quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Possessividade e Ciúmes: Não há razão para ter

Eles não se viam há quase duas semanas.

Se namoros à distância são legais na hora de matar a saudade... na hora de criar, cultivar e fazer crescer a saudade, relacionamentos à distância são um saco.

Enfim, ele chegou. Eles tinham uma festa para ir naquele final de semana. Festa de aniversário de um amigo dela. Ele não sabia ao certo se conhecia alguém que estaria nessa festa. Mas, com ela do lado, seria uma noite especial. Com certeza.

Passaram a tarde empenhados em matar a saudade e em se arrumarem para a festa. Às vezes uma atividade atrapalhava a outra, às vezes uma atividade estragava a outra. Mas os dois tinham a infinidade da tarde para se aprontarem para a noite...

Chegada a hora da festa. Foram até o prédio aonde aconteceria a festa. Bairro chique, rua chique, prédio chique, portão chique, jardim chique, porteiro chique, hall chique, elevador chique até a cobertura... chique!

Abriram-se as portas do elevador e a decoração remontava a primavera-verão, com flores e palmeiras... Metade da cobertura possuía uma área fechada, a outra metade era reservada para uma imensa piscina, ao ar livre. O cenário só contrastava com o frio do inverno que havia ficado ali do lado de fora.

Ela deixou o casaco com ele. "Amor, guarda para mim, eu vou ali dar oi para os meus amigos!"

Ele não sabia o que fazer com o casaco dela. Ele ficou segurando o casaco ali, na entrada, até que um funcionário perguntou se queria que o guardasse. 
Ele esperou por ela. Ela conversou com um amigo. Com outro. O riso fácil e angelical dela sempre derreteu o coração dele. E, agora, ele estava vendo o sorriso dela atrair todas as atenções da festa. A festa ocorria aonde ela estava. E cada vez mais pessoas se juntavam ao grupo que ela havia formado através da sua alegria.

Do bar, ele via rapazes e meninas se empurrando para entrar no grupo formado à volta dela. "Eu é que não vou me meter lá..."

As doses e as horas passavam. E todos se divertiam na festa, menos ele. De "é normal!", ele passou a pensar "porque ela não vem pra perto de mim?". Para pensar "porque ela não me chama?" foi um passo. A alegria deu lugar à frustração. Mas foi quando uma outra menina perguntou para ele "quem é você?", que a frustração começou a dar lugar para a mágoa. Ele respondeu: "Eu sou o namorado dela..." - apontando para as bochechas mais vermelhas, para o sorriso mais branco e para os olhos mais brilhantes que já foram vistos na história desse mundo. Foi então que a mágoa deu lugar ao ressentimento: "Dela? Nossa! Eu não sabia que ela tinha um namorado..."

Vocês não sabem, mas ele chorou baixinho e sozinho, no bar, naquela noite.

Ela fez o revesamento completo, cedendo cerca de dez minutos para dar "oi" para cada um dos cerca de trinta convidados da festa...

E ele seguia sozinho no bar, só olhando à distância tudo o que acontecia. A frustração, a mágoa e o ressentimento fizeram com que ele passasse de um "essa é a mulher da minha vida!" para um "quando ela falar comigo, eu vou acabar tudo!"

Passava das quatro horas da manhã quando ela chegou perto dele. "Amor, pega meu casaco, vamos embora?"

Com a cara mais fechada que ele conseguiu encontrar, pegou o casaco. Chamou um táxi. Enquanto desciam, ela tagarelava algo sobre o que havia descoberto nas conversas daquela noite.

O táxi chegou. Ela não parou de falar até chegarem na casa dela. Desceram. Entraram.
"Eu não acredito no que tu fez comigo." - Ele falou. "Então você me esconde de todos quando eu estou longe e me evita quando eu estou perto?"
"Do que você está falando?" - Ela ficou surpresa, seu olhar não escondia que notara uma dor profunda vinda dele.
"Seus amigos não sabiam nem que você namorava. E você não olhou para mim na festa! Deixou-me mofando no bar!" - Ele estava preparando as frases para terminar tudo. "Você deu pelo menos dez minutos para cada um naquela festa... E para mim você não deu um mísero segundo. Não me envolveu. Não fez questão de me mostrar para seus amigos..."

"Amor... Eu dei dez minutos da minha atenção para cada um deles, nessa noite. Mas você não está notando que eu voltei para casa contigo. Que eu estou aqui contigo. Que eu te dou horas e horas da minha vida... Se você somar todo o tempo que eu dou para todas as outras pessoas, não chegará à metade do meu tempo que eu sempre quis te dar, que eu estou querendo te dar agora e que eu vou querer te dar até o final da minha vida..."

Ele não sabe se foi desarmado pelo novo ponto de vista que inundou a sua mente, naquele momento, ou pelo abraço que berrava "me desculpe, é meu jeito, não notei que te machuquei, me perdoa".

Ele entendeu naquele momento. O mundo não precisava ficar sabendo dos dois. E ela era uma pessoa independente que havia escolhido ficar com ele, porque ele era especial para ela. E, enquanto ele cuidasse de si próprio para ser bom o suficiente para atrair a admiração dela e cuidasse dela o suficiente para que ela se sentisse segura do lado dele, seria ele quem estaria com ela aonde realmente importa: no seu coração.

Naquele momento ele notou para aonde deve redirecionar toda força do ciúmes, da mágoa e da frustração. Daquele momento em diante, sempre que esses sentimentos apareciam, ele direcionava os ímpetos para compreender aonde ele estava errando. Aonde ele poderia melhorar. Aonde ele deveria agir. O que ele poderia fazer para que os olhos cor de mel dela o olhassem com mais ternura, como ele sempre quis.

Naquele instante ele entendeu que ele errou na festa. Se ELA era a pessoa mais especial da festa, ELE era a pessoa mais especial para ELA. Se ele tivesse ido até perto dela, ele não seria mais um que disputaria espaço e a atenção dela. Ele seria posto em um pedestal, seria apresentado, seria enturmado... O centro da festa giraria em volta dele.

Isso passou-se muito tempo atrás. Mas até hoje ele se pergunta no que ela pensou durante aquela festa. Talvez... Ela tenha ficado mais magoada com ele, do que ele ficou com ela. Talvez ela tenha irradiado tanta alegria só para chamá-lo para perto dela. Talvez ela tenha se sentido sozinha e abandonada por um namorado que morava longe e que, quando esteve perto, decidiu se isolar da festa, ir para o bar e beber a noite inteira longe dela.
Talvez ela tenha sido um ser tão superior que, até em um momento em que ela estava super magoada e ele estava sendo muito agressivo, ela deixou todos os sentimentos bons dela formarem as frases mais bonitas do mundo, que resolveram tudo no espaço contido entre duas batidas de dois corações apaixonados...