quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Ritos de Passagem Modernos

"Ou você é parte da solução, ou você é parte do problema."

Oi amigo. Tudo bem contigo? Comigo as coisas continuam o mesmo de sempre. As ideias continuam brigando na minha mente. E me surpreendendo sempre.

Outro dia, por exemplo, estava olhando um documentário na TV. Esse documentário apresentava a vida de meninas africanas. Elas tinham que passar por um rito de passagem para provarem que são mulheres e que já poderiam casar. O rito? Elas eram obrigadas a tatuar as bochechas com riscos e pontos, ali perto dos dez anos de idade. E a tatuagem era feita do modo mais primitivo que você possa imaginar: uma agulha molhada em tinta de origem natural, perfurando a pele da criança. Se o relato já parece ruim, ver a menina sentada no chão poeirento sento torturada por um adulto foi péssimo. Ver aquela menina sendo tatuada só não deve ter sido pior do que ser aquela menina e estar sendo tatuada por motivo tão primitivo.

Mas foi nesse "motivo tão primitivo" que eu parei. Automaticamente, policie-me. Será que o meu julgamento está correto? Passei a verificar a nossa sociedade ocidental, dita evoluída. Será que nós, também, não passamos por "ritos de passagem"?

Bem, passei os olhos em cada adolescente que eu conheço. Inclusive (é claro) em mim mesmo. E eu notei que nossos adolescentes têm, em quase sua totalidade, uma mesma característica. E, quando essa característica é superada, a sociedade passa a tratar o indivíduo como adulto.

Diga-me, amigo, se alguma vez na vida você deixou de fazer alguma coisa por falta de certeza de como ela deve ser feita. Alguma vez você preferiu "não mexer por não saber como a outra pessoa queria que ficasse pronto"? Ou "esperar pela outra pessoa para que ela fizesse do modo correto"?

Se eu estou certo, acredito que você já usou ao menos um desses pensamentos para se esquivar de uma responsabilidade.

Só que, em determinado momento das nossas vidas, parece que o nosso software foi atualizado. Da noite para o dia nós passamos a preferir assumir a responsabilidade de fazer as coisas. Do nosso modo. Mesmo que o nosso modo não seja o que os outros querem. Assumimos os erros que cometemos para aprender a fazer as coisas de modo direito. E, uma vez que aprendemos a fazer as coisas, nós, adultos, não esperamos que outra pessoa nos diga - sequer - o que deve ser feito. "Do dia para a noite" notamos tudo o que deve ser realizado. E, mesmo como toda a preguiça e cansaço do mundo pesando sobre nossos ombros, nós damos o nosso jeito. Deixamos as coisas prontas. Pode até ser que outros adultos questionem nossos métodos ou que adolescentes não compreendam porque o fizemos. Mas o que devia ser feito foi realizado. E o resultado é satisfatório.

Nós, adultos, passamos por este rito de passagem. Somos obrigados a deixar a inatividade e a insegurança adolescentes para trás. Passamos a enfrentar e a vencer as barreiras do dia-a-dia. Uma a uma. Desde as mais insignificantes (como arrumar uma cama ou lavar uma louça), passando pelas essenciais, como firmar contratos e ganhar dinheiro de verdade, até as mais complexas, como fazer tudo que deve ser feito de modo a não atrapalhar aos demais, descobrirmos e disseminarmos novos e melhores métodos e levarmos em consideração todo o futuro e o planeta em nossos processos.

Amigo, dixe-me fazer o parêntese das exceções à esta regra. Os pormenores são importantes, porque não é todo mundo que consegue olhar a ideia principal e imaginar as exceções. Não posso esperar toda essa boa vontade de todos.

Primeiro que eu uso o termo "adolescente" de modo generalista. Sei bem que muitas pessoas de 14, 15 anos já passaram por estes ritos de passagem e são adultos plenos. Mesmo na flor da idade. Assim como sei, também, que temos pessoas de 30, 40 ou mais anos, que ainda mantém-se nessa etapa adolescente da vida.

Muitas coisas acontecem (ou não) na vida das pessoas. E a falta de consciência desse rito de passagem moderno faz com que o mundo não proteja algumas pessoas até a idade adequada, enquanto superprotege outras pessoas, fazendo-as passar da mesma idade adequada.
Adolescentes que engravidam, por exemplo. Meninas de 13, 14, 15 anos, que já têm filhos, acabam se descobrindo como adultas antes do momento ideal. Crianças que nascem em famílias muito pobres e precisam fazer algum tipo de trabalho para ajudar os pais a manterem a casa, também passam pelos ritos de passagem antes do momento ideal. Assim como tantos outros que, por algum motivo que não me ocorra agora ou só por sua própria natureza, acabam desenvolvendo a sensatez mais aguçada antes do momento ideal. São, todos, adultos precoces.
Por outro lado, a superproteção de parentes, cônjuges e da sociedade em geral podem infantilizar um adolescente por tempo demais. Pode, inclusive, fazer com que pessoas que já deveriam ter passado pelo rito de passagem não o façam. E se tornem indivíduos com 25, 30, 40 anos ou mais, sem a sensatez necessária para enfrentar o curso prático da vida adulta ocidental moderna. Obviamente, devem existir centenas de outros motivos para isso acontecer. Entre eles a natureza do próprio indivíduo.

O que importa é saber que o rito de passagem não é exato. Embora aconteça "do dia para a noite", esse momento não é o aniversário de 18 anos de cada um de nós. Alguns já são adultos antes dessa data. Outros morrem décadas após esta data, sem se tornarem adultos de fato.

Mas eu citei muito "o determinado momento da nossa vida" como sendo a passagem pelo rito. Mas... que momento é esse?

Esse momento passa desapercebido por todos nós. Na verdade, ele não acontece "do dia para noite". A transição ocorre durante o desenvolvimento do nosso cérebro e, por isso, é gradativa. Pesquisei um pouco por isso, amigo. Não sei se você já leu sobre, mas o ser humano já tem células nervosas lá na primeira semana de vida (que muitos gostam de chamar de "morula", em vez de "ser humano"). Essas células nervosas vão se multiplicando, se juntando e, fisicamente, só lá no terceiro mês de gestação (como assim "só"?" Eu diria "já"!) cada feto tem um sistema nervoso que pode ser reconhecido como o de um ser humano. Cérebro, medula, nervos... E, melhor ainda, todos controlando áreas do nosso corpo, seja do sistema simpático ou do sistema para-simpático.
Agora vem o interessante: mesmo já tendo um sistema nervoso reconhecível, o ser humano em gestação não desenvolve ele completamente. Aliás, o feto nasce e o sistema nervoso ainda não está completo. Inclusive, se olharmos os primeiros anos de vida de qualquer um de nós, não temos tanta diferença de comportamento em relação a chimpanzés ou até mesmo cachorros. Aprendemos bastante, mas nossas vontades e ações são primais.
Bem, acontece que aprendemos a falar, a andar e a socializar. Mas, mesmo assim, nosso cérebro ainda não está pronto. Em média, o cérebro humano completa seu desenvolvimento somente lá pelos 25 anos de idade. Por isso é tão fácil aprender coisas novas até essa idade. Por isso que as crianças são colocadas nas escolas até esta idade. Por isso que a grande maioria das descobertas e das melhores obras de arte são efetuadas até esta idade. Muitos acham que é por isso que o índice de suicídios é tão grande após os 25. Inclusive de grandes artistas do último século, aos seus 27 anos. E é exatamente por isso que é tão difícil aprender alguma coisa nova após os 30 anos. Depois disso, nosso cérebro - assim como todo nosso corpo - termina a curva ascendente de desenvolvimento, estabiliza e, como toda boa parábola... começa a parte descendente da curva. O cérebro passa a se deteriorar ao invés de se formar. As conexões entre os neurônios passam a ser formados mais lentamente. Ou nem são formados.

Eu acredito que, embora possamos acelerar ou retardar o desenvolvimento da sensatez em indivíduos, ela é um evento fisiológico natural. Algo a ser pesquisado. Como somos máquinas químicas vivas, algum neurotransmissor ou hormônio deve começar ou parar de ser produzido. Ou, simplesmente, a sua quantidade produzida é modificada para mais ou para menos. Enfim, alguma alteração passa a acontecer. E, a partir dessa alteração, o corpo passa a esperar pelas situações para empregar a nova forma de ver o mundo. E, enquanto as situações vão aparecendo e essa nova forma de ver o mundo é empregada, novas conexões entre os neurônios são criadas e o cérebro é "construído" em volta dessa nova arquitetura.

O resultado é que, depois de algum tempo, o indivíduo se vê de forma diferente. Mais maduro, mais responsável. Mais efetivo. Ninguém precisa apontar para ele o que deve e o que não deve ser feito. O indivíduo passa a não precisar que outros lhe indiquem como as coisas devem ser feitas. E os resultados das suas atitudes são sempre satisfatórios. Mesmo que o método empregado não seja o dos outros, o resultado (cama arrumada, pia limpa, roupa pronta para ser usada, tarefa cumprida, cliente satisfeito, meio ambiente mais agradável para todos, recursos preservados para as futuras gerações, etc...) são reconhecíveis por todos à sua volta.

Essa pessoa passa a ter credibilidade pelos resultados obtidos. E essa credibilidade cria um "personagem" em volta do indivíduo. O indivíduo é reconhecido como adulto pleno. E passa a ser tratado como tal.

O indivíduo deixa de ser gerador de problemas e passa a encarar cada problema que encontra como uma oportunidade para desenvolver soluções.

Eu não sei se eu consegui me fazer entender, amigo. Isso - assim como todos os meus outros textos - são só ideias correlacionadas. Coisas que eu consegui observar. Talvez eu tenha visto só a ponta do iceberg. Talvez tenha visto só um lado dele. Se você estiver do outro lado ou consiga ver de um ponto um pouquinho mais alto, consegues me dizer o que eu não consegui enxergar?