quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Cotas para Tudo?

Estou, aqui, reivindicando a minha cota no clube dos bilionários. Porque todo Arthur Luiz e Silva Souza da Silva Tavares merece uma chance de alçar para o clube seleto das pessoas com mais de um bilhão de reais na conta corrente.

Estranho isso, não? Bem, para mim (o beneficiado) é legal. Apesar de eu achar injusto, é muito legal. Mas, tenho certeza, para você é absurdo. Aliás, para qualquer pessoa que não se enquadrar nesse benefício, com certeza é absurdo.


Explico o porquê desse delírio hipotético no início desse texto.


O Brasil anda muito criativo em criar cotas. Se você notar, além das famosas cotas em faculdades, nessas eleições tivemos cotas de gênero. Os partidos foram obrigados a manterem, pelo menos, uma razão de 70% de candidatos de um sexo e 30% de candidatos do outro sexo. Na prática, as mulheres - que se envolvem menos na política - ganharam cotas para serem candidatas. De cada dez candidatos de um partido, ao menos três deveriam ser mulheres.

Já quero dizer que isso é ridículo. Só para começar, isso é uma afronta à todas as mulheres que fazem política no nosso país a décadas. Sim, reconheço que existem mais homens que mulheres na política. Mas isso se inicia no desejo particular de se envolver com o processo e concorrer à cargos públicos.
Forçar a participação de mulheres no processo eleitoral é uma afronta ao trabalho, esforço e memória de todas as mulheres que já se envolveram e defenderam os interesses da população. Só para citar as que eu lembro, Esther, Erundina, Marta, Ideli, Ieda, Dilma, Marina, Manoela, Luciana... e tantas outras batalhadoras, que conquistaram seu espaço com mérito.

Então, toda essa honra é jogada no lixo com essas cotas absurdas. Cotas que geraram, por exemplo, o caso da candidata a vereadora Cristiane Baliza - PTB, de Paraguaçú - MG.

Matéria completa sobre o caso da Cristiane:


O que dizer disso? Que tal começar pela primeira declaração dela:


"Eu aceitei o convite para ser vereadora, mas não entedia nada disso."

Entenda, amigo. Ser candidato significa que você tem convicção que pode ajudar o povo, de alguma forma. É quase um chamado interno, te empurrando para o caminho de lutar pelos interesses do coletivo. Isso é ser político. Não é um "eu estava no meu canto e foram lá me convidar para a brincadeira". Quem quer ser vereador briga, luta, exige seu lugar.

Mas o negócio piora:

"Eu não sei o que acontece, porque em todos os documentos em que prestei contas para o partido, inclusive em notas fiscais, estava esse número (14.999) e ninguém viu nem me falou nada. Não culpo ninguém , mas só queria saber porque deixaram eu trabalhar tanto tempo com o número errado." - Afirmou Cristiane.

Ou seja. Aqui está o completo descaso do próprio partido para com a candidata. Ou tu vai dizer que não tinha mesmo nenhum auxiliar para notar o erro que ocorreu?


E, acredite em mim, muitas mulheres entraram nessas eleições por causa desse mesmo pistolão. Muitas donas de casa entraram só para preencher cotas. E, de quebra, não duvido que alguns homens que realmente são líderes comunitários tenham ficado de fora.


Uma relação entre perder e perder que eu não entendo - de forma alguma - o motivo.

Entendam: não se trata de machismo. Eu mesmo votei na Marina Silva nas últimas eleições. E votaria novamente, caso ela se candidatasse. E não é porque ela é mulher. Mas, sim, porque eu julgo que ela seja uma excelente e preparada pessoa para assumir o cargo máximo da república.
E, por falar em presidência, como podemos dizer que o Brasil é um país machista, em se tratando de política? Eu estou maluco ou o Brasil elegeu a Dilma como nossa presidente?

O problema não é falta de espaço das mulheres, na política. É falta de interesse, mesmo. Porque espaço para bons políticos é o que mais tem, no nosso país. E já houveram muitas mulheres que mostraram toda a foça do seu gênero, na política.

Sinceramente? Parece mais um golpe. Um golpe silencioso, que extorque dinheiro de quem batalha vida, através de impostos, para ceder a quem prefere ter um estilo de vida fanfarrão. Enquanto eu pratico austeridade nas minhas finanças pessoais, me privo de algumas coisas para economizar e comprar meu "celular da moda", o governo acha injusto eu ter o cara pobre não. Aí, vai lá e dá um "celular da moda" para o cara pobre. Com o dinheiro do meu imposto, que deveria voltar em serviços para mim.
E o espertinho que vier me dizer que se o pobre tiver "o celular da moda" ele não roubará o meu, eu já digo que prefiro que deem escolas de qualidade para o pobre. Para ele poder ter um trabalho e aprender a praticar a mesma austeridade que eu. E, assim, conquistar suas vitórias por mérito próprio. O que, certamente, garante muito mais do que só o bem material: garante a dignidade.

Mas isso é difícil. É mais fácil pegar o salário mínimo inteiro e ir gastar com som para o Chevete 79, caindo aos pedaços. E, depois, é claro, ficar mendigando bolsa-isso e cota-aquilo, para o governo que brinca com o nosso dinheiro dos impostos.

Minha única satisfação é que eu tenho certeza que muito poucas mesmo - ou nenhuma - dessas "candidatas-cotas" não se elegeram. 
E as que se elegeram serão apenas massa de manobra do partido, nas câmaras de vereadores. Suas cidades pagarão caro por isso.

Eu continuo esperando a minha cota. Quero saber quando o governo terá pena de todos os Arthur Luiz e Silva Souza da Silva Tavares do Brasil e, por isso, dará uma cota para o hall dos bilionários para eles.