domingo, 17 de junho de 2012

Armas Matam Pessoas


Nessa semana, a esposa de um dos herdeiros do grupo Yoki (grãos, farofas, pipoca, etc...) assassinou o marido. Cortou-o em pedaços, cirurgicamente. Em três malas, retirou o corpo do marido do prédio e livrou-se das evidências.
 
Você me conhece. Aliás, tenho certeza que volta ao Ponto Final, todos os dias, só para ver o que eu sempre busco: o âmago da questão. Sim, porque só encontrando o cerne da questão, podemos descobrir as causas dos problemas e, de uma vez por todas, criar soluções definitivas. Pontos Finais para os males.
É eu sei. Sou bem pretensioso. Quase arrogante. Pena que a imensa maioria do mundo não pense assim. Viveríamos em um lugar melhor, com certeza.

Mas voltando ao caso da picotadora da Yoki, fiquei esse tempo todo só pensando qual seria o cerne dessa questão. O que causou esse assassinato.
Em um primeiro momento imaginei que seria a passionalidade do crime. Mas paixões, ciúmes e as reações decorrentes de sentimentos são próprios do ser humano. Aliás, querer aleijar as pessoas de suas emoções é algo insano – além de impossível. Esse tipo de “solução” é reservada apenas para a fantasia, como a do filme “Equilibrium” (que eu recomendo fortemente).
Então, é normal que as pessoas se apaixonem. O primeiro grande problema é quando as pessoas não possuem respeito nem pelos seus afetos. Quando as pessoas traem. É uma coisa que eu não consigo compreender, sabe? Essa vontade alucinante que muitos têm de ter o máximo de relações, com o máximo de outras pessoas. Não é mais fácil conversar? Se entender? Sim, eu juro que entendo que a população cresceu demais. Entendo que a atração física não é algo que seja regida pelo racional. São hormônios que mandam e, quando você vê, está com desejo de alguém. Só não acho certo que vivamos como animais, focados apenas em satisfazer nossos desejos. Criamos uma sociedade complexa, com sistemas complexos que mantém a nossa cultura, o nosso estilo de vida. E um dos pilares de todo nosso mundo são os núcleos familiares. Um pai, uma mãe, filhos. Quando o casal passa a se relacionar com outras pessoas, perde-se a intimidade. O compromisso se dilui. E algo tão importante quanto gerar um novo cidadão depende do máximo desse compromisso.

Só que... Infelizmente esse problema não é algo fácil de contornar. Dependeria que muitas pessoas mudassem sua cultura, readquirindo valores que a muito não são cultivados pela grande massa.

Então, parto para o segundo problema desse caso. O problema que pode ser facilmente resolvido.
Eu gosto de pensar no propósito das coisas. Definir para mim mesmo o porquê de cada coisa faz com que eu consiga definir o lugar de tudo no mundo – e o meu próprio, por extensão.

E eu vou aproveitar esse caso para falar do propósito de uma arma de fogo.
Você já pensou sobre isso? Para qual motivo cada arma de fogo foi criada?
Vou tentar ser bonzinho. Vou te dar dois motivos que, a princípio, são válidos e bons:

1 – Caçar/se proteger de predadores naturais.
Sim. Matar animais. Grandes predadores. Moleques de apartamento, criados pela avó, podem não achar que isso seja importante. Mas, em muitas regiões do mundo, isso é importante, sim. Em todos os continentes existem grandes predadores que ameaçam a vida do ser humano. Ursos na América do Norte, Tigres na Ásia, Leões na África, Crocodilos na Oceania e até Onças no Brasil! Isso só para citar os mais famosos. Se vasculharmos casos de ataques e mortes de seres humanos por grandes predadores, certamente encontraremos muito mais animais dos quais temos que nos proteger para não virarmos almoço.
Na contramão desses casos, existem muitas pessoas no mundo que dependem de caça, ainda, como subsistência. Arco e Flecha, armadilhas e emboscadas ainda são utilizadas por índios e aborígenes, mas armas de fogo aumentam em muito o sucesso nas caçadas, diminuindo gritantemente o risco de vida.

2 – Esporte.
Sim, existem pessoas que querem competir para saber quem tem a melhor mira. Atiram em pratos, alvos, latas e qualquer tipo de coisa.
Convenhamos: não é necessária uma arma de alta potência para o esporte de tiro. Não é necessária sequer munição letal, de chumbo, para definir quem acertou e quem erro o alvo. Os parques de painball estão aí para provar que armas de ar comprimido e balas de tinta já são o suficiente para a prática de esportes com armas.

Viu como eu fui legal? Dei dois bons motivos para existirem armas de fogo. Ok, nem tão bons assim. No máximo, razoáveis.
Mas não vou conseguir escrever esse texto sem citar o terceiro motivo. O óbvio:

3 – Ameaça/Repressão/Matar.
Armas de fogo foram criadas para esse motivo. Elas servem para isso. Para mostrar que o portador da arma tem mais poder, desencorajando atitudes e reações do outro. Para forçar o outro a efetuar ações de vontade exclusiva do detentor da arma.
Para machucar a quem não se gosta.
Para matar quem se opõe.

Já vejo alguém argumentando:
“Ai Arthur, eu posso ferir outra pessoa com praticamente qualquer coisa! E eu posso matar outra pessoa até com as minhas mãos!”

Verdade. Só que eu estou falando do princípio. Estou falando do propósito.
Vou tomar uma faca como exemplo. Uma faca machuca pessoas. Uma faca mata pessoas.
Só que a faca não foi feita para machucar pessoas. Tão pouco para matar pessoas.
Uma faca possui diversos propósitos. Fracionar objetos faz parte da nossa vida. É uma das ações mais básicas da maioria dos processos que praticamos todos os dias. Cortamos pão, queijo, presunto para o café da manhã. Cortamos as embalagens de produtos que vamos utilizar. Cortamos folhas de papel. Cortamos plásticos, couros, carne, tecidos, metais, isopor, madeira, vidro e o que mais coloquem à nossa frente, em nossos trabalhos. Utilizamos desde a faca de manteiga, sem fio, que “corta” a margarina todos os dias, passando por apontadores de lápis, facas para cozinhar, para comer, para cortar cabelo, para corta unhas, para TUDO!
Eventualmente (até com certa freqüência), alguém deturpa a utilização básica de uma faca e a utiliza para ameaçar/reprimir/matar. Mas o âmago da utilização de uma faca, de uma corda, de um machado, de uma foice e até das próprias mãos é outro! Essas coisas têm razão de existir, que não seja a violência.

Então pra que tu existe, filha?
Agora, amigo, quanto a uma arma? A única razão para que haja um dispositivo que utiliza alta energia cinética para lançar projéteis densos é causar dano no alvo.
Ou seja: Armas foram feitas para ameaçar/reprimir/matar pessoas.
Armas matam pessoas.

Em TODOS os casos onde há uma morte com arma de fogo, se não houvesse a arma na cena, seria muito mais difícil existirem mortos.
Brigas de trânsito, brigas de vizinhos, brigas de marido e mulher. Sem armas de fogo, socos são trocados. Pessoas se engalfinham. O sangue dos vasos mais próximos à pele jorra pela roupa. Narizes são quebrados, talvez até algum dente ou osso. Pode até acontecer que alguém desmaie. Temos um ou dois idiotas para levar para o hospital. Para medicar, tratar. E para processar, depois.
Mas, sobretudo, dois idiotas vivos.

Atente: não estou dizendo que as pessoas iriam parar de se matar, caso não tivessem acesso a armas de fogo. Mas creio que você concorda comigo que é muito mais fácil matar outra pessoa se tivermos um revólver na mão, do que com um pedaço de madeira.

Uma arma de fogo é instantânea. E geralmente resulta em consequências irreversíveis. Com a cabeça quente, no calor da hora, é muito fácil sacarmos uma arma e matarmos uma pessoa. Passa o lapso. Voltamos a nós. Quando começamos a raciocinar já temos um corpo estendido no chão.

Sem falar que, se somente a polícia e o exército pudessem ter armas nas ruas, muitos dos nossos problemas sociais seriam drasticamente reduzidos. Já imaginou uma briga de gangues (ou do tráfico) sem armas de fogo? É, né? Querem se matar na paulada, que se matem! Chega de balas perdidas e vítimas inocentes! Sem falar que a “guerra” acabaria com a primeira viatura policial que chegasse ao local. Multidão dispersada rapidamente.
Se nenhum civil tem armas, nenhum outro civil precisará de armas para “defender o lar”.
No caso da Yoki, se não houvesse dezenas de armas de “colecionador esportivo”, com milhares de balas disponíveis, ali, talvez a manchete nos jornais fosse outra. Talvez estivéssemos discutindo, apenas, mais um caso de agressão domiciliar por motivos passionais.

Nós não podemos controlar as reações passionais das pessoas. Mas, certamente, podemos controlar o acesso das pessoas a instrumentos criados exclusivamente para infligir danos a terceiros.