sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Capitão América

Tá bom. Eu tenho escrito sobre filmes assim que acabo de vê-los no cinema. Só que, na verdade, eu gosto mesmo é de fazer outro processo. Não gosto muito de falar de um filme assim que o assisti. Mesmo porque, quando faço isso, ainda estou com o impacto emocional que o filme proporciona. Essa primeira impressão é sempre imprecisa.

Os filmes são histórias gravadas. Gravar uma história ainda é caro. Então, só as melhores histórias ganham as telas. Tá bom. Nem tanto assim, hoje em dia, com todo o aspecto comercial sobre a sétima arte.
Mas, mesmo assim, os roteiros devem ser profundos o suficiente para prenderem o espectador. Foi-se o tempo em que só uma trama era necessária para que um filme fosse bom. Hoje, os filmes possuem várias tramas paralelas e secundárias. São repletos de referências. E, como não poderia deixar de ser, com sentidos e objetivos ocultos em suas entrelinhas.
Logo, eu gosto de “maturar” um filme. Sim, sou do tipinho de pessoa que assiste ao mesmo filme algumas vezes. Tá bom, várias. Ok, eu confesso: muitas. MIB I eu já devo ter assistido pelo menos umas cem vezes (parei de contar quando assisti pela sexagésima oitava vez. Sério). A cada nova oportunidade, gosto de prestar a atenção a algum detalhe da história. Gosto de assistir o filme uma vez para cada personagem que chame a atenção no filme. Pelo menos. Dissecar suas frases, suas ideias. Descobrir em qual momento o personagem fala uma frase-chave, que será utilizada mais tarde na trama. Desvendar a necessidade da construção de cada cena.

Recentemente, fiz isso com o filme “Source Code” (“Contra o Tempo” ¬¬). No momento, estou fazendo isso com “Planeta dos Macacos, a Origem”. E, assim que possível, começarei a fazê-lo com “In Time” (“O preço do Amanhã”).

Mas o filme que mais me surpreendeu depois de algumas repetições foi “Capitão América”.

A construção de Rogers no filme é, por falta de definição melhor, perfeita. Contextualizada, mostra exatamente o porquê que os super-heróis foram criados. Mostra toda a coragem e obstinação – quase doentias – que alguém deve possuir para se tornar um super-herói.
Interessante ver a cena do cinema, onde o franzino Rogers reage contra outro espectador, que estava desrespeitando um filme sobre recrutamento para a segunda guerra mundial. A cena seguinte, de Rogers apanhando no beco desse outro espectador, mostra como Rogers defende o que acredita – mesmo sem as condições necessárias para tanto. Essas duas cenas, por exemplo, só estão no filme para que não achemos Rogers um completo maluco quando ele – já no exército – se joga sobre uma granada, na tentativa de salvar seus companheiros de pelotão. Aliás, só não achamos a cena uma completa maluquice porque foi implantada a tensão romântica com a oficial-mulher-bonita-improvável-de-estar-ali, que seria salva pelo Rogers.

Mas o filme merece todos os elogios por outro motivo. Evidente que houve adaptações dos gibis para a telona. Mas o filme do Capitão América talvez tenha sido o primeiro em que a história dos gibis e a ideologia do personagem foram plenamente preservadas. E isso, amigos, mostra exatamente o pensamento norte-americano durante o período de guerras. De um lado, os políticos, militares e cientistas, utilizando a guerra como alavancas para o sucesso pessoal, econômico e tecnológico. Recrutando jovens alucinadamente, para morrerem em uma batalha contra inimigos insanos. E, bitolado no meio disso tudo, existem jovens manipulados como Rogers, que exclamam justificativas como “Existem americanos morrendo no front de batalha”, para justificarem a necessidade que eles têm de servirem ao seu país.

Mais ou menos como a mensagem da música do Guns and Roses “Civil War”. Os ricos ficam mais ricos durante uma guerra, à custa da morte dos pobres.

Em Capitão América, vemos o nascimento da publicidade como arma estratégica de lavagem cerebral. Alguns minutos do filme serviram apenas para mostrar como é eficiente a difusão de ideias através de ícones.

Passamos o tempo inteiro do filme achando o Capitão América um idiota, o filme bobo e a temática superficial. E ainda temos empatia com o Super-Herói por causa do Super-Vilão impetuoso e maluco. Remove-se a Hidra e o Red Skull, e nem o Nazismo justificaria tanta insanidade por parte dos americanos.

E, mesmo Rogers sendo um completo americanóide alienado E tendo se sacrificado para salvar os Estados Unidos de um ataque da Hidra, a Shield, no final, ainda quer enganá-lo. Continuar manipulando Rogers, para usá-lo como mera ferramenta.

Cada vez que assisto a este filme descubro mais alguma referência. E a cada nova referência, vejo que de bobo o filme só tem os espectadores que acham-no infantil.