segunda-feira, 26 de maio de 2014

Aborto no SUS X Lei da Palmada

Amigo, você me conhece. Você sabe que eu sou um mentiroso compulsivo, que uso o método dos A.A. para me manter longe do meu vício. E, no meu esforço para não mentir de modo algum novamente, eu passei a caçar todos os meus pontos de contradição. Revi todos os meus argumentos. Estudei aquilo não sabia. Pesquisei a origem de pensamentos diferentes que mantinha e pesei qual era o melhor.

Para não mentir mais, tornei-me esse CHATO, repleto de PONTOS FINAIS na cabeça. Eu seleciono minhas opiniões de acordo com a seleção natural. A melhor opinião naturalmente sobrepõe a opinião antiga e pior. E eu faço questão de expor cada ideia minha o tempo inteiro, que é para que os outros venham me trazer novas ideias. Para que eu tenha, sempre, um ponto de vista mais forte e melhor embasado.

Posto isso, vamos às duas notícias de impacto da semana passada.

Primeiro, no dia 21, o governo brasileiro celebrou a aprovação da "Lei da Palmada", batizada oficialmente de "Lei do Menino Bernardo".
Sobre o assunto, enquanto lei, eu acho que é só mais uma manobra do governo. Mais uma daquelas infinitas leis que reescrevem leis que já existem. No nosso país, ninguém pode bater em ninguém. Aí reescrevemos essa lei para cada minoria. Homens não podem bater em mulheres. Heterossexuais não podem bater em homossexuais. Brancos não podem bater em negros. Jovens não podem bater em idosos. E agora adultos não podem bater em crianças. Como se mulheres, homossexuais, negros, idosos e crianças não fossem pessoas e não estivessem protegidos pela primeira lei, genérica.
A Lei da Palmada foi um verdadeiro espetáculo de circo, com direito à Xuxa sentada à bancada, provocações e coraçãozinho em resposta...
Na prática, essa é mais uma daquelas leis que não têm como ser fiscalizadas. Tudo continuará como é hoje em dia. Vizinhos deverão pegar um telefone e denunciar à policia. A mesma polícia corrupta que sumiu com o pedreiro lá no Rio de Janeiro. Essa polícia sem vontade deverá prestar assistência à uma população que mal sabe dos seus direitos... quanto mais dos seus deveres...


Já é icônico o modo como o nosso governo populista atual gosta de legislar dentro das nossas cabeças. Tal qual péssimos pais, nosso governo quer estipular o que podemos e não podemos fazer.


O Brasil ainda está discutindo a Lei da Palmada e nem viu que no último dia 22 o procedimento de aborto foi incluído na tabela do SUS.
Não vou falar minha opinião sobre o aborto. Você pode clicar nesses links e ler tudo o que eu acho a respeito:




Bem, quando fiquei sabendo das duas medidas aprovadas, meu primeiro pensamento foi mostrar para todo o mundo a falta de coerência no pensamento do governo brasileiro. Mas eu não precisei. A Paula Rosiska já tinha pulado na frente e falado exatamente o que eu pensei: 



Bem.

Sobre as palmadas em crianças, eu já havia dito que, "ou a criança aprende com os pais, ou aprende com a vida". Mas eu quero estender esse tema, porque eu ando lendo MUITA BOBAGEM sobre esse assunto, por aí.

Tenho lido e escutado pessoas comentando que "pai de verdade não precisa agredir os jovens indefesos para educá-los".
Quando fui comentar com alguém que eu achei que poderia ter uma conversa de nível, essa pessoa tentou desqualificar minha opinião por eu não ter (e não querer ter) filhos.
Ok. Vamos às minhas colocações.

Antes de mais nada: O Brasil não é a Suíça! Nunca se esqueça disso. O brasileiro não é igual ao suíço... ou a qualquer pessoa de qualquer país de primeiro mundo.
Mas, mesmo tendo isso em mente, é interessante lembrar do resultado da "Lei da Palmada" na Suécia. A Suécia foi o primeiro país a aprovar uma lei como a que aprovamos no dia 21. Aliás, a "Lei da Palmada" sueca está na constituição daquele país desde 1979... E a primeira geração de cidadãos após a vigência desta lei está sendo chamada de "pequenos tiranos".
Lá, os pais tentaram "se colocar no lugar das crianças". Tentaram efetuar uma criação levando em consideração as opiniões das crianças. Na prática, os pais suecos estavam criando crianças como se fossem adultos. E, sem saber, estavam dando mais poder do que os pequenos conseguiriam controlar.
É evidente que tu não podes esperar o mesmo tipo de reação do brasileiro. Como eu já disse, nós somos animais irracionais, por aqui. Aqui existem pais que espancam seus filhos por hábito. Chega a estar programado na agenda do celular: "19hs, hora de chegar em casa e dar uma surra nos meus filhos!".
Pais bêbados ou drogados... ou só os que descontam suas frustrações na carne de seus filhos. Embora esse tipo de comportamento não seja o mais comum, ele existe e é mais frequente do que gostaríamos de acreditar.

Você me acompanha e sabe que eu defendo o final do porte de armas por civis. Por coerência, você pode achar que eu defenderia o fim das palmadas em crianças, também. Não, não defendo.

Há uma fase na vida de todos nós, que nós desafiamos os limites. Essa fase começa ali quando estamos aprendendo a andar e vai até o final da adolescência (lá pelos 25~28 anos).
Testamos até onde conseguimos andar. Até onde conseguimos pular, chutar uma bola, correr... Testamos até que horas conseguimos ficar acordados, até onde podemos nos molhar antes de ficarmos resfriados. Quanto calor e quanto frio aguentamos. Testamos os sabores, testamos as texturas e testamos os sons.
E, definitivamente, testamos as regras. Testamos nossos pais. Testamos até onde podemos transgredir.

Não precisa ir longe. Olhe para a sua própria vida. Quantas coisas você fez só para ver até onde chegaria?

O ser humano nasce preparado para viver na selva, não na sociedade. Somos livres por natureza. Mas, para vivermos em sociedade, precisamos nos submeter ao pacto social. E é dever dos pais condicionarem os seus filhos às regras.

Vamos ver se eu consigo explicar: Seus filhos não são seus brinquedos. Seus filhos não são a sua resposta para ter amigos nessa vida. Muito menos seus filhos são seus objetivos nessa vida. Seus filhos não são sequer seus.
As crianças pertencem à próxima geração, à sociedade e a ela própria.

Você cria pessoas para o mundo, não para você.

Toda criança deve saber obedecer as regras, antes de ser apresentada à sociedade. 

É muito bom lembrar aos pais que a vida vai cobrar dos seus filhos. Quer vocês queiram ou não. A vida exigirá e seu filho terá que responder à altura. E se ele não estiver preparado para enfrentar a vida, a vida vai bater nele. E vai bater muito. E vai doer demais no seu filho. A decisão é sua: ou você ensina o seu filho, ou ele vai se ferrar na vida.

Portanto, meu ponto de coerência entre aborto X porte de armas X palmadas em crianças X educação é "o melhor para a sociedade". E o caso das palmadas é o ponto-base para que possamos desenvolver as liberdades individuais e, inclusive, mudar a minha opinião sobre aborto e porte de armas, aqui no Brasil.
É bom lembrar que eu sou um liberal. No meu mundo ideal, as pessoas não precisam que lhes diga o que fazer. Mas, no Brasil, as pessoas não são educadas desde cedo. Temos pais que não ensinam corretamente aos seus filhos. Não impõem limites. Não desenvolvem o senso de certo e de errado, não apresentam o conceito de crime e castigo... Criam pessoas incompletas. Que vão para escolas despreparadas, com currículos antiquados e métodos de ensino altamente questionáveis, operados por professores selecionados por salários de fome.

Essas crianças não conseguem discernir certo de errado. Não podemos dar liberdade para uma criança dessas decidir sobre vida e morte de um feto ou sobre a operação de uma arma de fogo.

Eu não defendo que os pais batam indiscriminadamente em seus filhos. Mas os pais devem saber impor os limites. Deixar bem claro o que não pode ser feito e o porquê. Caso a criança passe do limite, punições brandas devem ser ministradas inicialmente. Tempo sem TV, Vídeo-Game ou computador. Tempo sentado em uma cadeira, de castigo. Negar a compra de algum brinquedo, de alguma guloseima. Há pais que criam tabelas de descontos em mesadas, para cada coisa errada que os filhos fazem... Mas, se nada disso adiantar e o imberbe continuar transgredindo os limites, uma boa surra é mais do que necessária.

Novamente: saibam dosar a força da surra. Palmadas na bunda podem não parecer nada para você, mas é muito para a criança. Ninguém aqui está defendendo lesões internas, ossos quebrados ou concussões. Mas várias gerações apanharam com cintos, varinhas de marmelo e havaianas. Gerações e mais gerações de pessoas que sabiam os seus limites. Que sabiam se colocar na posição da outra pessoa. Gente que soube ser cidadão de verdade, quando adulto.

Quero fazer um comentário rápido.

Falei tudo isso para um pai. E, ao encerrar meu discurso, deixei claro que não quero ter filhos. Ele tentou desqualificar a minha opinião dizendo que, já que eu não tenho e não quero ter filhos, minha percepção sobre o assunto fica prejudicada.

Amigo.

1 - Seu argumento é tão estúpido quanto o das feministas que dizem que os homens não têm direito de opinar sobre assuntos femininos, por não terem útero. Você desqualificou minha opinião como se eu não tivesse sobrinhos, como se eu nunca tivesse convivido com filhos de amigos, vizinhos, parentes, etc... Como se bebês e crianças fossem um mundo totalmente à parte da minha vida. Pior: você está desqualificando a capacidade dos livros passarem informações... ou a minha capacidade de entendê-las lendo-as.

2 - É sempre bom lembrar que somos máquinas químicas. Nossos pensamentos e atitudes são resultados diretos da química do nosso corpo. Das nossas proteínas, neurotransmissores e hormônios. Hormônios, estes, que têm suas quantidades drasticamente alteradas durante a paternidade, tanto no homem quanto na mulher. O "cheirinho de bebê" faz com que toda uma série de substâncias hajam no corpo do adulto. Homens ficam menos violentos, mais dóceis, delicados e atenciosos. Desculpe ser tão direto, mas é você, amigo, que não está nas suas faculdades mentais normais. Eu? Eu continuo o mesmo desde que acabou minha puberdade. Você (e todos que passam pela mesma experiência paterna ou materna) que teve seus hormônios mexidos completamente. Você não nota, mas essa "coisinha fofa" que você criou faz com que você pense, avalie as coisas e faça coisas que não faria, se não tivesse filhos.

Nós usamos advogados na sociedade moderna, que é para evitar que a emoção das partes interfira na argumentação e na decisão dos casos levados até a justiça. Por isso que as pessoas com envolvimento emocional não podem ser levadas em consideração em casos capitais. As vítimas sempre serão a favor de penas extremas para com seus agressores. Assim como quem é pai sempre vai achar o seu ranhento a coisa mais linda do mundo (uma dica: não é).

No fim, os pais devem ter consciência de que estão fazendo o trabalho mais difícil e ingrato do mundo: criar um cidadão. O processo não possui receita e cada criança exige métodos diferentes. E isso exige o máximo do bom senso humano, não uma lei que lhe diga o que pode ou não fazer..