quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Choveu! Salve-se Quem Puder!


Choveu na madrugada de segunda para terça, aqui em Novo Hamburgo, a cidade onde moro.

Uma frente fria invadiu o local, onde estava instalada uma massa de ar quente. Rajadas de ventos fortes e chuva pesada derrubaram os galhos mais fracos, árvores menores e telhas mal fixadas. Alguns pontos da região amanheceram parecendo que foram bombardeados. Lama nas ruas, aparente destruição de construções e vegetação.

Mas eu não quero que esse texto foque nestes pontos. Isso é só a contextualização do cenário geral. O plano de fundo que você deve imaginar na foto do problema maior que eu vou te descrever.

Eu já comentei que a energia elétrica é a força motriz da nossa sociedade moderna. Aliás, George Carlin tem um vídeo excelente, mostrando como o colapso desse frágil sistema pode destruir - em pouquíssimos dias!!! - nosso delicado equilíbrio social.

Nos anos noventa, o Brasil fez (de forma atabalhoada) uma coisa necessária: privatizou serviços essenciais.
Amigo, desculpe se você é comunista, mas a iniciativa pública não é capaz - sequer - de regulamentar e fiscalizar. Agora, imagine fornecer o serviço??

É, amigo. Quem é novo talvez nem saiba, mas quem é mais antiguinho, como o seu escriba aqui, lembra do tempo que você precisava entrar em uma fila para adquirir uma linha de telefone fixo. E, depois de algum tempo de espera (que, dependo do lugar, poderia ser de meses!), você pagava o valor de um computador, pelas ações da linha telefônica.

E pensar que, hoje, ficamos brabos se contratamos uma linha de telefone e temos que esperar mais que 24 horas para termos o serviço instalado...

E um dos serviços que foram privatizados é justamente o de energia elétrica.

Vamos deixar claro: embora o sistema de geração e distribuição de energia elétrica tenha sido muito bem planejado aqui, no Brasil, sua execução não comportou a ampliação urbana desordenada.
Explico.
A energia elétrica não é que nem água, que flui pelos canos por pressão da água que vem atrás, bombeada. A energia elétrica, além de ser gerada, precisa ter sua corrente alternada a cada certa distância, para que consiga alcançar a todos os consumidores. Então, não pense que fornecer energia elétrica é como um SimCity, onde basta colocar postes ligados à uma hidroelétrica, que já está tudo perfeito. Não. Existem cálculos para determinar o lugar das subestações, transformadores, disjuntores, caixas de controle, etc...

E isso tudo demanda investimento. Investimento que as empresas publicas não estavam mais dando conta de oferecer.
Sim, a iniciativa pública oferecia um serviço precário, a um preço caro.

Ao ser privatizado, o setor de distribuição de energia ganhou regulamentações: de acordo com o investimento em infra-estrutura que a operadora efetuar, o governo permite que as taxas ao consumidor aumentem.

Parece o plano perfeito: Se a operadora gastar bastante, a sua região recebe linhas de distribuição mais sofisticadas e, por isso, o consumidor (que está sendo bem atendido) paga mais.

Todos ganham.

Só que existem três problemas nesse plano:

1 - As empresas concessionárias são estrangeiras.
E, como a energia elétrica é força-motriz do desenvolvimento moderno, não duvido nem um pouco que lobbys internacionais ofereçam muito dinheiro para que essas empresas mantenham nosso sistema sucateado.

2 - Brasileiro é "bicho-triste".
As empresas são internacionais, mas os trabalhadores são brasileiros. E a nossa cultura de "não é problema meu" e "faz o teu que eu faço o meu" acabam gerando massas de profissionais que mal cumprem suas ordens de serviço de urgência. Sim, os administradores internacionais mal têm interesse em "apagar os incêndios" do dia-a-dia, e são beneficiados por trabalhadores que se acomodam nessa filosofia e cagam e andam para a sua região e para o seu país.

3 - Os políticos, pessoas oriundas do povo "bicho-triste".
Quem deveria fiscalizar se está tudo bem está mais preocupado com o próprio bolso. Com as maracutaias e artimanhas eleitoreiras, para garantirem mais quatro anos de boquinhas.
Assim, os órgãos fiscalizadores são recheados de aspones e cargos de confiança, que prontamente entram no jogo e aceitam qualquer trocado para calarem a boca e deixarem a situação como está.

Esses são os ingredientes básicos para a receita do cenário em que estamos.

Como falei lá no início do texto, choveu na minha cidade, região e Estado. Uma pequena tempestade, das que acontecem todos os anos, por aqui. Evento que já estamos tão acostumados, que já deveríamos estar preparados para todas as contingências que ele traz. Mas, por todos os motivos citados, nunca estamos.

Hoje, mais certo do que as tempestades que nos atingem, é a falta de luz ao sinal do primeiro raio. Nosso sistema elétrico é um lixo e cai na primeira eventualidade que se apresenta.

Então, acontecem coisas como o caso que tive com a AESSUl, em 2010. Uma tempestade de menos de duas horas deixou a cidade inteira sem luz. No lugar onde morava (a menos de dez minutos do centro), fiquei DOIS DIAS sem energia elétrica. Sorte que era fevereiro e banhos frios configuravam mais em alívio do que tortura.
Depois de dois dias sem energia elétrica, os reparos foram tão mal feitos (verdadeiras gambiarras), que a tensão que entrou na minha casa era mais do que o dobro da normal. 

O Resultado? TUDO o que estava PLUGADO na parede, queimou. Instantaneamente  Sem nem precisar ligar. Desde Lâmpadas, aparelhos televisores, DVD's, notebook e toda sorte de coisas que eu não removi o plug da parede.

A AESSul enrolou tanto e pediu tantos absurdos para restituir o dano, que eu até desisti de perder horas e horas de trabalho, para ir atrás. Faca na ferida, absorvi o prejuízo. Saco.

E isso aconteceu outras vezes. Nesse ano, foi a fonte do Note.

Fico imaginando o nível de palermice que nos assola, para acharmos isso normal. Sabemos que acontecerão tempestades. Porque diabos as concessionárias trabalham só reagindo aos desastres? Porque não tomam medidas preventivas? Porque não enterram os fios mais vitais? Porque não protegem e aterram os equipamentos mais delicados?

Amigo, não ter energia elétrica em casa é inconveniente. Mas imagine uma indústria, comércio ou um empreendedor individual sem energia! É dinheiro que as pessoas estão deixando de gerar. Estoques que apodrecem e se perdem. É o caos absoluto acontecendo, destruindo a prosperidade, diminuindo a previsão do PIB e fazendo com que VOCÊ fique um pouco mais pobre.


Sou do ramo de TI. A energia elétrica é um dos insumos mais básicos do ramo. Sem energia, os computadores não funcionam e o negócio simplesmente pára. Será que as concessionárias não poderiam ser responsabilizadas por esses prejuízos, já? Já são mais de dez anos em que poderiam ter efetuados obras o suficiente para se precaverem aos eventos naturais recorrentes...