segunda-feira, 4 de junho de 2012

Eu sou um velho

Nessa última semana um barulho muito forte me acordou, no meio da madrugada.

Eu acordei no automático, puto da cara. Em um só pulo, saltei de sob as cobertas para minha janela. Abri a persiana em um movimento só.

Nesse espaço de um ou dois segundos em que saí da cama e abri a janela, não pensei nada. Só queria brigar.
Estava pronto para gritar com o motorista que estava - em minha imaginação - acelerando incessantemente o motor estridente de seu veículo.
Pelo barulho, só poderia ser um maldito motoqueiro!
Então a janela se abriu. Eu olhei a estrada - clara - e nada havia. Então notei a origem da claridade no meio da madrugada: uma violenta tempestade de raios estava se aproximando da minha cidade. O barulho muito forte que me acordou era dos trovões retumbantes.

Naquele momento que eu abri a janela e notei a falha no meu processo de raciocínio, eu notei algo espetacular, sobre mim:

Eu sou um velho.

Não fiz trinta anos, ainda, mas me comporto como se tivesse uns cem.

Acho que se eu estivesse aposentado, compraria uma espingarda de sal, para assustar os animais dos vizinhos que entrarem no meu pátio. E jamais devolveria uma bola que ousasse invadir os meus domínios.

Fiquei imaginando o porquê disso. 
Infelizmente, não achei um motivo sensato. Só me restou especular, mesmo.

Em algum momento da minha história o mundo deve ter congelado à minha volta, dando-me a oportunidade de viver alguns séculos.
Talvez tenha sido algum sonho que tive. Ou algum dos que imaginei estar controlando, alegre e feliz, voando.
Talvez tenha sido a bagagem das outras vidas, que a teoria de que piscianos são a última encarnação de uma alma, tenha me trazido. (Não, não acredito muito nisso, não.)


Ou, ainda, todo o tempo que já passei guardado, esperando pelas coisas que nunca aconteceram... Unidos aqueles momentos em que alguém falava algo que eu não me interesso... Ou sempre que alguém me chama a atenção, trazendo de volta a este mundo... Todas estas vezes eu estava repensando pontos de vista, idéias, contextos, validando embasamentos...

Sabe, eu tenho um talento nato em me colocar no ponto de vista alheio. Desde sempre eu soube o que os outros estavam vendo, escutando ou pensando. Pouquíssimos erros. sim, eu sei quando estou sendo chato ou inconveniente. Só não sou muito bem sucedido em imaginar o que pessoas com pouca capacidade de raciocínio estão pensando. Não sou tão criativo assim.

Mas isso tudo me ajuda a pensar horas e horas sobre um mesmo tema. Enquanto toco músicas, enquanto vejo TV, enquanto jogo meus joguinhos, enquanto trabalho... há uma conversa incessante em minha mente, sempre observando cada conceito que exista.

Isso me faz o chato que eu sou. Um alguém que já pensou tanto, em tantas coisas, é um perfeito "ponto final" (pejorativo utilizado pelo Daniel para se referir a mim, certa vez). O modo como as minhas frases sempre encerram os assuntos é assustador e totalmente incômodo.

Talvez, no fundo, as pessoas não estejam se calando por eu estar certo mas, sim, por educação com o velho. Sabe como é: não é bom dar corda, contrariando o chato.