sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Grenalização da Política

Quarta-feira, durante a noite, enquanto o Brasil inteiro estava desesperado pela falta de energia elétrica no estádio argentino onde o “Clássico das Américas” seria disputado, este conviva que vos escreve assistia ao primeiro debate entre os candidatos a presidência dos Estados Unidos.

Começo criticando a não transmissão desse evento importante, em TV aberta brasileira.

“Ah Arthur! Mas para que eu vou perder meu tempo com política Norte-Americana?”

Acreditem, fizeram-me esta pergunta enquanto eu comentava o debate no Twitter.
A resposta é simples: o que os norte-americanos decidem lá na terra deles, cedo ou tarde afeta a vida no mundo inteiro. Se eles decidem “ligar a máquina de impressão de dólares”, o mundo é inundado com recursos. Se eles decidem “parar as prensas”, o mundo entra em recessão. (As últimas frases foram uma analogia.)
A eleição norte-americana afeta tanto o mundo inteiro, que acredito já ser antidemocrático que os cidadãos de outros países não possam participar do processo.

Mas, mesmo você não participando, ver um debate norte-americano é uma aula. Uma verdadeira demonstração prática de como a democracia funciona. De como todos os países do mundo deveriam tratar seu processo político. De como você e eu deveríamos praticar a política.
O debate durou mais de uma hora. Não houve intervalo comercial. Afinal de contas, o evento é importante demais para ser interrompido. O debate possuía regras de horários e minutos. Mas como TODOS estavam REALMENTE interessados no que os candidatos tinham para dizer, o mediador se limitava a não deixar o tema ser desvirtuado. Entenda por um instante: até cada rival estava interessado no que o candidato estava falando. Quando Obama falava, Romney escutava atento não só para poder responder e manter a conversa, mas para, sim, entender o ponto de vista do seu oponente. E quando Romney falava Obama igualmente prestava a atenção. Ambos queriam que o outro terminasse seu raciocínio. Quando um candidato precisava interromper a fala do outro, era porque se fazia realmente necessário. E o interrompido cedia a fala sem nenhum maior problema.

Um verdadeiro show de educação, para o cargo mais importante do planeta.

Bonito ver como ambos os candidatos discordaram e concordaram em ideias, sem parecerem fracos, sem vangloriarem-se sobre o outro e, principalmente, sem, em nenhum momento, iniciarem algum tipo de briga.
Os candidatos colocaram suas ideias para brigar. E, apesar de toda a condição humana, aposto que os dois poderiam sair dali, irem para um bar e continuarem discutindo a noite inteira, no mesmo nível.

Então chegou a quinta. Debate dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre. Enlatado com perguntas prontas. Candidatos querendo o fígado uns dos outros. Mais preocupados em desmoralizar uns aos outros do que, propriamente, em mostrarem seus projetos.

Nessas eleições eu tentei cunhar uma expressão para as eleições de Balneário Gaivota. Mas, olhando melhor a política brasileira, em comparação com a norte-americana, a expressão pode ser usada em qualquer lugar dessa terra “abençoada por Deus”: Grenalizaram a política.
“GreNal” é o maior clássico Gaúcho. Aqui no RS, o filhote não tem outra escolha. Ou é torcedor do Internacional, ou é torcedor do Grêmio. Não existe meio-termo. Não há abstenção. Babacas Pessoas que dizem não torcer por nenhum dos dois são torturadas até que cedam para algum lado. E, independente do lado escolhido, serão eternamente esculachados pelo adversário. A emoção levou o “GreNal” a um nível de fanatismo tal que não há mais razão nas conversas. Pontos idiotas e irrelevantes são trazidos à tona a todo instante, para tentar determinar qual dos dois clubes é melhor do que o outro. Alguns argumentos até mesmo ilógicos e estúpidos são usados...
Reconheceram a característica? É, né? A política do Brasil inteiro é assim. Coisas como “Voto no Ciclano só para o Fulano não ganhar...”. E a Grenalização já está tão introjetada que os próprios candidatos já são Grenalizados. Eles próprios se candidatam sem projetos ou filosofias. Eles próprios já entram em debates prontos para usarem argumentos ilógicos, irrelevantes e imbecis. E, é claro, o povão daqui parece adorar isso.

No fim, acabaria concordando com os norte-americanos em não permitir que outros países votassem em sua eleição, mesmo. Ainda mais esse tipo de cidadão de outros países, como o nosso. Gente que – eu sei – sequer leu até o final desse texto...