terça-feira, 28 de agosto de 2012

Conto: Sonho na Segunda Guerra!

Segunda guerra mundial. Eu sou um soldado norte-americano.
Estou embarcando em um caminhão de transporte. Nosso pelotão tem uma missão importante: destruir uma base alemã. O caminhão em que estou começa a se movimentar e eu noto que são oito caminhões, levando soldados e oficiais para nosso destino.

Chegando perto da base, descemos dos caminhões e nos preparamos para a investida. Na nossa frente, está o bosque que nos separa do nosso objetivo. É verão na Europa, logo, as árvores estão vistosas, floridas, frutos caídos pelo chão, trepadeiras cerram a mata. O bosque ocupa um pequeno monte, de modo que os alemães não notaram nossa aproximação. Subiremos a colina por dentro da mata, desceremos a colina em silêncio. Atravessaremos o espaço vazio entre o bosque e a cidade o mais rápido que conseguirmos, para tomarmos a base alemã de assalto.

A base usa alguns prédios de uma vila alemã que já fora palco de outras batalhas. Para se protegerem de ataques pelo bosque, os alemães fizeram uma área com pelo menos quinhentos metros de descampado. Deveremos encontrar vigias, ali. Todos sabem que será perigoso.

Desço a colina por uma trilha estreita. Bons amigos estão me seguindo. Quando chegamos ao último ponto com cobertura, nosso capitão pede que esperemos a ordem para o ataque. Todos ali, abaixados e silenciosos.

AVANTE!!! - grita o capitão!

Eu saio correndo o mais rápido que posso. Nem sinto - ou me preocupo - com as minhas pernas. Eu miro um muro lá na cidade que pode me dar cobertura e corro em linha reta até ele. Escuto tiros. Amigos meus caindo. Então, ouço a primeira explosão! Um soldado do outro pelotão (correndo à frente de todos, assim como eu), pisou em uma mina! Então outro. E mais um.

Por um instante, eu penso "Que bela maneira de se proteger! Além de atacar aos invasores, as explosões alertarão a todos os soldados alemães da base!". Mal terminei de pensar isso e a guarda triplicou. Notava dúzias de alemães se aproximando de seus colegas, aumentando o fogo contra nós.
Então eu notei que não chegaria ao muro. Haviam muitos alemães atirando e eu sequer sabia como ainda não havia sido atingido. Desviei o olhar e notei uma casinha mais próxima. Corri para dentro dela. Só a sorte pode explicar como eu não levei nenhum tiro.

Dentro da casinha eu continuava escutando as explosões de minas, os morteiros e os tiros. Primeiro, só tiros de rifles. Depois, metralhadoras. Por fim, de artilharia pesada. A janela da casinha mostrava apenas meu pelotão correndo para a morte certa. Foi aí que eu me apavorei. Olhei ao meu redor, procurando algum lugar onde me esconder ali, naquela casinha minúscula. Tiros batiam nas paredes de tijolos, por fora da casinha. Pó por todas as partes. Não havia lugar algum onde eu pudesse ficar a salvo por algum tempo. Então eu notei que, pendurado na parede, estava um uniforme alemão.

Por um instante, meu sangue gelou. Sim, a minha única saída, ali, seria tentar passar-me por um soldado alemão. Mas... Pensando bem... Meu cabelo é castanho claro, quase loiro. Meus olhos são azuis. Alemão é uma língua que eu sei falar com certa desenvoltura... É insano mas poderia dar certo.

Tirei o meu uniforme e o escondi, junto com minha arma, dentro de uns sacos sob a cama. Rapidamente, coloquei o uniforme alemão. Lembra da sorte? É, ela continuava ao meu lado. O uniforme alemão ficou perfeito em mim. Agora, eu teria que encenar muito bem.

Quando terminei de me vestir, os tiros já haviam cessado. A última explosão de mina já passara de um minuto. O massacre havia acabado.
Saí da casinha empunhando a metralhadora alemã que estava junto do uniforme que me apropriei.

- "Ei você! Vá verificar os mortos e feridos!" - gritaram em alemão, apontando para mim.

Acenei com a cabeça e passei a andar por entre os corpos dos meus amigos. Minha ideia era ir "verificando os mortos" até o bosque e, se desse tudo certo, ninguém me veria sumir por entre as árvores.

Então escutei um tiro. Olhei para trás. Outros soldados alemães que estavam "verificando os mortos" executaram um colega meu que ainda estava vivo. O esforço que fiz para não chorar ou para não atirar no maldito desgraçado foi imenso. Continuei andando. Então, vi o nosso tenente deitado, com a mão na perna. Ele havia levado um tiro de raspão e ficou deitado. Cheguei perto dele. Ele levantou os olhos e me reconheceu.

- "Diabos Arthur, o que você está vestindo?" - ele falou.
- "Senhor, essa é a única chance que teremos de escapar daqui com vida. Me acompanhe!" - respondi a ele.

Quando levantei-o, três alemães se aproximaram. Mandaram que eu largasse o tenente, que ele receberia o mesmo tratamento que os soldados americanos!

- "Vocês estão loucos?" - respondi em alemão - "Ele é um oficial, pode ter informações importantes! Vou levá-lo ao nosso capitão!". - arrisquei.

Os três se entreolharam, mas concordaram. Representando, tentei levar o tenente o mais confortavelmente, sem parecer que tinha compaixão por ele.
Ao nos apresentarmos para o capitão alemão, ele disse que eu havia pensado bem. Eu suava frio, com medo de ser descoberto e executado ali mesmo. Mas, em vez disso, fui destacado para levar o tenente para a enfermaria. "Que bom, os alemães fazem um curativo no tenente e, assim que a barra estiver limpa, nós damos o fora daqui!" - pensei.

Levei-o à enfermaria. O tiro pegou de raspão e só fez um ferimento pequeno na perna. O tenente iria mancar por alguns dias, mas não corria risco algum. Quando o enfermeiro terminou o curativo, mandaram que eu levasse o tenente para interrogatório, em um prédio próximo. Era a oportunidade. Ele ia mancando à frente, eu o segurava pelo braço, apontando a metralhadora para suas costas. Às vezes dava pequenos empurrões nele. Sempre com cara de sério e impetuoso.

Quando viramos a esquina, chegamos em um ponto onde o prédio estava próximo do bosque. Menos de cem metros. Dois guardas estavam na frente do prédio, escutando rádio. Arrisquei. Disse para o tenente para apressarmos o passo. Se a sorte ainda não me abandonara, conseguiríamos chegar ao bosque sem que ninguém notasse. Fomos. O tenente comentou: "Agora não tem mais volta. Ande rápido e não olhe para trás.". A tensão foi enorme, até que notei as sombras das árvores caindo sobre nossos ombros.

O alívio foi enorme. Corremos o mais rápido que podíamos. Subimos e descemos a colina. Um dia a pé até chegarmos na nossa base.

Então, eu acordei. Juro que fiquei um bom tempo na cama, pensando se fiz o certo nesse sonho. Se não teria sido melhor que eu tivesse saído da casinha e morrido, tentado salvar meus companheiros.

Só sei que foi um dos sonhos mais legais que tive.