sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Preconceituoso!


Sim. Você mesmo. Aliás, eu também. Aliás, todos na face da Terra. E, sendo bastante sincero, todos os animais que já pisaram, pisam ou pisarão neste planeta. Abusando da amizade, caso existam seres em outros planetas, provavelmente eles também sejam.

Olha aí. Generalizei novamente.

Primeiramente, quero que você compreenda que eu não estou falando apenas dos preconceitos raciais, sociais, sexuais ou afins. Estou falando do preconceito enquanto característica instintiva.

Estou generalizando porque quero mostrar que existe um preconceito muito grande, hoje, contra o preconceito.

Há pelo menos dois aspectos de preconceito em que você se encaixa, e talvez você nem note. E, pasmem, esses exemplos ajudam a facilitar e até prolongar a sua vida.

O primeiro aspecto eu exemplifico com cobras. Existem as cobras peçonhentas, as constritoras e as inofensivas. Mas nós, humanos, mesmo com o sentido da visão privilegiado, não conseguimos discerni-las com uma breve observação. Mas só ó fato de você ouvir falar de um encontro de uma cobra com qualquer animal ou ser humano, para que você tenha preconceito com todas as outras cobras do mundo. Ou seja, depois de saber que uma única cobra matou, você evita e ojeriza qualquer outro ser rastejante.

Isso é o primeiro aspecto de preconceito que você possui. Você não passa por certos bairros à noite. Você não passa por certos bairros nem durante o dia. E não é medo. Não é pavor. Não se trata de trauma. É puro e simples preconceito. Mesmo porque você não será assaltado, seqüestrado, estuprado e morto só por subir algum morro dominado pelo tráfico. Mas você não o faz porque tem o preconceito de que lá é perigoso. E isso, talvez, salve a sua vida em algumas situações.

A base pura e simples do preconceito: porque uma vez, um indivíduo, com aquelas características fez algo, você estende a ação como hábito de todos os demais.

Mesmo sendo uma gigantesca MENTIRA.

No que tange ao segundo aspecto, alguns preconceitos são úteis no dia-a-dia. Por exemplo, não é a toa que o marketing e as marcas – armas do capitalismo – funcionam tão bem: elas nos ajudam a formar pré-conceitos.
Todos dizem que experimentam todas as marcas, para determinar as que mais gostam.
Mas a verdade é que muitas marcas você nem encosta, na prateleira dos supermercados. E nem estou me referindo às “marcas diabo”. Muitas pessoas simplesmente utilizam pela vida inteira a mesma marca que seus pais compravam, enquanto eram crianças. Sequer experimentam os concorrentes. Sequer imaginam em trocar da marca que sempre usaram.

E, mesmo que essas pessoas tenham experimentado uma única vez os produtos concorrentes, para basearem suas escolhas, várias marcas trocam suas fórmulas, lançam novos sabores e evoluem com o tempo. Mas você continua usando o mesmo produto, por simples preconceito.

Sim, preconceito. Vai lá. Tomas Coca-Cola ou Pepsi-Cola? Porque? Toddy ou Nescau? Porque?
Você já notou que existem outros refrigerantes de cola? Já notou que existem centenas de outras marcas de achocolatados em pó? Vai me dizer que experimentou a todos?

Não. Temos preconceitos no dia-a-dia. Preconceitos úteis para que não cheguemos às margens da loucura, com a enorme quantidade de opções. Elegemos os itens que mais gostamos, discriminando todo o resto.

Quer ver uma discriminação interessante? Ao escolher o seu cônjuge, você está discriminando todos os demais parceiros que você poderia ter no mundo inteiro. E você não chegou a experimentar os cerca de três bilhões e meio de pessoas do outro sexo, caso sejas heterossexual, ou do mesmo sexo, caso seja homossexual. Ou os sete bilhões de pessoas, caso sejas bissexual...

Estou escrevendo esse texto para mostrar que, embora seja errado nutrir alguns preconceitos, isso é uma característica do ser humano.
Se você não notou ainda, o pré-conceito é uma das mais refinadas armas evolutivas que existem.
Não é algo que pode ser “ligado ou desligado”. Precisamos de muita informação, orientação e até certa doutrinação para nos libertarmos da característica de criar preconceitos.

Daí, novamente, a necessidade de pais presentes e ativos na educação das crianças. É importante que os pais criem seus filhos sem o hábito de extrapolarem uma atitude isolada de um indivíduo como um comportamento padrão de todos os seus pares. Mesmo porque, mesmo sem esse cuidado de não criar preconceitos nas crianças, as próprias crianças já formarão os seus próprios preconceitos.
Agora imaginem quando os próprios adultos incentivam os preconceitos errados?

Complicado... Porque a solução mais idiota para terminarmos com o preconceito é o extremismo do “então não façam piadas de loira”. 
A principal arma para combater qualquer coisa é saber que ela existe e como ela se comporta.

O preconceito é uma ferramenta. E, assim como qualquer ferramenta, pode ser utilizada para coisas boas e para coisas ruins. Basta que você saiba utilizá-la.