terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ao Infinito... E Além!

Nesse último domingo, algo realmente surpreendente foi efetuado. Mais de cinco milhões de pessoas acompanharam ao vivo a subida de Félix Baumgartner em um balão, até a incrível marca de Quarenta mil Metros de altura.

Vamos ver se eu consigo explicar direito esse feito que já é espetacular.
Primeiramente, Félix demorou nada menos que trinta e cinco minutos para chegar aos quase nove mil metros de altura. Nesse ponto, ele teria alcançado o cume do Everest.
Mas vamos pensar por um instante no que isso quer dizer... Você não nota, mas, ao seu redor, existem gases. Nitrogênio, hidrogênio, oxigênio e gás carbônico, além de outros elementos em menor concentração.
Religiosos adoram falar que “não conseguimos enxergar o ar, mas mesmo assim sentimos sua presença”. Amigo, não enxergar as cores dos gases mais abundantes que nos rodeiam é um favor que os seus olhos fazem a você. Assim como o seu corpo estar devidamente preparado para suportar o peso de todo esse gás.
Sim. Gases pesam e o peso deles comprime o seu corpo. Você não nota isso, porque seus músculos são talhados para suportar essa pressão que, por convenção, chamamos de “uma atmosfera”. Quando mergulhamos, nosso corpo recebe o peso da água que fica sobre você, adicionado ao peso do gás que está acima da água. Assim, somamos atmosferas, até que nosso corpo seja comprimido e esmagado pelo peso do ar mais o da água.
Agora, quando saímos do nosso planeta, o que acontece é o contrário. Quanto mais alto, menos gás existe. E, portanto, menos peso. O nosso corpo não está mais pressionado, mas continua fazendo a força “para fora”, para agüentar a pressão que ele está acostumado. Nas escaladas de montanhas, quando alguém sobe muito rapidamente, sente o chamado “mal da montanha”. Os líquidos do seu corpo se transformam em gás, pela falta de pressão. Saliva, lágrimas, urina, sangue... Todos os líquidos “fervem” a temperaturas mais baixas! Para combater o “mal da montanha”, muitos escaladores demoram DIAS se acostumando com a diferença de pressão, para conseguirem atingir o cume.
Mas o Félix demorou 35 minutos. Ok, ele estava em uma cápsula pressurizada. Mas, se você não notou, a cápsula estava a uma temperatura média de 15 graus. E, por mais ansioso que Félix estivesse não havia porque dele suar. Mas Félix – mesmo pressurizado – estava fazendo o seu visor embaçar. Amigo, aquilo ali quase comprometeu a missão, porque era Félix literalmente fervendo por falta de pressão! Devagar, mas fervendo!
Importante frisar que a temperatura desceu muito, até a primeira hora de subida. Os termômetros chegaram a medir -56 graus no exterior da cápsula. Depois da primeira hora, surpreendentemente, a temperatura externa voltou a subir, até se estabelecer em algo próximo dos menos quinze graus célsius.

Minutos de apreensão quando chegamos à barreira de duas horas. Félix e a missão conversaram e chegaram a cogitar em desistir. Para quem não assistiu a tudo, a cápsula possuía um pára-quedas. Assim que o pulo ocorreu, a cápsula liberou o balão (que, por falta de pressão, já estava com um volume ao menos dez vezes maior do que quando partiu da Terra) e caiu, até que o pára-quedas pudesse ser aberto.
Entretanto, os dados foram medidos e Félix e o controle da missão deram sinal verde.

Com mais de duas horas de subida, aos quase 40.000 metros de altitude, Félix pulou.


A primeira coisa que eu quero que você pense é na visão deste homem. Imagine-se, por um instante, na posição dele. Quantas pessoas já conseguiram ver a Terra tão pequenina? Vendo-a flutuar na escuridão silenciosa e fria do vácuo espacial, que a envolve. Tendo que acreditar em tudo o que os livros de física dizem. Medo de entrar em órbita. Medo de queimar na reentrada. Medo de a roupa pressurizada romper e, conseqüentemente, morrer instantaneamente.

Mas, mesmo assim ele pulou.

A queda foi rápida. Quer dizer, nesse momento eu aposto que o tempo foi muito relativo. Para que assistiu, quase cinco minutos de queda não devem ter sido nada, mesmo. Mas para Félix eu aposto que foi uma eternidade.
Félix quebrou o recorde mundial de altitude. Sim, o ser humano já havia feito isso anteriormente. E na década de sessenta. Aliás, o antigo detentor da marca estava no controle da missão.
Félix também conseguiu outra marca: maior velocidade. Ele chegou a incríveis 1.173Km/h, quebrando a barreira do som. Amigos, veículos já se desfizeram, tentando atingir essa marca. Esse homem obteve êxito onde ligas metálicas já falharam.
Isso tudo é claro, sem falar no atrito. Vamos ver se eu consigo te fazer entender o que é atrito. Não existir pressão onde a cápsula estava, significa que não havia matéria. Nem gás. Pensamos que o atrito é esfregar uma mão na outra. Mas eu prefiro imaginar a situação de tentar atravessar as coisas.
Você não atravessa uma parede por causa do atrito. As moléculas da matéria no estado sólido estão tão grudadas umas nas outras, que as suas moléculas não conseguem passar por elas.
Você atravessa líquidos com alguma resistência, porque as moléculas da matéria no estado líquido estão fracamente grudadas umas nas outras. Assim, com um pouco de esforço, você consegue atravessar o líquido.
Já no gás, nosso corpo está preparado para passar pelo meio de suas moléculas fracamente unidas. Por isso achamos fácil nos mover. Mas, mesmo assim, as moléculas de gás estão ali e oferecem resistência. Como a água ou a parede.
Quando um objeto (corpo de Félix) se move muito rápido, qualquer molécula se torna uma barreira. E, quando você tenta passar por essa barreira rapidamente, essa molécula “arrasta” em você, se “esfregando”. E esse “esfregar” (atrito) gera calor. E muito calor gera fogo. E eu estava esperando para saber se Félix, na velocidade do som, iria imolar-se na reentrada. Felizmente, talvez Félix não fosse pesado o suficiente para tanto. Ou sua roupa já estava preparada para esse desafio.

Caso tivesse esperado mais alguns segundos, Felix ainda poderia ter quebrado o recorde de tempo em queda livre. Foi por pouco. Talvez em uma próxima, como brincaram no Twitter...

Agora, é importante falar de um marco que quase ninguém comentou: Essa aventura foi patrocinada por uma empresa privada. Assim como a Virgin, a RedBull pagou para mandar um homem aos limites do planeta Terra. E trouxe-o de volta. Peripécias antes só feitas por empresas estatais (como a NASA), estão começando a ser possíveis para a iniciativa privada.
Isso é a perspectiva de que o capitalismo entre na corrida espacial. E, com isso, certamente ganharemos alguns asteroides, planetoides, luas, outros planetas e até – quem sabe – outros sistemas solares.
Porque não existe o que sacie a fome do capitalismo. E já sabemos que apenas um planeta não será o bastante para a fome de consumismo que o capitalismo nos impôs.