sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Conto: Coadjuvante

Ela tinha medo de falar.

Não, não era bem de falar, como a gente fala todo o dia. Ela ria, comentava, respondia, fazia perguntas. Era meio quieta no trabalho e com os amigos, mas falava.

O medo dela era o de falar demais. Contar coisas dela.

E esse medo era com qualquer um, sabe? Mãe, Pai, irmã, irmão, amigos, professores, colegas... Não importava quem fosse, ela sentia receio em conversar com as pessoas.

Ela sempre achou esquisito, sabe? O medo dela de falar com os outros era porque todos pareciam tão protagonistas de suas próprias vidas, que ela não queria atrapalhar. Ela sentia medo de contar alguma coisa dela para o astro principal de outra vida e, no processo, atrapalhar toda a trama da novela que é a outra pessoa.

Ela lia comentários de suas amigas como "Sua inveja faz minha fama" e ficava pensando: "será que sou só eu que não acho essa minha amiga famosa?"

Bem, ela vê mulheres-"uma-Fruta-qualquer" sendo reconhecidas simplesmente por terem uma bunda gigante... "A encarregada do outro setor também tem uma bunda gigante. Deve ser famosa mesmo e eu nem sei!"

O fato é que todos pareciam tão importantes e concentrados em suas vidas, que ela conformou-se em ser a coadjuvante de todos os outros. Para que competir com tanta gente importante, no meio de suas vidas absolutamente fascinantes de festas, motos barulhentas e velozes, carros com som mal regulado e bebedeiras semanais?

Ela sofre quieta por não contar tudo o que sente para os outros. Por não ter ninguém a quem confidenciar seus planos e desejos. Pela turma não parar para escutar uma piada que ela conte.
Mas, no final, isso nem faz tanto mal assim. Talvez seja melhor mesmo não contar tudo para todo mundo. Enquanto os outros estão focados demais em suas próprias vidas importantes, ninguém acaba cuidando da vida dela.

É uma espécie de liberdade esquisita, mas reconfortante...