segunda-feira, 28 de maio de 2012

Passeio de Bicicleta

Quando eu tinha 11 anos, fiz uma coisa daquelas do tipo "faça o que eu digo, não fala o que eu faço".

Pior: Eu gostei do que eu fiz. Eu descobri muito de mim mesmo nisso. Eu testei os meus limites. E ganhei.

Quando eu tinha 11 anos, eu fui, de bicicleta, de Criciúma até Balneário Gaivota.


Fiz 70 quilômetros de pedaladas, singrando mais de 40 quilômetros de BR-101. Uma pequena loucura, para uma criança.

Porque eu fiz isso? Após um delicioso almoço típico de uma família italiana (macarronada, molho vermelho com galinha, salada de batatas, suco de uva, salada de radite, etc...), eu queria ir jogar futebol, com a turma. Os guris da minha rua enfrentariam os guris da outra rua, em um campo de areia que ainda deve existir, no meu antigo bairro. Minha avó, entretanto, achava que eu havia comido muito. Que eu poderia "ter um troço", caso fosse jogar futebol. Mesmo o jogo sendo somente às três da tarde, ela não me deixou jogar.

No alto da experiência dos meus onze anos de idade, fiquei revoltado. Não entendia nada! Porque não poderia ir jogar futebol com a galera? Que mundo injusto!

Então, como sugestão, disseram que eu poderia andar de bicicleta. PERAÍUMPOUCO! Como assim eu não poderia jogar futebol duas horas depois do almoço mas, logo após ele acabar, eu poderia andar de bicicleta????

Ok, então. Se eu poderia andar de bicicleta, de bicicleta eu andaria!

Era uma hora da tarde e eu saí pelo portão da frente de casa. Eu não tinha planejado até onde iria. Só queria provar que eu poderia fazer um grande esforço físico, sem ter algum tipo de "revertério" ou cousa parecida.

Então, a lá Forrest Gump (que só seria lançado no ano seguinte), eu fui até o próximo bairro. Só que minha raiva não passou.
Decidi, então, ir até o centro de Criciúma. Naquela idade, até eu mesmo achava loucura pedalar até o centro. Só que, quando cheguei lá, vi que não era nada demais.
Então, decidi ir até o final de Criciúma. Escolhi o caminho mais longo e difícil de todos. Vários morros, muito movimento. Indústrias, caminhões. Mas passei por tudo isso, tranquilamente.
Quando cheguei na BR-101, nada demais havia acontecido. Estava cansado, mas não exausto. Estava naquele momento do exercício físico em que você se motiva pelo músculo que está ressentido.
Então, depois de passar por dois morros, pensei que a BR-101 não seria tão ruim assim. Era plana, até Balneário Gaivota, cidade onde minha outra avó mora, até hoje. O plano era perfeito: eu iria até a prainha, chegaria lá, tomaria banho, jantaria, dormiria e voltaria no outro dia. Minha aula era a tarde. Daria tempo para ir para o colégio, tranquilamente.
Fui até Araranguá. Lá, pedi um copo de água em uma lanchonete à beira da 101.
De Araranguá até Sombrio, foi um pulo. Fácil. De Sombrio até a praia é que o cansaço já estava instalado. Já fazia meus planos para quando chegasse em casa. Banho -> Janta -> Cama. Estava só na motivação, já.

Cheguei na casa da minha avó perto das seis horas da tarde. Nada mal. Setenta quilômetros em menos de cinco horas, por um garoto de 11 anos.

Só houve um problema. Uma coisa que eu não cogitei. Minha avó não estava em casa. Tudo fechado. Trancado. Nenhum vizinho estava em casa, também. Afinal de contas, a prainha sempre foi lugar de veraneio, mesmo. Só uns poucos se davam o luxo de passar algum tempo lá, no inverno. Com minha avó não foi diferente. Ela estava em Porto Alegre, na casa da sua mãe. Tentei quebrar um vidro da casa dela, para entrar, mas não consegui.

E agora?

Voltei até Sombrio. Havia um restaurante onde a minha avó sempre ia. Meu plano? Avisar que quebrei o vidro, pegar alguma coisa fiado para comer e, mesmo noite escura, pedalar até Criciúma. aliás, ainda acho que não seria nada demais. Não estava frio, não estava chovendo. Eu estava cansado e com fome, mas um lanche rápido (qualquer pacote de bolachinhas, sei lá...) já resolveria.

Os donos do restaurante não deixaram eu voltar. Fizeram-me dormir lá e, no outro dia pela manhã, chamaram a polícia, que me levou até o conselho tutelar. Minha mãe veio de Criciúma. Estava dopada e, mesmo assim, queria me matar.

Voltei para casa, perdi a segunda de aula, claro... E, o mais impressionante, foi a galera do colégio. Todos curiosos. Até aquele momento eu era o cara que tinha vindo do Rio Grande do Sul. Era o "gaúcho" da turma. Depois daquilo eu senti que muita gente passou a me ver com mais consideração.

Além disso, eu descobri exatamente o que poderia fazer: tudo. Desde então, nada é impossível, aos meus olhos. Porém, é claro, aprendi a planejar e organizar melhor as minhas empreitadas, hehe!

Mesmo assim, hoje, eu teria pego a bicicleta e ido até a casa de algum amigo. Esperaria até as três horas e jogaria o futebol com a turma. Voltaria para casa suado, sujo e feliz.