quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Justiça com as Próprias Mãos

Eu estou com medo. Muito medo de vocês. Aliás, eu estou em pânico com a ignorância que eu ando vendo nas notícias.

Um monstro foi criado.

Eu não vou contextualizar nos detalhes, porque você conhece a história. Só vou escrever esse trecho aqui, porque "o óbvio deve ser dito".

Os nossos políticos são medíocres e sabem disso. Para se manterem no poder, a única solução que eles encontraram foi criar um povo mais medíocre ainda. Por décadas a fio, os políticos alimentaram a população só com migalhas. Hoje, a população está tão acostumada a não ter nada, que quando vê qualquer pão francês simples, acha que é demais, que não dará conta e até que é indigna de tanta coisa.

Os políticos queriam roubar e não serem pegos. Então, passaram a prover uma educação que cegasse as pessoas do entendimento superior do mundo ao seu redor. Faz décadas que nossas escolas formam analfabetos funcionais. Pessoas incapazes de interpretar uma frase que tenha só 140 caracteres... Quanto mais textos inteiros, inferências lógicas ou correlação entre fatos.

É uma prisão sem grades. As pessoas são confinadas na sua incapacidade de perceber o mundo à sua volta. Todos só veem as consequências, sem compreender as causas. E não notam como as consequências podem realimentar o ciclo, sendo causas para novos acontecimentos.

Nisso, os políticos já estavam metendo a mão no dinheiro público com eficiência ímpar. Com o povo burro, manipulados para odiarem matemática, os políticos já não eram mais cobrados por nada. Porque parar na educação, né?
Passaram a tirar da saúde. Afinal de contas, Deus determina quando é a nossa hora, né? Nenhum médico consegue nos salvar do nosso último suspiro, nos dando mais anos de vida... Pra que gastar tanto com formação, plano de carreira, equipamentos, material hospitalar, instalações adequadas e infraestrutura em geral, né?

Aliás, se as pessoas morrem um dia mesmo, por que tentar evitar? Pra que os políticos investiriam em infraestrutura para facilitar a nossa vida? Pra que estradas com mais segurança ou trens para transportar cargas e retirar caminhões das ruas? Pra que pontes? Aeroportos, portos, rodoviárias? Pra que passarelas para pedestres? Para que criar praças, centros de convivência, atividades culturais? Cortando gastos com essas coisas inúteis os políticos poderiam roubar mais ainda!

E é claro... Se o governo já não forma, não salva e não garante a infraestrutura básica, pra que diabos vai fiscalizar, né? Aliás... É perigoso fiscalizar quando você próprio está fazendo as coisas erradas... Melhor não. Negligenciar órgãos reguladores, polícias e a justiça como um todo é melhor. Além de manter os alcaguetas afastados, gera mais dinheiro para que os políticos roubem.

O único problema desse sistema é que a população passa a produzir pouco. Ninguém tem qualidade suficiente para ganhar dinheiro de verdade. E pouca produção significa pouco consumo e pouca arrecadação de impostos. E pouco dinheiro de impostos significa pouco dinheiro para os políticos roubarem.

Mas o sistema criado gera uma solução até para esse problema. O povo é tão burro para perceber causa e consequência, que os políticos conseguem subir os impostos, piorando os serviços ao mesmo tempo. Pouquíssimos notam. Menos ainda reclamam. E desses que reclamam, um ou dois são importantes o suficiente para serem rechaçados pela opinião pública. Terem sua moral executada como pena exemplar para quem quer que queira se opor.

O governo é tão esperto que dá uma fração da arrecadação para garantir a lealdade dos mais pobres, ao proporcionar-lhes acesso ao consumismo... Dinheiro que gira um pouquinho mais a economia e volta para os cofres públicos tão rapidamente quanto saíram.
Dá para entender o contexto criado?

Pense em um moleque pobre entrando nesse processo.
Seus tenros anos são usados para a escola ensinar que a educação é uma piada desnecessária. Um amontoado de baboseiras que não ajudarão em nada na vida. (E sim, você usa a fórmula de Bhaskara todos os dias, quando tem que resolver questões com duas variáveis. Dirigindo. Escolhendo o que servir em um buffet. Etc...)
O moleque cresce inserido em um contexto de consumismo, com a TV gritando nos seus ouvidos que ele só será alguém se comprar. Vendo seus amigos com mais dinheiro despertando interesse das meninas... que só se interessam pelos melhores meninos como se relacionamentos fossem comprados em prateleiras de supermercados.

Esse piá chega aos 18 anos sem saber fazer porra nenhuma de útil. Mas a vida está ali. Cobrando dele aluguel, um carro, roupas apresentáveis, da moda, que ele frequente os melhores lugares, que ele tenha uma TV tela plana full HD de duas mil polegadas, um tablet de última geração, um celular mais potente que as sondas em Marte... Que ele seja alto, forte, tenha a barriga tanquinho, saiba falar vinte idiomas, domine a informática e tenha um pênis de 30cm.

Não. Se o cara tiver todo o resto não precisa ter o pênis de 30cm. 25cm já tá bom.

É evidente que o piá debiloide não tem tudo isso. Talvez ele nem queira tudo isso. Talvez ele só queira fazer alguma tarefa qualquer para se sentir útil, ter uma menina que o ame e um cantinho sossegado para voltar à noite.
Só que aí entra o que todos nós insistimos em mentir que não acontece: o meio influência a cabeça desse moleque.

Não venha mentir para mim, dizendo que você nunca fez nada porque "estava na moda" ou porque "estava todo mundo fazendo". Vá ser hipócrita em outro blog. XÔ.

Nosso “moleque-exemplo” se vê sem perspectivas. E, amigo, a pessoa mais perigosa do mundo é aquela que não tem perspectivas. Essa pessoa não tem âncora para seus pensamentos. Nada freia seus impulsos. Nada limita suas possibilidades.
O moleque se transforma em um pivete. Um ladrãozinho. Rouba porque sim. Ameaça porque sim. Consegue uma arma. Passa a assaltar. Em um desses assaltos, ele atira sem querer. Ou por querer. Mata. A vida é só mais um obstáculo entre ele e o dinheiro no bolso da vítima, o relógio, o tênis, o celular...

"Ah Arthur! Mas tu tá dizendo que existem pessoas que têm coisas para serem roubadas! Nem todo mundo passou pelo processo de 'pivetização' que tu citou!"

Touchê!

Fico tão feliz que meus leitores consigam interpretar e encontrar esses detalhes nos meus textos!

Acontece que existem pessoas que conseguiram manter a cultura da qualidade. Do estudo, do interesse nas ciências. Da excelência no que fazem. Pessoas que alimentam e põem em movimento a máquina do capitalismo, no nosso país.
Gente que acorda cedo, trabalha duro o dia inteiro, estuda forte de noite e ainda acham tempo para passar oralmente as tradições para seus filhos.

Porque, sim, para que alguém tenha noção de "estudo -> trabalho -> sucesso", aqui, no Brazil, a pessoa tem que aprender como faziam os povos pré-históricos: por contos orais.
Algumas famílias se reúnem em volta da fogueira (TV) e os mais velhos contam histórias de um passado ocorrido há muito tempo. Um tempo em que as pessoas se esforçavam e ganhavam mais dinheiro por isso!
Algumas crianças (cada vez menos, a cada dia) aprendem e decidem seguir esses ensinamentos durante a sua vida...

Acontece que muitas dessas crianças cresceram. E cresceram fazendo o que seus pais mandavam, mas sem saber ao certo o porquê. Só notaram que dava certo. E por mais que tenham estudado, eles não sabem de tudo. Não notam tudo. Não notam que também são vítimas dos políticos, tal qual os moleques criados para serem pivetes. Só que em vez de terem sido criados para serem o braço violento, essas crianças foram criadas para trabalharem a vida inteira para sustentarem os caprichos dos governantes. Formigas. Verdadeiros escravos explorados. Perdem sua saúde para ganhar uma vida... que perdem para o governo. Um governo que lhes cobra o cu da bunda e não dá nada em troca. Aliás, dá sim: um assaltante formado pelas péssimas instituições públicas. Uma bala com o nome de cada um de nós.

Duas vítimas, postas frente a frente. De um lado o marginal, do outro o escravo. O plano dos políticos foi tão perfeito que ninguém nota quem é o verdadeiro inimigo!
Nos jogaram uns contra os outros. Mulheres contra homens. Negros contra brancos. Homossexuais contra heterossexuais. Pobres contra nem tão pobres ricos.

Nos últimos dias, andam acontecendo algumas inversões de valores.

A princípio eu achei que era uma coisa muito boa. Mas, sinceramente, estou ficando preocupado, como falei lá no início do texto. Com medo de vocês.

Muitos "cidadãos de bem", notando a falência total dos serviços básicos e o descaso completo das autoridades, têm tomado atitudes contra a violência.
A indignação anda tão grande que já são inúmeros casos de ladrões pegos em flagrante, perseguidos, capturados, linchados e presos a postes, por cidadãos comuns.

Sim, o cidadão comum está tomando o papel de policial, advogados, juiz, juri e executor.

"Ah Arthur! Mas são criminosos, eles merecem ser punidos!" - você me diria.

Sim. Merecem. Mas não por nós, cidadãos comuns.

O ser humano é passional. E a passionalidade turva o raciocínio lógico. Sem raciocínio lógico, nós perdemos os pesos e as medidas. E isso fere o nosso princípio de igualdade.

Liberdade - Igualdade - Fraternidade.

Ninguém deveria estar está acima ou abaixo da lei. A justiça deve ser feita. Mas só a justiça. Nem mais, nem menos do que a justiça. Se qualquer coisa é feita fora da curta e estreita área da justiça, já vira favorecimento. E nenhum favorecimento é válido. Não são válidos nem o exagero da pena, que favorece a vítima, nem o abrandamento da pena, que favorece o acusado. Um erro (pena injusta) não anula outro erro (o crime em si).

Eu tenho medo disso por vários motivos. Ainda não aconteceu, mas só quero ver a repercussão na hora que um ladrãozinho for pego em flagrante, sacar uma arma e chacinar a turba de linchamento.
Ou, ainda, um pai de família desesperado ir roubar comida para seus filhos e acabar morto por causa da "justiça popular".

Nossa sociedade é frágil. São séculos de tentativas e erros até chegarmos nesse modelo. E estamos sendo muito hábeis em desmontar o ápice da civilização ocidental. Em reverter todas as conquistas sociais, até voltarmos a nos comportar como trogloditas.
Se for para voltar no tempo, por favor passem a murar as cidades! Eu adoraria morar em uma cidade murada!

Brincadeiras à parte, não esqueçamos que todos somos falíveis. Somos - TODOS - propensos a surtos. Ao descontrole. A perder a razão que tanto exigimos dos demais. 
Se algum dia eu falhar, eu quero uma justiça o máximo perfeita para me julgar. Aposto que você também irá querer um julgamento justo. Porque "bandido bom é bandido morto", até que o bandido seja seu amigo, familiar... ou você mesmo.

Eu tenho medo dessa justiça com as próprias mãos. Os arados, tochas, paus e pedras estão mais preparados do que as suas capacidades de raciocínio. E esse fato é causa. Uma causa para uma consequência sombria mais ali na frente.

Eu preferiria que vocês pensassem mais do que batessem. Ponderassem melhor na hora de escolher os nossos políticos. Não sabem diferenciar um político bom de um ruim? ESTUDEM para saber! Votem direito. Se não tem político bom em que votar, sejam vocês mesmos os políticos bons. Vamos melhorar esse país indo pra frente. Vamos cuidar da nossa casa deixando o lar de todo mundo bonito, não transformando nossa residência em um casebre feio, que ninguém deseja.

"Pra frente é que se anda. Na rua a banda continua a tocar... LOVE, LOVE, LOVE, LOVE, LOVE..."