quarta-feira, 5 de junho de 2013

Super Interessante

Essa semana vi duas matérias na edição on-line da revista Super Interessante.


A primeira mostrava que houve um erro de método na experiência que estudou as consequências do vício em seres vivos.
Lá pelos idos dos anos 60, um grupo de cientistas utilizou ratos albinos (aquele branquinhos que usam em laboratórios) para testar o que aconteceria com viciados em drogas. A experiência utilizou um grupo grande de ratos, colocados em gaiolas individuais, com comida, água e um fornecimento contínuo e ilimitado de morfina.

O resultado? Quase todos os ratos ficaram viciados em morfina. A maioria ficou tão viciada que só consumiu morfina, esquecendo-se de comer ou beber água. O resultado (óbvio) é que mais de 90% das cobaias morreram em pouco tempo, por causa do vício em morfina.

A conclusão da época? Que qualquer vício levava os organismos à debilidade completa, com chances quase certa de matar o viciado.

Essa conclusão foi utilizada como base para a formação da opinião geral sobre as drogas e para a criação de praticamente todas as políticas anti-drogas.

Acontece que...
Um outro grupo de cientistas questionou os métodos aplicados nessa experiência.

Esse novo grupo utilizou as mesmas quantidades de ratos albinos, comida, água e morfina, que o grupo anterior usou. Só que, desta vez, esse novo grupo não segregou os ratos em gaiolas individuais. Os ratos foram colocados em um grande aquário de vidro, com rodas, labirintos, brinquedos e toda sorte de objetos que sabemos que os ratinhos gostam de manipular. Sim, praticamente um gigantesco parque de diversões para os ratinhos albinos.

O resultado dessa nova experiência?

Quase todos os ratos experimentaram a morfina. Alguns até fizeram o uso da morfina, mas deixaram de consumi-la depois de algum tempo. Só um grupo pequeno de ratos fez uso contínuo da morfina, podendo ser considerados "viciados". Nenhum morreu devido ao vício.
A maioria dos ratinhos preferiu o convívio social, os exercícios divertidos e, talvez por isso, consumiam mais a comida e a água.

Se cruzarmos as duas experiências, podemos notar que a diferença, como diz o título da matéria da Super Interessante, é que "a diferença foi a gaiola". O isolamento de seres sociais faz com que haja abatimento, solidão e até a depressão nos indivíduos. 

Aí entra a segunda matéria que eu li, também na Super Interessante.


Segundo essa segunda matéria, o isolamento do indivíduo faz com que haja menos produção de mielina no cérebro. A mielina é a substância que "fecha o circuíto" entre os neurônios. E ela estimula a produção de dopamina. A dopamina é a substância que o cérebro produz para gerar o prazer em seres humanos. Prazer, este, ao qual somos naturalmente viciados.

Pessoas que não possuem contato social ficam mais burras, sentem-se abatidas, solitárias e deprimidas.

Piora: apesar da mielina voltar a ser produzida depois de um tempo de falta de convívio social, esse período sem a mielina é prejudicial ao indivíduo. Ou seja, depois de ficar isolado, o indivíduo até consegue voltar ao convívio social e se satisfazer com isso, mas o contato não é tão intenso e satisfatório quanto poderia ser, caso não tivesse havido o período sem a produção de mielina.

Então temos que viciados em drogas são pessoas que simplesmente não tiveram perspectivas em determinado momento da vida. Essa falta de perspectivas provocou o abatimento, a falta de interesse no convívio social e a consequente falta de projeção no grupo. O indivíduo se isola dos demais, iniciando o processo de diminuição de produção de mielina, até que esta seja cessada. Como o indivíduo ainda é viciado em prazer, é natural que encontre algum substituto à dopamina. Caso tenha acesso à drogas, este é o momento que ocorre a substituição.
Sem maiores perspectivas de vida, o próprio organismo acredita que a única fonte (e mais fácil) de prazer é o vício. Pela facilidade de obtenção de prazer concentrado que a droga proporciona, até os pequenos prazeres da vida (como comer um prato bem preparado ou tomar uma bebida refrescante e gostosa) parecem não ter nenhuma recompensa. Em casos extremos, nem o ato sexual libera uma quantidade de dopamina tão grande quanto a que a droga proporciona.

O indivíduo tornou-se um escravo, vítima direta dos processos químicos envolvidos no consumo de drogas.

Eu, que era a favor da criminalização do uso de drogas, passo a entender o processo completo, agora.

Antes, eu imaginava que a repressão e isolamento de usuários acabaria com o processo de compra e venda de drogas. Talvez esse processo até funcione. Mas, tendo em vista o aspecto mecânico da química de obtenção de prazer, este processo seria muito penoso para o usuário. Usuário que, no final de contas, é uma vítima.

Tendo em vista que observamos novas evidências, as conclusões devem ser alteradas.

Começando pela reavaliação do pensamento geral, o usuário de drogas deixa de ser uma vítima clínica para se tornar uma vítima social. Alguém que foi conduzido para as drogas por fatores sociais de isolamento, incapacidade de integração e, principalmente, falta de oportunidades e perspectivas.

Esse conceito faz com que as ações para combater o problema das drogas tenham que ser revistas. 
Hoje, as políticas públicas estão orientadas para combater a venda de drogas e em terapias para os usuários que quiserem largar as drogas. Acredito que nem preciso dizer que esse processo não está funcionando.
Tendo em vista as novas conclusões, o foco das ações anti-drogas deve ser movido do combate para a prevenção. Ações que devem começar em casa. Em lugar de manter as crianças confinadas, os pais devem estimular o contato entre os pequenos. Jogos, parques, reuniões, visitas... Deixar as crianças brincarem, formarem seus grupos e lutarem suas próprias batalhas.

Eu acredito que, hoje, são exercidos três métodos fundamentais de criação dos filhos. 
Existem poucos "adultos de verdade" no mundo. A maioria dos "adultos" são "crianças compridas", satisfeitas por terem saído da casa (e principalmente das regras) dos seus pais, trabalhando o suficiente para poderem sobreviver.

Então, ainda existem crianças sendo criadas pelos (poucos) "adultos de verdade", por aí. Crianças que ocupam o "lugar de criança" na família. Que é submetida à regras e horários. Que deve respeito aos seus pais. Que recebe educação de criança, com hora para estudos, brincadeiras, atividades paralelas, etc... Em resumo, ainda existem adultos que estão criando "gente de verdade". Tratando as crianças como as crianças devem ser tratadas.

Existem os pais super-protetores. Aqueles "adultos de mentira" que não tiveram filhos; colocaram no mundo "bonequinhos de brinquedo", e garantem que os seus filhos "tenham tudo o que o meus pais não me deram". Você reconhece esses pais submissos só de vê-los nas ruas com seus filhos. Crianças manhosas, choronas, mandonas. Fedelhos que gritam, esperneiam, correm, esbarram e até batem nos seus pais e em outras pessoas! Crianças que "aprendem" desde cedo que podem ter o que quiserem. Mesmo porque seus pais fazem questão de se apressarem a levar tudo o que a criança pede... E quando essa criança começa a socializar... Bem você imagina o (péssimo) comportamento de um grupo desses gremilins em pele humana, em um jardim de infância, por exemplo. Todos querendo que as suas vontades prevaleçam. Sequer compreendem a existência do conceito de "respeito ao próximo".

Fico imaginando como (não) é assimilada a primeira experiência de rejeição, no cérebro de uma criança dessas...
O grilo da consciência dessas crianças têm que falar alto demais para serem ouvidos. Talvez só isso transforme essas crianças em adultos.

Do outro lado, existem os pais "tô nem aí". Pessoas que colocam os filhos no mundo e deixam-nos "se criarem". Não impõem regras, não dão limites, não dão atenção, não dão tempo, não dão a mínima. As crianças vão ficando sem orientação. Não sabendo da importância da escola, abandonam os estudos. Os pais, claro, não dão a mínima para isso. Como pouco se importam onde a criança está ou o que ela anda fazendo. Em resumo, a "criação" é tão frouxa que os pais simplesmente não notam que fizeram um desfavor à sociedade, ao criarem verdadeiros pivetes.

Se essas crianças tiverem uma boa índole inata, ainda há chance de ter um cidadão "cabeça de vento", "assistidor de Big Brother".
Agora, se o grilo falante faltar... As crianças viram pivetes. E os pivetes se transformam em marginais de primeira.

Marginais de um lado, psicopatas de outros. Pouquíssimas pessoas com moral, ética, bons costumes... ou só bons modos e educação em público, mesmo...

Muita gente atrás do status-quo que o dinheiro oportuniza, lutando para "ter" mais do que os outros... (Tendo a certeza que a roupa de marca vai fazê-los "ser" mais do que os outros... pfff...)

Muita insatisfação. Muitas pessoas cheias por fora e vazias por dentro. Amizades descartáveis, falta de infância. Ausência de valores em comum, que balize o contato social. Não é a toa que desde a década de sessenta as drogas são um dos problema mais graves das sociedades...

E imaginar que essas crianças marginais e psicopatas já estão sendo... avós! Que valores tu espera que eles tenha passado para seus filhos... e quais valores esses filhos passaram para os netos? É a "Idiocracia" instituída, acontecendo sob nossos narizes.

Nos dois casos, não há mais o que esperar da sociedade. A instituição da família "evoluiu" para algo incapaz de sustentar a educação básica. Nossa sociedade falhou miseravelmente e está na hora de separar quem consegue ter uma vida decente, dos que estão perdidos no meio do caminho.

A primeira coisa que o Estado deve fazer é instituir uma educação de qualidade. Nos moldes do que eu falei em um outro post, dias atrás. Educação séria, atualizada, voltada para a realidade. Primeiro encontram-se os interesses da criança. Mostram-se os problemas relacionados com as áreas de interesse. Depois mostra-se o conteúdo. O que a humanidade já fez para solucionar o problema. Assim o conhecimento se torna atrativo. Mesmo que as primeira gerações formem apenas meninos construtores de carros, músicos e esportistas e meninas dançarinas de funk, cabeleireiras e artistas de TV. Eu sei, é triste. Mas esse é o nível médio do interesse das crianças, adolescentes e de muitos adultos, brasileiros. Só superficialidade e banalidade. Paciência.

Mas se fizermos isso, teremos como incutir um pouquinho mais de cultura nas pessoas. Formar a base. Ensinar a pescar, ao invés de dar Bolsa Família ou isentar IPI.

Depois disso, nossas cidades precisam ter mais pontos de contato de pessoas. Não só danceterias com música alta ou espaços privados em geral. Parques. Campeonatos entre comunidades. Cais de portos, festas públicas, eventos de culturas gratuitos. Isso existe em grandes capitais, mas nas pequenas cidades falta. Locais de encontros, onde turmas podem se fundir, pessoas podem se conhecer. 

Isso, aliado às perspectivas de trabalho e evolução financeira oportunizados por uma educação mais elevada, geram mais satisfação das pessoas para com suas vidas. E, lembrando lá do início do texto, quanto maior é essa satisfação, mais longe ficamos das drogas. Aliás, da violência de modo geral, também. A sociedade fica mais organizada, pacífica. E não é utopia: acontece em diversos países, hoje, no mundo.

Basta tentar.