções quando eu era criança estavam restritas a gostar ou ficar quieto.

Só que... (Do verbo socar...) Embora eu já tivesse dito que algumas pessoas da minha geração e as pessoas das gerações mais novas estavam sendo criadas "a leite de pera"... Eu nunca tinha entrado em contato tão próximo com as opiniões e visão de mundo de alguém que tivesse sido criado nesse regime...

Esses pais com severos problemas de auto-estima e acesso a anticoncepcionais efetivos têm poucos filhos. E os idolatram a pontos extremos.

Nessa hora eu lembrei de uma menina... Mais nova que eu... Com um bebê (um ano e meio, no máximo) em um carrinho no supermercado aqui de Florianópolis. Ela perguntava A OPINIÃO de uma criança - que mal sabia falar - sobre os produtos que estava escolhendo.

Parece pouco. Mas imagine o universo que se cria na cabeça dessa criança. Desde cedo posta frente-a-frente com decisões. Ainda mais sem ser indagada de seus motivos... Um bando de pirralhos que querem as coisas "porque sim".

Monstros.

Eu notei a decepção da menina de 16 anos. O quanto ela ficou chateada por querer ser menino, mas "não deu...".

As pessoas estão perdendo a noção do que são. Estão perdendo a noção do ridículo. Do que pode ser manejado, para o que deve ser aceito.

Está insustentável esse panorama. Pessoas agem como se tudo fosse descartável. Como se as vontades de suas tripas fossem a única justificativa necessária para sustentar todo o peso de suas decisões, durante a vida.

Quando frente-a-frente com um problema, ou resolvemos ele, ou aceitamos e nos adaptamos ao problema. Sinceramente eu acredito que devamos expandir as ciências, a fim de solucionarmos todos os problemas. Mas enquanto os problemas não puderem ser solucionados satisfatoriamente, devemos encarar o outro método. Aprendermos a aceitar as situações que não poderemos alterar satisfatoriamente.

Faz mais parte da vida que nós nos adaptemos às circunstâncias, do que nós adaptarmos o mundo inteiro aos nossos caprichos.

Você exigir que eu aceite a sua condição é, por princípio básico, uma falta de respeito à minha liberdade de pensamento. Eu tento ficar quieto com os meus problemas insolúveis, por respeito a vocês. Vocês poderiam ter um pingo de noção e vergonha na cara e simplesmente aceitarem a sua condição e viverem de acordo.

Certas coisas nesse mundo não estão em uma prateleira de supermercado. Não fazem parte do currículo de algum curso. Certas coisas simplesmente são o que são e, infelizmente, nós ainda não temos métodos para mudarmos ao nosso bel-prazer.

Simplesmente aprendam a conviver com o que têm. A comida é essa que está na mesa. Ninguém vai fazer um prato especial para ti. Não quer comer? Vá para o seu quarto e fique quieto.