sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sbórnia de Luto

Porto Alegre é uma cidade fantástica.

Temos um lago, que na verdade é rio, mas que parece um mar que ninguém aproveita... Nossa cidade tem belezas únicas, mas o frio rigoroso do inverno e o calor escaldante do verão nos distraem e acabamos não notando.

O porto-alegrense distraído aprendeu, com o passar do tempo, a criar suas próprias belezas. Porto Alegre é uma cidade aonde todas as atrações estão... escondidas.

Tal qual uma mulher poderosa, sedutora e caprichosa, Porto Alegre joga contigo. Porto Alegre não se revela no primeiro encontro. Porto Alegre se esconde, te chama para sair e desmarca em cima da hora... Ela te faz ficar apaixonado... e quebra seu coração.
E quando você desiste de Porto Alegre, essa cidade maravilhosa aparece do nada na sua vida. Em um único momento te arrebata, te conquista, te joga no chão e faz o que quer contigo... Mas é só para você voltar a se apaixonar. Pois tão repentinamente quanto as luzes da cidade te maravilharam, elas se apagam. E somem da tua vida.
Os momentos únicos ficam só na memória.

Você quer ver como Porto Alegre é fantástica?

Por todo Brasil, temos datas em que estamos preparados para gastar. Ano novo, carnaval, páscoa, dia das mães, dia dos namorados, dia dos pais (tá, nem tanto), dia das crianças, natal... Aniversários...

Mas em Porto Alegre nós temos mais duas datas. Porto-alegrense trabalha mais porque sabe que acaba gastando nesses dois eventos.

Um deles é a feira do livro, todo final de ano. Se tu é porto-alegrense, tu vais à feira do livro. Mesmo que não gostes de ler. Vamos para ver o movimento. Para nos encontrarmos. E acabamos indo para comprar livros, para entrar em eventos. Um mês para respirar cultura. E para pagar por ela.

O outro evento é o motivo deste texto...
Há 30 anos, uma dupla de músicos/atores teve uma sacada fantástica: criaram uma peça aonde seus personagens vinham de um país fantasioso, que vivia do recolhimento do lixo cultural do mundo. Essa dupla contava a história do país fictício Sbórnia e - com inacreditáveis destreza e talento - reciclavam todas as músicas que saíam de moda no ano anterior.

Não é à toa que o espetáculo durou tanto tempo, sendo tão bom. Humor, consistência de história, música de primeira qualidade e excelente carisma com o público. Esse show se transformou em um dos marcos de Porto Alegre.

Cada nova temporada era apresentada em fevereiro, no Teatro São Pedro. Apesar de anunciada e já amplamente sabida, essa era mais uma das armas no arsenal de sedução da nossa cidade. Você tinha que saber da peça. Você tinha que ser levado por alguém que te contasse o contexto inicial. Você precisava ir avisado de tudo que aconteceria...

Porque se você fosse sozinho, o espetáculo ia te chocar. Era uma peça quase impressionista. Tudo era mais exagerado do que o exagero do teatro comum. Cenário, figurino, gestos, tons e cores. Tudo era feito para te chocar. E se você não estivesse no contexto...

Bem... Eu já vi amigos que foram sozinhos "porque disseram que era bom", maldizendo o show, após sair do teatro na primeira vez. E esses mesmos amigos acabaram indo no ano seguinte... Isso porque o show te faz pensar. Tu precisas de todo um ano para compreender o que se passou. Para assimilar o recado. E depois que que tu entende... Tu precisas voltar!

É como beber um bom vinho seco ou whisky. Para que você possa sentir todos os sabores de uma bebida seca, você deve primeiro agredir seu paladar. Faça um bochecho com o primeiro gole do vinho seco. Tome água muito gelada antes de tomar whisky. Depois de agredir seu paladar, os demais goles serão muito mais saborosos.

Tangos e Tragédias era assim. Você levava um soco na primeira apresentação. Era estranha. Mas você precisava voltar, voltar, voltar... Cada ano mudavam algumas poucas coisinhas. Mas o espetáculo era sempre novo, atemporal, excelente.

"Era", porque hoje Nico Nicolaiewsky nos deixou. Vítima de cancer.

Grande artista, marcou os verões de Porto Alegre junto com Hique Gomez. Os dois foram responsáveis por um dos maiores charmes da capital gaúcha. Do sul do Brasil, do Brasil, do mundo... E definitivamente da Sbórnia, que ficará para sempre de luto.